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Hollande quer aproveitar o Brexit para ganhar as presidenciais

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reuters

Pressionado, enfraquecido e sem tempo para esperar, François Hollande joga a sua sobrevivência política numa resposta rápida europeia ao Brexit

Muito enfraquecido politicamente em França, o presidente François Hollande deseja aproveitar a crise provocada pelo voto britânico no referendo sobre a União Europeia (UE) para reaparecer como um líder credível capaz de influenciar o que a presidência francesa chama “renovação que se impõe” na UE.

A alguns meses das eleições presidenciais da próxima primavera em França - nas quais as sondagens o têm dado como provavelmente eliminado logo na primeira volta –, o chefe de Estado francês não pensa apenas nos problemas da UE, mas também na sua sobrevivência política.

Pressionado internamente pela força considerável dos nacionalistas da Frente Nacional, de Marine le Pen, que ganharam novo fôlego com o Brexit e que queren colocar os problemas europeus no centro da futura campanha eleitoral, François Hollande espera alguma ajuda da chanceler alemã, Ângela Merkel.

Mas não é certo que a obtenha com franqueza, porque Merkel parece desconfiar de voluntarismos e defende mais, segundo fontes diplomáticas, a estabilidade da União Europeia e da zona euro do que os “novos impulsos” que Hollande propõe para a UE.

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Depois de uma reunião na segunda-feira, em Berlim, com Hollande e também com o presidente do conselho italiano, Matteo Renzi, os três divulgaram uma posição comum muito generalista e pouco concretizada na qual definiram quatro prioridades de trabalho: segurança (terrorismo e reforço do controlo das fronteiras da UE), crescimento e investimento, juventude e harmonização fiscal e social na zona euro. Os três evocaram em conjunto os vagos “novos impulsos” para a UE, mas não é certo que todos tenham exatamente as mesmas ideias sobre os assuntos concretos que devem ser incluídos na fórmula.

O apoio de Ângela Merkel a François Hollande não parece de modo algum evidente. A alguns meses das eleições em França e também na Alemanha, a chanceler nem sequer esconde que continua a falar com o precedente presidente francês, Nicolas Sarkozy, com quem almoçou a sós na semana passada. Depois do encontro a dois, o antigo presidente francês falou na necessidade de lideranças mais fortes neste momento na Europa, numa alusão clara a François Hollande, que Sarkozy acusa de falta de força, “de conteúdo e de visão”.

Sarkozy, que quer ser de novo o candidato da direita ao Eliseu, deseja que seja elaborado um novo tratado para “salvar a Europa” e criado uma espécie de fundo monetário europeu. Depois do almoço com Merkel, o ex-presidente sublinhou a existência de “grandes convergências” entre ambos. “Acho que a chanceler está pronta para avançar, calha bem porque vão decorrer brevemente eleições em França e na Alemanha”, acrescentou.

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No entanto, François Hollande não baixa os braços e continua a pedir um “Governo da zona euro”. Apoiando-se em Renzi e, diz-se em Paris, também nos países da Europa do sul, como Grécia, Espanha ou Portugal, o chefe de Estado francês pretende aproveitar a onda de choque provocada pelo Brexit para reequilibrar as relações de força na UE, que têm sido até agora favoráveis ao que os franceses chamam os “países do norte”.

De acordo com uma curiosa expressão de uma fonte diplomática contactada pelo Expresso, Berlim sempre desconfiou muito dos “faladores franceses”, suspeitos de serem mais propensos a fazerem grandes discursos do que a avançar com calma e realismo na construção europeia.

A Alemanha parece considerar que os “discursos com promessas irrealistas” acabam por favorecer o populismo e designadamente Marine le Pen, que é dada pelas sondagens como tendo presença certa na segunda volta das próximas presidenciais francesas.

As divergências entre Paris e Berlim persistem mas, na capital francesa, onde continua a criticar-se a “ortodoxia económica” de Merkel, acredita-se ter chegado o momento de não perder tempo, enviar sinais fortes aos cidadãos europeus, unir esforços para responder aos desafios do Brexit e travar um “possível e perigoso contágio” do voto britânico a outros países europeus.
As propostas de Merkel, Hollande e Renzi vão começar a ser discutidas esta quarta-feira em Bruxelas e o presidente francês deseja que elas desemboquem em medidas concretas “nos próximos seis meses”.

Em termos políticos, é crucial para François Hollande - que parece pronto a lançar-se numa nova campanha eleitoral - avançar muito rapidamente. É que Hollande não tem tempo para esperar porque ele já parece ser considerado por alguns dos seus parceiros europeus - e por boa parte dos franceses - como sendo um político em fim de reinado, que tem sido designadamente incapaz de travar a ascensão de Marine le Pen no seu país.

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