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“Se conhecerem toxicodependentes, matem-nos”

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Dondi Tawatao

Primeiro discurso público de Rodrigo Duterte após tomar posse como Presidente das Filipinas foi mais uma vez marcado por incitação à violência, em linha com a promessa de “mão dura” no combate ao tráfico de droga e à criminalidade

Dir-se-ia que o discurso de tomada de posse de Rodrigo Duterte na quinta-feira, após ter vencido as eleições presidenciais de maio com maoiria absoluta, foi moderado – dentro da moderação possível quando se fala de um homem, cognome "O Justiceiro", cuja campanha incendiária de exaltação de violações, insultos ao papa e a vários políticos e organizações internacionais e promessas de execuções em massa lhe valeu comparações ao aspirante à presidência dos EUA, Donald Trump.

No seu discurso oficial, Duterte estendeu a mão às elites das Filipinas, depois de, na campanha eleitoral, as ter atacado pelas críticas que lhe teceram, e também a organizações internacionais como a ONU e a políticos estrangeiros, que também atacou – mostrando-se relativamente comedido na retórica de combate ao crime que lhe valeu o primeiro lugar nas eleições.

"No plano internacional e na comunidade de nações, deixem-me reiterar que a República das Filipinas vai honrar os tratados e obrigações internacionais", garantiu a uma pequena audiência no palácio presidencial, depois de voltar a prometer que vai pedir ao Congresso que reinstaure a pena de morte por enforcamento.

Horas mais tarde, já perante uma multidão de mais de 500 pessoas numa favela de Manila, na capital, que celebraram a tomada de posse do seu novo líder, Duterte voltou à carga, repescando as promessas violentas de campanha de eliminar traficantes de droga e toxicodependentes.

"Esses filhos da puta estão a destruir as nossas crianças. Aviso-vos, não se metam nisso [na droga], mesmo que sejam da polícia, porque eu vou matar-vos", declarou o chefe de Estado para gáudio dos presentes. "Se conhecerem toxicodependentes, matem-nos vocês mesmos, porque é demasiado doloroso para os pais deles fazerem-no."

Repetindo um dos seus lemas favoritos de campanha, o novo Presidente sublinhou que faz todo o sentido do ponto de vista empresarial abrir novas agências funerárias. "Garanto-vos que não vão à falência. E se o vosso negócio abrandar, direi à polícia 'Façam-no mais rápido [matar traficantes, toxicodependentes e outros criminosos] para que as pessoas ganhem dinheiro'."

Horas antes, no discurso oficial de tomada de posse, Duterte tinha apesar de tudo deixado bem delineado o negrume que aguarda os filipinos nos próximos seis anos. "A viagem vai ser dura, mas mesmo assim juntem-se a mim. Os problemas que assolam o nosso país hoje e que precisam de respostas urgentes são a corrupção, tanto nos escalões mais altos do Governo como nos mais baixos, a criminalidade nas ruas e a venda galopante e ilegal de drogas em todos os estratos da sociedade filipina, bem como o colapso da lei e da ordem."

Durante a corrida presidencial, o advogado que foi autarca da cidade de Davao durante mais de 20 anos prometeu dar ordens às forças de segurança para atirarem a matar contra qualquer suspeito criminoso, oferecer recompensas em dinheiro a quem lhe entregar os corpos de narcotraficantes, encher a baía de Manila com os 100 mil corpos das pessoas que vai matar na campanha para "limpar" as ruas do país e reintroduzir a pena de morte que foi banida há dez anos.

Várias organizações não-governamentais acusam Duterte de, enquanto líder de Davao e procurador da mesma cidade, ter dirigido uma campanha de execuções extrajudiciais levadas a cabo por grupos violentos de 'vigilantes' que gerou mais de duas mil vítimas.

Essas mesmas organizações temem que, sob a sua presidência, o fenómeno das execuções extrajudiciais se alastre a todo o país, agora que a polícia e até os habitantes têm carta branca para matarem cidadãos. Desde que foi eleito há um mês, as autoridades deram início a operações de segurança nas ruas que, segundo vários media, já resultaram em dezenas de mortos.