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Parlamento britânico investiga alegada fraude na petição que exige novo referendo ao Brexit

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Drew Angerer/ Getty Images

Blogue HeatStreet diz que petição, que já conta com mais de três milhões de assinaturas, foi uma “partida” lançada pelo fórum 4Chan. Ao “The Independent”, jornal britânico que apoia a saída da UE, diz que foi ele que a criou em maio. Pelo menos 77 mil assinaturas de alegados habitantes da Coreia do Norte e do Vaticano já foram declaradas fraudulentas

Era antecipado que a confusão reinasse entre os britânicos no rescaldo do referendo da passada quinta-feira, no qual 52% dos eleitores votaram a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, sobretudo se o cenário batizado Brexit se concretizasse. Mas nada fazia prever que um dos maiores imbróglios no rescaldo da consulta tivesse a ver com as exigências de uma nova consulta, depois de os media britânicos noticiarem que muitos dos que votaram contra a UE afinal não queriam sair.

No domingo, o "The Independent" lançou uma notícia a dar conta de que uma petição online, que já conta com mais de três milhões de assinaturas, a exigir a convocatória de um novo referendo ao Brexit foi lançada em maio por um inglês que apoia a saída do bloco regional.

Num post de Facebook citado pelo jornal, William Oliver Healey mostrou-se insatisfeito com o facto de a sua petição ter sido tomada pelos apoiantes da permanência na UE e pelos que se arrependem de ter votado a favor do Brexit. Healey estava preocupado com a provável vitória da permanência na UE e decidiu criar a petição um mês antes da ida às urnas, para contemplar uma espécie de segunda volta caso nenhum dos lados ultrapassasse os 60% de apoios e a participação eleitoral ficasse abaixo dos 75%.

Quando a contagem de votos terminou na sexta-feira, a Comissão Eleitoral anunciou que 52% dos eleitores que foram às urnas são a favor da saída da UE, de um total de 72% que participaram no plebiscito. Nem Healey nem as sondagens antecipavam este resultado e, dado bater certo com as exigências delineadas na petição, esta foi repescada no rescaldo do referendo. "Por causa do resultado, a petição foi raptada pela campanha Remain. "Não havia garantias de uma vitória da saída naquela altura!", escreveu Healey inflamado.

A partir daqui, o enredo torna-se ainda mais confuso. No mesmo dia em que o "The Independent" citou o inglês como sendo o autor da petição, o blogue HeatStreet avançou em exclusivo alegadas provas de que a petição não é mais do que uma "partida" do fórum cibernético 4Chan, famoso pela partilha de imagens sarcásticas e pelo anonimato de grande parte dos seus utilizadores.

Num artigo intitulado "Petição de Referendo é partida do 4Chan: BBC noticia-a como real", os autores do blogue dizem que os "bots do 4Chan representam o derradeiro falhanço dos media mainstream", pelo facto de o canal público do Reino Unido "e outros media liberais" terem noticiado a petição como real e referido que parte dos seus já mais de três milhões de signatários "vivem fora do Reino Unido" – quando na realidade, e segundo uma investigação sua com base em provas como esta, a petição é uma piada e muitos dos seus alegados signatários são meros "scripts de bots". (Um bot é uma simulação de ações humanas repetidas através de um software concebido para esse efeito.)

Horas depois da denúncia, ainda no domingo, o comité de petições da Câmara dos Comuns anunciou na sua conta de Twitter que tinha aberto "uma investigação às alegações de uso fraudulento do site de petições" do Parlamento, declarando que "as assinaturas que forem comprovadamente fraudulentas serão removidas". Essa informação foi igualmente avançada pelo "The Independent", sendo que o tweet em questão parece ter sido apagado entretanto.

Já na segunda-feira, o mesmo jornal noticiou, sem qualquer referência à denúncia do HeatStreet", que pelo menos 77 mil assinaturas já tinham sido removidas da petição parlamentar nas primeiras horas do inquérito formal à fraude. Os mais de três milhões de assinaturas que continuam até à data na petição em questão correspondem a 30 vezes o número mínimo requerido de 100 mil para que uma exigência popular seja debatida e votada pelos deputados britânicos.

De acordo com o comité de petições de Westminster, a suspeita de fraude surgiu quando os investigadores perceberam que cerca de 39 mil residentes da Cidade do Vaticano tinham assinado a petição no domingo, apesar de haver apenas 800 habitantes no pequeno Estado que é a sede da Igreja Católica. Outros 23 mil signatários registaram-se como sendo da Coreia do Norte e 300 como sendo habitantes do Território Antártico Britânico, apesar de ninguém lá viver permanentemente, à exceção de 400 investigadores por limitados períodos de tempo.