Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Mulheres violadas e torturadas sistematicamente para dar “boa imagem” da guerra contra as drogas

  • 333

NICHOLAS KAMM

Novo relatório da Amnistia Internacional, com entrevistas a 100 mulheres em prisões federais no México, denuncia recurso das forças de segurança do país a abusos sexuais e tortura "de forma rotineira" para forçarem mulheres a fazerem “confissões” e assim aumentarem o número de detenções e de condenações no combate ao crime organizado

A Amnistia Internacional divulgou esta terça-feira os resultados de uma investigação inédita em prisões federais do México que sugerem que as forças de segurança do país estão a recorrer a tortura e a outros maus-tratos, incluido abusos sexuais e violações, contra mulheres acusadas de crimes relacionados com narcotráfico no âmbito da estratégia de combate ao crime organizado conhecida como "guerra contra as drogas".

Das 100 mulheres entrevistadas pela organização não-governamental em prisões federais mexicanas, 33% foram acusadas de integrar redes de crime organizado, 23% de crimes de narcotráfico, 22% de rapto e 14% de posse ilegal de armas de fogo. Dessas, 72 dizem ter sofrido abusos sexuais durante ou após a sua detenção. Dez das mulheres estavam grávidas quando foram levadas para a prisão e oito delas perderam os bebés por causa dos maus-tratos que sofreram. A maioria são mães solteiras jovens e sem condições financeiras.

Tailyn Wang, uma cozinheira peruana que é mãe de três crianças, agora com 7, 10 e 17 anos de idade, estava grávida de dois meses do seu quarto filho quando agentes da polícia entraram na sua casa na Cidade do México, despindo-a e atirando-a ao chão. A mulher de 35 anos foi apalpada e espancada em frente aos filhos antes de ser vendada e levada sem qualquer mandado de prisão nem acusações formais.

Já no gabinete do procurador-geral da capital mexicana, Wang foi vítima de abusos sexuais e físicos até perder o bebé. A esvair-se em sangue e sem receber qualquer tratamento médico, foi ilegalmente transferida para uma prisão a centenas de quilómetros de distância, onde viria a ser formalmente acusada de rapto e crime organizado.

Mais de dois anos depois da sua detenção, Wang continua na prisão à espera de julgamento, sofrendo de dores fortes no maxilar, nos ombros e nas costas por causa dos espancamentos de que foi vítima. É uma de centenas de mulheres, muitas delas inocentes, que têm sido alvo de torturas e violência física e psicológica no âmbito da guerra contra as drogas, no que a AI diz ser uma estratégia das forças de segurança para melhorar os números de detenções e condenações e dar uma imagem positiva, ainda que falsa, à estratégia de combate ao crime organizado e ao narcotráfico.

No relatório, a organização aponta que as autoridades mexicanas estão a cometer "abusos brutais de forma rotineira", entre eles choques elétricos nos genitais, espancamentos, quase-asfixia e violação, quer com objetos como armas de fogo, quer com os dedos ou através de sexo forçado. Poucos ou nenhuns desses crimes foram julgados até hoje, é apontado na investigação.

Das 100 mulheres que falaram com a Amnistia Internacional, apenas duas se declararam culpadas dos crimes de que são acusadas, sendo que nenhuma ganhou nada em participar na investigação. A maioria passa anos na prisão à espera de julgamento, sem acesso a cuidados médicos nem a aconselhamento ou representação jurídica.

Como outras vítimas, Wang, que denunciou a tortura a que foi submetida junto de juízes, procuradores, médicos e da Comissão Nacional de Direitos Humanos, foi falsamente acusada de participar no narcotráfico por uma pessoa conhecida, um agente da polícia da Cidade do México, que também foi torturado para dar essas informações às autoridades. "Em vez de investigar a tortura que sofri, o sistema ignorou-me, incluindo os médicos, que me pressionaram a tomar medicamentos psiquiátricos para me calarem", contou ao "The Guardian" a partir da prisão.

Desde que o ex-Presidente do México, Felipe Calderón, destacou dezenas de milhares de tropas para as ruas do país a fim de combater o crime organizado e conter as lutas entre cartéis, amontoam-se relatórios e denúncias de tortura pelas forças de segurança.

Em abril, após um vídeo ter sido tornado público mostrando uma suspeita do sexo feminino a ser sufocada com um saco plástico por agentes da polícia e do exército, as autoridades viram-se forçadas a emitir um pedido de desculpas inédito. Mas nem isso nem os "numerosos protocolos introduzidos, como programas de treino e a criação de unidades especializadas" de combate a este flagelo, fizeram reduzir os números de detenções e maus-tratos ilegais no âmbito da guerra contra as drogas, aponta a Amnistia.

No relatório divulgado esta terça-feira, a organização aponta ainda que é entre os oficiais da Marinha que o problema parece ser mais grave, sobretudo desde que foram destacados para os estados mais violentos do país, como Veracruz e Tamaulipas.

Oito em cada dez mulheres entrevistadas pela Amnistia que foram detidas pela Marinha denunciam ter sido violadas. É o caso de Magdalena Saavedra, uma esteticista de San Luis Potosi, que foi sufocada, torturada com choques elétricos e violada de forma repetida e brutal por membros daquele ramo das forças armadas no Dia da Mãe em 2013, após ter sido falsamente acusada de trabalhar para um cartel da droga.

"Médicos estatais, advogados de defesa e procuradores públicos testemunham hordas de detidos que lhes são presentes pela polícia completamente espancados e desfeitos, e parecem tratar isso como sendo uma parte normal do seu trabalho do dia-a-dia", denuncia Madeleine Penman, investigadora da Amnistia no México. "É chocante ver que esta cultura de encobrimento ainda existe."

"As histórias destas mulheres pintam uma imagem absolutamente chocante do nível de tortura contra as mulheres no México, até pelos padrões locais", acrescenta Erika Guevara-Rosas, diretora do gabinete da organizaçao para as Américas. "A violência sexual usada como forma de tortura parece ter-se tornado uma rotina nos interrogatórios. Mulheres de estratos marginalizados são as mais vulneráveis à chamada 'guerra contra as drogas' do México e são normalmente vistas como alvos fáceis pelas autoridades, que muitas vezes parecem mais empenhadas em mostrar que estão a pôr pessoas atrás das grades do que a garantir que encontram os verdadeiros criminosos."