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“Há agravamento de riscos mas isso não significa uma nova Guerra Fria”

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Tiago Miranda

Entrevista a Alexander Vershbow, vice-secretário-geral da NATO

Cristina Peres

Cristina Peres

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Jornalista de Internacional

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

É preciso recuar ao período antes da construção do Muro de Berlim para encontrar um contexto tão complexo, volátil e perigoso como aquele em que vivemos. Quem o diz é Alexander Vershbow, número dois da NATO, que passou por Lisboa num périplo pelos membros da Aliança, que se reúnem em Varsóvia nos dias 8 e 9. Há dois anos nesta posição, Vershbow é um veterano que transitou para a NATO após três anos como assistente do secretário da Defesa norte-americano para os Assuntos de Segurança Internacionais, sendo responsável pela coordenação das políticas de segurança e defesa dos EUA para a Europa (incluindo a NATO), Médio Oriente e África.

Num espírito de reforço das relações NATO-UE, a agenda da cimeira dará igual atenção à defesa mista, à fronteira leste da Europa e à estabilização do Sul. Todos pontos quentes.

A importância da cimeira de Varsóvia (8/9) decorre da reviravolta provocada pela anexação da Crimeia pela Rússia em 2014?
‘Reviravolta’ é pouco. A segurança na Europa degradou-se após a trágica agressão russa na Ucrânia. Além da anexação da Crimeia, há guerrilha na Ucrânia oriental, apoiada e financiada pela Rússia. Em 2014 também se degradou a situação a sul, com a proclamação do chamado Estado Islâmico (Daesh). O terrorismo já estava ativo mas ganhou outra expressão. Na cimeira do verão de 2014 no País de Gales demos uma resposta imediata. Na de Varsóvia fá-lo-emos a longo prazo. Temos de ser muito realistas quanto a estes dois desafios, Rússia e Sul: são muito diferentes e vão ficar connosco por muito tempo. Como tal, exigem adaptações de longo prazo na Aliança, com uma combinação de defesa mais forte e medidas mais efetivas de projeção de estabilidade na nossa vizinhança.

A estratégia militar tem de ser cautelosa porque a atmosfera é sensível e as atitudes podem ser mal interpretadas?
Isso mesmo, temos de tomar medidas adicionais para dissuadir. O termo ‘dissuasão’ em francês significa ‘prevenção’. Já os russos usam a mesma palavra para ‘dissuadir’ e ‘conter’, conceitos que são diferentes. Nós usamos dissuasão como meio de evitar guerra, tornando claro para qualquer adversário — não só o Sr. Putin — que os custos da agressão podem ser muito altos. Em Varsóvia vamos aumentar a nossa presença, em especial na zona europeia aliada de nordeste, que é a mais exposta. Já lá temos forças múltiplas suficientes para dissuadir. Vimos a capacidade dos russos de mobilizarem numerosas forças muito rapidamente e quase sem aviso. Também recorrem a táticas híbridas, combinando subversão, engano e desinformação.

A NATO está a fazer o que é prudente?
Sublinho que estamos a ser muito cautelosos. Consideramos a nossa resposta proporcional aos exercícios dos russos, maiores e mais frequentes. Os russos têm-se reforçado em Kaliningrado, na Península ocupada da Crimeia e mais a norte, em Murmansk. Estamos a fazer o que é prudente, a tentar estabilizar uma relação muito perigosa.

Como avalia a situação atual tendo em conta a vulnerabilidade a ciberataques?
Manter uma defesa e uma diplomacia efetivas tornou-se mais difícil porque as novas tecnologias reduzem a capacidade de compreender quem nos ataca. Nem sempre sabemos qual é o alcance real de alguns incidentes que podem começar como ataques a sistemas informáticos de apoio. Uma explosão num depósito de gás pode ser um ato de guerra ou pode ser um acidente. É preciso descobrir. Acrescem as redes sociais e a desinformação dos media estatais russos, que pode criar tremendas confusões e paralisar processos de decisão. Gerir a segurança tornou-se uma tarefa permanente e sem intervalos. Exige mais agilidade e um mais eficaz cruzamento da informação com o planeamento militar. Exige ainda uma boa capacidade de avaliação das situações.

É, portanto, um ambiente mais nervoso e reativo?
Os riscos de se perder o controlo das situações é maior com as novas tecnologias, nomeadamente com o armamento moderno e a informação tática e estratégica. A NATO está a tentar atuar com ponderação, tomando medidas prudentes para dissuadir e deixando claro que não procuramos confronto. Não vamos voltar à Guerra Fria. Procuramos soluções pacíficas e negociáveis, queremos maior previsibilidade quando a Rússia insiste em ser imprevisível e finge que não houve agressão na Crimeia. É inaceitável! Gostaríamos de voltar à cooperação de há quatro anos.

Há críticos da eficácia do escudo antimíssil que pensam que a defesa do Leste europeu precisa de tropas e de equipamento de terra rápido. A situação a Leste mudou. E a estratégia da NATO?
A dissuasão e a defesa não mudaram muito. O que é agora mais difícil é pô-las em prática. Porém, a NATO adapta-se bem aos tempos e às alterações das circunstâncias. A força de reação rápida decidida há dois anos vai fortalecer a dissuasão e teremos grande eficácia de resposta até a agressões de tipo híbrido. Temos de impedir a expansão dos movimentos terroristas e aumentar a capacidade de defesa e reforçar as instituições dos nossos vizinhos no Médio Oriente, Jordânia, Marrocos, Tunísia, Iraque e até na Líbia, quando voltar a unir-se sob o governo nacional. A Coreia do Norte acaba de disparar mais mísseis balísticos... Por isso continuamos a acreditar que o escudo antimíssil é parte de uma defesa efetiva.

Os americanos ainda têm o papel na NATO que tiveram no passado?
O poder relativo dos EUA declinou, a China continua a crescer em termos políticos, económicos e militares, a Rússia mostrou que pode crescer mesmo com as suas dificuldades económicas (verificámo-lo recentemente na Síria e no leste da Ucrânia). É um mundo multipolar. Os EUA ainda têm um papel especial no mundo porque têm aliados que partilham valores e princípios como o Estado de direito e a ordem global e, com esses aliados, continua a ser protagonista na gestão das crises globais.

Qual o papel de Portugal?
Estou em Lisboa para sublinhar a importância da NATO e também do papel que aliados mais pequenos como Portugal desempenham nas missões de dissuasão. Portugal enviou alguns dos seus aviões para os Estados Bálticos como parte da nossa força aérea. É um exemplo de um aliado a fazer o seu papel na Aliança. Gostaríamos que gastasse mais dinheiro em defesa, mas esta é uma das minhas mensagens.

A relação da NATO com a UE é afetada pelo ‘Brexit’?
A UE é um parceiro muito importante e muitas questões de segurança só poderão ser respondidas com a UE. Um Reino Unido forte numa UE forte é vital para a NATO e para a segurança europeia. O contrário abre a porta à incerteza.