Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

As contradições e complexidades do homem que se orgulha de matar criminosos

  • 333

reuters

Rodrigo Duterte chegou de rompante à campanha presidencial das Filipinas e assim continuou: com tiradas questionáveis, a ganhar pontos por entre insultos ao Papa, piadas sobre violações e ameaças aos bandidos e traficantes. Foi também acusado de criar esquadrões da morte e de mandar executar 700 alegados criminosos sem direito a julgamento - durante a campanha negou as acusações e corrigiu os números, reclamando ter executado, na verdade, 1700 pessoas. “Esqueçam as leis sobre direitos humanos. Vou atirar os criminosos à baía de Manila para alimentar os peixes.” Mas há mais: é elogiado por pagar do próprio bolso a advogados para defenderem mulheres que são vítimas de violência doméstica e por querer pôr na agenda o casamento homossexual – “todos têm o direito a ser felizes”. Há mês e meio acabou eleito Presidente. Quem é este homem complexo que desperta contradições e que chegou aos jornais de todo o mundo? Republicamos o perfil deste político, incluído no Expresso Diário do dia seguinte à sua eleição

É um conto clássico da política moderna: era uma vez um país que atravessava uma crise económica, social e política. O povo desconfiava irremediavelmente dos políticos, a que chamava corruptos e interesseiros; a pobreza e a miséria proliferavam nas ruas sem que ninguém as conseguisse parar. Eis que um dia, quando nada o fazia prever, surgiu um príncipe num cavalo branco pronto a salvar o país...

Muitas vezes, o “príncipe” desta história chega com palavras fortes, distingue-se por promessas pouco habituais e pela narrativa em que nega ser mais um daqueles políticos de que o povo desconfia. Nas Filipinas não foi diferente – Rodrigo Duterte chegou à campanha de surpresa, trilhou caminho e deixou para trás os cinco oponentes, tendo conseguido esta segunda-feira ser eleito Presidente do país.

Mas o que é que Rodrigo Duterte tem que tanto cativa os filipinos? Em primeiro lugar, o registo do novo Presidente, que antes de se lançar neste desafio foi advogado, procurador público e autarca da cidade de Davao durante mais de duas décadas, faz as vezes de amostra do trabalho que agora quer estender a todo o país. E os factos estão lá: Davao passou de ser uma das capitais do crime e do narcotráfico para passar a ser a quarta cidade mais segura da região, assegura a “Time” (e Duterte confirma, alegando que “é mais seguro passear por Davao à noite do que apanhar o metro em Manila [capital do país]”).

Federico Pascual Jr., jornalista filipino e colunista de análise política no “The Phillipine Star”, explica ao Expresso o fascínio por Duterte: “A promessa mais significativa – e que vai testar a sua sinceridade e capacidade – é a de parar o crime, a corrupção entre as autoridades e a ameaça da droga nos próximos seis meses. Vivendo nas Filipinas há 76 anos, estou cético de que o Presidente consiga realizar a missão sequer no dobro do tempo que propõe, mas eu e o resto dos filipinos esperamos que o consiga fazer sem violar direitos humanos”.

getty

A referência ao respeito pelos direitos humanos é a farpa que todos lançam ao discurso populista de Duterte. Federico Pascual Jr explica que Duterte poderá optar enquanto Presidente, “tal como aconteceu em Davao, por liquidar alguns dos maiores nomes do crime, para que sirvam de exemplo, esperando que as execuções extrajudiciais provoquem medo aos restantes criminosos e os façam desistir ou desaparecer”.

O próprio Duterte admite e gaba os seus métodos pouco ortodoxos no combate ao crime. Durante a campanha, na qual foi apelidado de “o justiceiro” ou “o castigador da Filipinas”, o novo Presidente foi acusado de criar esquadrões da morte em Davao e mandar executar 700 alegados criminosos sem direito a julgamento. Na campanha negou as acusações e corrigiu os números, reclamando ter executado, na verdade, 1700 pessoas. “As funerárias vão ficar repletas. Eu levo os cadáveres”, disse num discurso citado pela “Time”. No comício final antes da eleição, acrescentou: “Esqueçam as leis sobre direitos humanos. Se chegar ao palácio presidencial vou fazer exatamente o que fiz enquanto autarca. Vou atirar os criminosos à baía de Manila para alimentar os peixes”, relata a BBC.

Sobre Duterte, o candidato que usa “uma linguagem forte e profana” para fazer “promessas diferentes dependendo da audiência que se encontrava diante de si”, como relata Federico Pascual, há muito para contar: que o novo Presidente insultou o Papa, que se disse fã de Viagra e que causou uma polémica que podia ter prejudicado gravemente a sua campanha quando se referiu à violação de uma missionária australiana em Davao no ano de 1989 com estas palavras: “Fiquei furioso com a violação, mas ela era tão bonita que pensei que o presidente da Câmara devia ter sido o primeiro a fazê-lo”. Confrontado com as críticas dos mais variados quadrantes, respondeu simplesmente: “É assim que os homens falam”.

reuters

A caricatura de Duterte é fácil de fazer, mas limitar o novo Presidente às estranhas promessas de combate ao crime (conta-se que o próprio espancava criminosos e oferecia cestos de alimentos aos polícias de Davao para evitar que aceitassem outros subornos) não chega. Tudo porque Duterte é um homem de contradições e quando julgamos saber tudo sobre ele, que é comparado a Donald Trump pelo estilo provocador e a aura de voto de protesto, descobrimos mais qualquer coisa de surpreendente.

Por exemplo: na “Time”, a senadora filipina Pia Cayetano, defensora dos direitos das mulheres, relembra que conhece há muitos anos o novo Presidente e que sempre a impressionaram os programas por ele promovidos em Davao para que mais mulheres chegassem a cargos na administração local – programas inclusivamente adoptados a nível nacional. “Disse-lhe que tem de mudar de linguagem drasticamente, porque isso distrai as pessoas do trabalho que tem feito”, ressalva Cayetano. Duterte tem sido elogiado por pagar do próprio bolso a advogados para defenderem mulheres que são vítimas de violência doméstica .

Outra surpresa é a posição do candidato sobre os direitos LGBT, uma vez que Duterte admite colocar o casamento homossexual na agenda política e insiste que “todos têm o direito a ser felizes”. Quanto às comparações com Trump, chama-lhe “intolerante” e relembra que tem defendido a necessidade de haver um processo de paz entre o Governo filipino e os rebeldes muçulmanos, que diz serem discriminados na ilha de Mindanao.

Uma das questões mais importantes da política externa filipina é a da soberania das ilhas Spratley, situadas a 160 quilómetros das Filipinas e a 800 quilómetros da China e reclamadas pelos dois países. Ao contrário do ainda Presidente Aquino, que se tem recusado a dialogar com os chineses, Duterte insiste que a situação deve ser resolvida com diálogo e partilha dos recursos da região e remata com mais uma tirada ao seu estilo próprio: caso as palavras não resolvam o conflito, o presidente promete “ir até à China de jet-ski e espetar a bandeira filipina”.

getty

Para Aries Arugay, professor de Ciência Política na Universidade das Filipinas, há uma explicação para as contradições de Duterte, o homem que por um lado promove a execução sem direito a julgamento e por outro pede mais diálogo: “Há acusações de desrespeitar direitos humanos mas isso é tudo conversa de candidato e não políticas que venham de um presidente em funções”. De resto, a fórmula do sucesso parece simples: “A sua mensagem de combate ao crime e à falta de segurança é simples e soa a autenticidade para os filipinos”. “Os filipinos já tiveram muitos políticos eloquentes, educados e inteligentes que não resolveram os problemas do país.”

Ignacio Martínez López, espanhol e residente nas Filipinas, analisa a situação da mesma forma: “Os filipinos, que são um povo calmo e pacífico, veem nele uma última hipótese de melhorar a situação”. “Ele representa a parte sul do país [Duterte nasceu na cidade de Cebu, no centro das Filipinas, e liderou Davao, no sul], o que é histórico porque os candidatos e consequentemente os presidentes vêm quase sempre da parte norte, onde está estabelecida a capital do país desde a colonização norte-americana”, acrescenta Ignacio, líder de equipa numa empresa informática das Filipinas, ao Expresso.

Amigo de Ignacio e residente em Manila, o português Óscar Peixoto, analista financeiro, fala da popularidade que chegou depois de Duterte ter mostrado que consegue transformar a cidade que governa “num paraíso para os habitantes e num inferno para os criminosos”. A namorada de Óscar, assim como toda a respetiva família, votou em Duterte e é uma “fervorosa apoiante”: “Duterte tornou-se a própria imagem da revolta filipina, o homem do povo que não esconde nada”. E se fosse em Portugal? “O assunto torna-se mais complexo porque o discurso de combate ao crime é associado a uma ala de direita, mais nacionalista. Para se conseguir algo do género tinha de ser um candidato de fora do sistema”, diz Óscar Peixoto, que no entanto imagina que no caso de haver “uma crise profunda na União Europeia, um aumento da criminalidade no país ou um choque de culturas e religiões”, Portugal poderia ter o seu próprio Rodrigo Durterte.

Perguntamos a Federico Pascual se alguém com o discurso de Duterte, alguém que enfrenta acusações de desrespeito pelos direitos humanos, pode adequar-se ao cargo de Presidente. O jornalista responde de rajada: “Essa questão é agora académica, desde que os filipinos o escolheram entre seis candidatos para ser o presidente” – as contagens oficiais ainda não foram divulgadas, mas os números foram tão claros que todos os oponentes de Duterte já reconheceram a derrota. “Boa sorte para nós!”, acrescenta o jornalista à despedida.

[Texto original publicado no Expresso Diário de 13 de maio de 2016]

  • Novo Presidente das Filipinas é o “Donald Trump do leste”

    Conforme antecipado pelas sondagens, o vencedor das presidenciais filipinas é Rodrigo Duterte, um ex-autarca e ex-procurador de Davao que defende execuções extrajudiciais de criminosos e que no passado lamentou “não ter sido o primeiro” a violar uma missionária australiana morta numa prisão daquela cidade

  • Filipinos têm como favorito à presidência defensor de execuções extrajudiciais

    Mais de 54 milhões de filipinos são esta segunda-feira chamados a eleger o próximo Presidente do país, vários senadores e cerca de 18 mil autoridades locais, incluindo autarcas, nas 7000 ilhas do arquipélago. A liderar a corrida ao cargo máximo está Rodrigo Duterte, um homem que lamenta não ter sido “o primeiro” a violar uma missionária australiana que foi morta numa prisão de Davao em 1989