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Ascensão e queda de um vendedor de revistas que virou mestre do tráfico

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TRÁFICO. Nem foi preso em 2011, depois de um percurso marcado por operações cinematográficas de fuga da polícia

REUTERS/STRINGER

Um homem à beira do precipício, com a filha à morte e aos seus pés cem mil pessoas e um império de droga. Ascensão e queda de um vendedor de revistas ou a história de Nem, o “patrão” da Rocinha, transformada em tema de um livro lançado no Brasil

No verão brasileiro de 1999, a bebé de nove meses não parava de chorar e os nervos do pai, de apenas 24 anos, pareciam explodir. Sem saída, ele percebeu que teria de tomar uma atitude, custasse o que custasse. Saiu de casa e subiu a ladeira da favela da Rocinha. Ficou cara a cara com Lulu, Luciano Barbosa da Silva, o dono do tráfico de drogas local e uma das principais lideranças do temido Comando Vermelho. Já não tinha como recuar.

Depois de explicar o seu drama — “a minha filha vai morrer se eu não fizer nada” — e de se oferecer para trabalhar com Lulu, conseguiu o dinheiro que precisava para pagar o tratamento de Eduarda, a quem fora diagnosticada uma doença rara, histicidiose X. Quando se pôs a caminho de volta, levava o bolso cheio, mas já não era Antônio Francisco Bonfim Lopes, vendedor de revistas, voltara a ser Nem, alcunha de infância transformada agora em nome de guerra. Começou ali a caminhada do novo “patrão” da maior favela da América Latina.

“O mestre”, como ficou conhecido, tem 40 anos e está preso desde 2011, mas mesmo ausente será esta quarta-feira uma das personagens principais da abertura da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), com o lançamento de “Nêmesis: um homem e a batalha pelo Rio”, livro do jornalista inglês Misha Glenny, que durante dois anos mergulhou na história de um dos principais traficantes cariocas.

Conta que Nem começou como “segurança das bocas de fumo”, os locais na favela onde se vendem os estupefacientes. Inteligente e sensato, foi subindo na hierarquia da criminalidade. Transformou-se em braço direito de Lulu, que se considerava um “empresário que não gostava de violência porque prejudicava os negócios”. Nem ajudou a mudar a imagem da Rocinha, onde vivem mais de cem mil pessoas e passaram a acontecer espetáculos de música, capazes de atrair visitantes da classe média. Gente do asfalto, como se diz no Rio de Janeiro sobre quem não vive nas comunidades carenciadas.

FAVELA. Misha Glenny, jornalista inglês na Rocinha

FAVELA. Misha Glenny, jornalista inglês na Rocinha

Caos instalado

Uma briga entre os líderes do tráfico carioca alterou os planos de Lulu e Nem. Um novo grupo subiu ao poder, os Amigos dos Amigos (ADA), a guerra instalou-se e o confronto atraiu o temido Batalhão de Operações Especiais (Bope), que ocupou a favela com 1200 policiais. Lulu foi morto e o caos instalou-se na Rocinha. Quando Erismar Rodrigues Moreira, o “Bem-Te-Vi”, também foi morto pela polícia em 2005, Nem e Joca, João Rafael da Silva, assumiram o controlo do tráfico, mas pouco tempo depois Joca caiu nas mãos da polícia e Nem passou a dominar sozinho a venda de drogas a partir da comunidade.

Misha Glenny falou com moradores, amigos e inimigos de Nem. Durante três meses, mudou-se de armas e bagagens para a Rocinha. Políticos e polícias também foram entrevistados e até José Mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, foi ouvido. Por dez vezes esteve frente a frente com Nem, num total de 28 horas de conversas. Com base nestas informações, consegue agora descrever o modo de atuação do traficante.

Fica claro que a sua rede de atuação é baseada na proximidade com os moradores da favela e num esquema de corrupção dos policiais. Proíbe o consumo de crack e oferece ajuda económica a quem precisa. Constrói um campo de futebol e paga tratamentos médicos. E assim, transformada em espaço “cool”, a Rocinha chega a comercializar 60% da cocaína consumida no Rio de Janeiro.

Nem gosta de ostentar as suas posses, sejam joias ou mulheres, e ficou célebre a sua relação com Danúbia de Souza Rangel, a “xerifa” da Rocinha, libertada há cerca de dez dias depois de uma prisão de uma ano e meio por associação ao tráfico de drogas. Roupas de marcas caras e importadas, muito ouro e implantes de silicone eram os caprichos de uma mulher agressiva, que queria ter uma onça de estimação. Mas cómico é o episódio contado por Misha Glenny sobre Chico-Bala, o macaco de estimação do traficante. Um símio que chegou a ser sequestrado pelos polícias, com direito a pedido de resgate. E é aqui que a violência de Nem torna-se mais explícita: no seu relacionamento com as mulheres.

Com queda para personagem de filme de ação, Nem ganhou fama quando mandou o seu grupo invadir um dos principais hotéis de luxo do Rio de Janeiro, o Intercontinental, em plena zona sul, e desta forma despistar a polícia, permitindo-lhe concretizar uma fuga espetacular.

Em 2010 forjou a própria morte, com direito à simulação do funeral para escapar a novo cerco policial, mas desta vez falhou. No fim de 2011 cairia em definitivo nas mãos da polícia, às vésperas da instalação na Rocinha de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Na altura era já o traficante mais procurado do Rio de Janeiro. Foi encontrado na mala de um carro, à saída da favela, numa banal operação stop. Com ele estavam duas malas cheias de dinheiro e por pouco não houve troca de tiros entre as várias forças policiais, todas querendo ficar associadas à detenção.

Nem continua detido em Mato Grosso do Sul, interior do Brasil, numa prisão federal de alta segurança, com uma pena de 16 anos e ainda falta concluir o julgamento de 21 processos. Nêmesis, palavra escolhida para o título do livro de Misha Glenny é também o nome de uma deusa grega, a quem se atribui a missão da vingança para compensar bem e mal em idênticas proporções. Uma escolha curiosa para referir um homem simples, que dominou um império de droga e aguarda fechado numa prisão por um novo capítulo de uma história ainda por acabar.