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Boris Johnson não é candidato a primeiro-ministro

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PAUL HACKETT/REUTERS

No final de uma intervenção em que delineou a sua visão para o futuro do Reino Unido, o ex-autarca de Londres surpreendeu ao anunciar que não será ele a protagonizá-la

O Reino Unido teve hoje a maior surpresa (pelo menos para alguns) desde a vitória do Brexit no referendo de há uma semana. O ex-presidente da Câmara de Londres, Boris Johnson, anunciou que não é candidato a suceder a David Cameron no Governo e na liderança do Partido Conservador.

A corrida fica, assim, praticamente entregue aos ministros da Justiça, Michael Gove, e do Interior, Theresa May. São eles os principais candidatos, embora em liça estejam, ainda, o titular da pasta do Trabalho, Stephen Crabb, o ex-ministro da Defesa Liam Fox, e a secretária de Estado da Energia, Andrea Leadsom. Crabb e May apoiaram a permanência na UE durante a campanha do referendo. Gove, Fox e Leadsom foram pelo Brexit.

Nesta manhã de quinta-feira, após uma longa intervenção que parecia conduzir a um anúncio de candidatura, Boris afirmou que aquela era a agenda para o próximo líder, mas que esse líder não seria ele. O deputado e antigo autarca parece ter sido posto fora de jogo pelo anúncio surpresa, esta manhã, da candidatura de Gove, seu parceiro até há dias na campanha a favor do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) e com cujo apoio contava, já que Gove passou meses a dizer que não queria concorrer a líder.

“Tenho de vos dizer, amigos, que esperaram tão fielmente pelo desfecho deste discurso, que, tendo consultado colegas e tendo em conta as circunstâncias do Parlamento, concluí que essa pessoa não posso ser eu”, disse Johnson no final da sua intervenção. Não anunciou, por agora, se vai apoiar algum dos candidatos anunciados. Afirmou apenas que o seu papel será “dar todo o apoio possível à próxima liderança conservadora, para garantir que cumprimos adequadamente o mandato popular expresso no referendo, e defender a agenda em que acredito, que é a de falar pelas pessoas esquecidas deste país”.

Crescendo e anticlímax

Minutos antes, o então-ainda-potencial-candidato defendera que o novo tempo que o país vive “não deve ser visto como desculpa para hesitar”, uma frase que pode ser lida com ironia conhecendo-se a sua decisão final. Recomendando aos seus concidadãos “esperança e ambição”, Boris exortou-os a “não lutar contra a maré da história, antes aproveitá-la para navegar rumo à fortuna”.

O tom grandiloquente manteve-se na defesa da “economia dinâmica de mercado livre”, que beneficie a todos e não só a alguns, e na defesa de um “capitalismo mais justo”. O político elogiou o seu próprio trabalho na Câmara de Londres (2008-2016) enquanto promotor da “mobilidade social” (dificilmente visível nos custos astronómicos da vida em Londres) e afirmou querer “unir todos os que fizeram campanha para ficarmos e para sairmos da UE”.

Tudo parecia construir um crescendo para anunciar a aspiração a chefiar partido e Governo. Johnson até já tinha dito, há dias, que nessa hipótese não convocaria eleições antecipadas, porque já se sentia legitimado. Afinal, nada vai ser assim. A entrada em cena de Gove roubou a Boris todo o espaço político para avançar.

Escrevia hoje no diário “The Guardian” o colunista conservador Matthew d’Ancona: “Para Johnson, ser abandonado pelo fiador da sua candidatura e o seu apoiante mais exaltado – nesta fase em particular – é o pior revés da sua carreira política”. O apoio de Gove era fulcral para conferir uma aura séria à candidatura de Johnson, político muito popular mas visto como diletante, vira-casacas e algo apalhaçado.