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Turquia está vulnerável, a braços com várias guerras e frentes

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Getty Images

O sétimo atentado suicida com vítimas mortais ocorrido em Istambul ou Ancara desde outubro confirma a espiral de violência que se abateu sobre a Turquia nos últimos meses, resultado de todas as tensões associadas à guerra na vizinha Síria, mas também ao ressurgimento do conflito armado entre as tropas de Ancara e os separatistas curdos do PKK no sudeste do país

A Turquia viveu esta terça-feira uma sangrenta noite de terror, desta feita no aeroporto de Ataturk – o terceiro maior da Europa –, em Istambul, devido a mais um atentado suicida que vitimou pelo menos 41 pessoas (incluindo 13 estrangeiros – cinco sudaneses, dois iraquianos, um chinês, um ucraniano, um jordano, um tunisino, um uzbeque e um iraniano) e feriu mais de 200.

Tudo aconteceu pouco antes das 22h locais (menos duas em Lisboa), numa altura em que aterram dezenas de voos de vários destinos europeus, e partem outras dezenas de voos intercontinentais para destinos asiáticos e africanos, e quando o aeroporto ainda se encontrava cheio de gente. Três bombistas suicidas, armados com metralhadoras, e que terão chegado ao aeroporto num táxi, começaram a disparar antes do primeiro controlo de segurança, à entrada do terminal internacional, antes de detonarem as bombas que traziam consigo.

Um deles fez-se explodir já no parque de estacionamento mesmo em frente, enquanto a polícia conseguiu neutralizar um outro, que detonou a bomba já no chão, no interior do terminal, evitando o pior.

Este ataque – o sétimo atentado suicida com vítimas mortais ocorrido em Istambul ou Ancara desde outubro passado (ver final deste texto), confirma a espiral de violência que se abateu sobre a Turquia nos últimos meses, resultado de todas as tensões associadas à guerra na vizinha Síria, mas também ao ressurgimento do conflito armado entre as tropas de Ancara e os separatistas curdos do PKK no sudeste do país, que já vitimou milhares de pessoas desde que o PKK denunciou o cessar fogo em Julho do ano passado.

Apesar do atentado ainda não ter sido formalmente reivindicado, o primeiro-ministro turco Binali Yildirim já confirmou que “as evidências apontam para o Daesh”. Yildirim, que se deslocou imediatamente ao aeroporto de Istambul, recusou desde logo que tenha havido “qualquer falha de segurança” – de facto o ataque ocorreu perto do primeiro controlo de segurança à entrada do terminal, para passageiros e acompanhantes, que não existe em muitos outros aeroportos da Europa.

O Presidente turco Recep Tayyip Erdogan apelou aos países ocidentais “para tomarem uma posição contra o terrorismo”. Erdogan critica frequentememte os países europeus de não fazerem o suficiente. “Este ataque, em pleno mês do Ramadão, demonstra que o terrorismo atinge todos, independentemente da fé ou valores”, disse ainda Erdogan. Nas capitais mundiais sucedem-se as declarações de repúdio e tristeza por mais este ataque

Apesar de todas as medidas de segurança – o aparato policial é enorme por todo o lado, e os controlos de segurança nos aeroportos, terminais e centros comerciais são bem mais rigorosos do que na generalidade dos outros países europeus – a verdade é que o atentado desta terça-feira confirma a vulnerabilidade da Turquia, a braços com várias guerras e frentes a que parece não conseguir dar resposta. As autoridades não têm conseguido evitar que o país – outrora um pilar de estabilidade e segurança numa região conturbada – continue a ser palco de diversos ataques terroristas, a um ritmo assustador.

No fundo, a Turquia passou a ser uma das frentes da guerra da Síria: Ancara é uma parte interessada e ativa no conflito – defendendo a mudança de regime mas também participando na coligação internacional contra o Daesh. Para tal contribuem também os três milhões de refugiados sírios e iraquianos em solo turco, a existência de várias células ativas jiadistas, o milhar de cidadãos turcos a combater nas fileiras do Daesh, e uma fronteira mais ou menos porosa entre a Turquia e o Califado.

Ironicamente, este ataque aconteceu num aeroporto que foi durante meses, no início do conflito, a principal porta de entrada de jiadistas europeus para combater na Síria. Na sua obsessão com a queda de Al-Assad, e com uma política ativa de bloqueio às forças curdas sírias – as únicas tropas que se têm revelado eficazes na guerra ao Daesh, Ancara começou por fazer vista grossa em relação à ameaça jiadista e acabou por dar espaço ao Califado monstruoso. Se bem que a Turquia tivesse corrigido mais tarde as suas posições, decidindo participar ativamente na guerra contra o Daesh, a verdade é que a besta virou-se contra o feiticeiro.

Nos últimos meses Ancara tem bombardeado posições jiadistas com fogo de artilharia desde a sua fronteira, e a coligação internacional utiliza as bases turcas para as suas operações aéreas no norte da Síria – o ataque desta terça-feira será assim mais uma retaliação contra o regime “herege”, como é classificado o Governo turco na propaganda jiadista. Este ataque ocorre numa altura em que o autodenominado Estado Islâmico está a ser cada vez mais acossado, e tem perdido território, quer na Síria quer no Iraque – a própria capital Raqqa está cada vez mais cercada, tornando eventualmente mais prováveis estes atos desesperados.

Duro golpe para o turismo

O extravasar da guerra na Síria para território turco e o falhanço do processo de paz com os curdos, têm tido sérias consequências no importante sector do turismo, crucial para a economia turca –vale 25 mil milhões de euros por ano –, e que atravessa um dos seus piores anos de sempre – o número de turistas baixou pelo menos 30% em relação ao ano passado.

O ataque de terça-feira aconteceu precisamente numa das principais estruturas desse sector – o principal aeroporto da Turquia, que movimenta mais de 60 milhões de passageiros/ano, que é a sede da Turkish Airlines, uma das companhias aéreas que mais tem crescido nos últimos anos. O aeroporto, temporariamente encerrado depois do atentado, com dezenas de voos desviados para outras cidades, já reabriu esta manhã mas muitos voos foram cancelados e demorará várias horas até a circulação regressar à normalidade.

Istambul é responsável por um terço de todas as receitas turísticas e é uma das dez cidades mais visitadas do mundo, tendo recebido no ano passado mais de 12 milhões de turistas.

Este ataque decorre também na mesma semana em que Ancara anunciou o reatar das relações diplomáticas com Israel, e quando o Governo turco anunciou que estava a tentar fazer as pazes com Moscovo depois do abate do jato russo sobre o espaço aéreo turco em novembro passado. Ou seja, numa altura em que Ancara faz um esforço para a normalização com vizinhos, mais um sangrento atentado suicida vem abalar este país às portas da Europa, vital para a segurança e estabilidade do continente.

Ataques terroristas recentes nas grandes metrópoles turcas

6 de junho de 2016
Um carro armadilhado explode à passagem de um autocarro da polícia no centro de Istambul, matando 12 pessoas. O atentado é atribuído a separatistas curdos afiliados ao PKK.

19 de março de 2016
Um bombista suicida turco afiliado ao Daesh faz-se detonar na rua pedestre Istiklal, no centro de Istambul, matando quatro turistas, incluindo israelitas, americanos e iranianos.

13 de março de 2016
Um carro armadilhado conduzido por uma bombista suicida explode numa das principais praças de Ancara, matando 37 pessoas. Um grupo curdo reivindica o ataque.

17 de fevereiro de 2016
Um carro armadilhado conduzido por outro militante suicida curdo explode à passagem de autocarros militares em Ancara, vitimando 29 pessoas. O ataque é reivindicado também por um grupo separatista curdo.

12 de janeiro de 2016
Um bombista suicida sírio faz-se explodir perto de um grupo de turistas no coração do centro histórico de Istambul, matando 12 alemães. O atentado é associado ao Daesh.

10 de outubro de 2015
Dois bombistas suicidas turcos associados ao Daesh matam 103 ativistas curdos e de esquerda num comício em Ancara.