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A guerra civil dos trabalhistas britânicos

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TOBY MELVILLE / Reuters

Jeremy Corbyn, líder do maior partido da oposição, está sob fogo interno após a vitória do Brexit. Esta terça-feira enfrenta uma moção de censura do grupo parlamentar. Reportagem num comício de apoio ao chefe dos trabalhistas

Ana França

Ana França

correspondente em Londres

Quem manda no Partido Trabalhista britânico? As bases, que elegeram o líder com um mandato esmagador de 59,5%, maior que o de Tony Blair (o último líder trabalhista a vencer eleições nacionais, há mais de dez anos)? Ou os deputados, que foram escolhidos por uma fatia bem mais abrangente da população britânica?

É esta a pergunta que corrói o maior partido da oposição no Reino Unido, envolvido numa das maiores guerras internas da sua história depois de o líder Jeremy Corbyn ter demitido Hilary Benn de ministro-sombra dos Negócios Estrangeiros. Benn fora o primeiro a dizer, na sequência do referendo de quinta-feira, 23 de junho, que não confiava na liderança de Corbyn. O seu afastamento desencadeou uma debandada que já atingiu as 46 demissões no grupo parlamentar. Os deputados mantêm o assento mas deixam de ser porta-vozes e secretários da equipa de Corbyn nas mais variadas áreas.

Benn foi apenas a faísca que reacendeu as animosidades latentes no partido desde que Corbyn foi eleito, em setembro último, numa corrida em que entrou como outsider. O apoio que tem entre as bases não é replicado entre os deputados: só 15 dos 229 parlamentares trabalhistas o apoiaram. Conseguiu a nomeação para as eleições internas por "caridade" de muitos, que subscreveram a sua candidatura para alargar o debate, sem tencionar votar nele. Alguns chegaram a considerar, depois, terem sido "idiotas".

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Moção de censura votada esta terça-feira

Para os apoiantes de Corbyn que se reuniram esta segunda-feira ao fim da tarde em frente ao Parlamento, o facto de Corbyn estar a tentar transformar o partido em algo mais puro é não só um objetivo legítimo como um exercício essencial em democracia. "Corbyn foi eleito precisamente para contrariar o que até então se tinha feito no Partido Trabalhista, foi eleito para denunciar as injustiças e as desigualdades, foi eleito para se opor em qualquer circunstância a intervenções militares, foi eleito para denunciar o que está mal com a Europa, ainda que tenha optado, e bem, por explicar porque é que estaríamos melhor dentro dela. Será de novo eleito, com toda a certeza", diz Patricia Green, estudante de enfermagem londrina, de 23 anos.

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A vitória do Brexit no referendo espoletou, logo na manhã seguinte, pedidos de demissão de Corbyn. Duas deputadas apresentaram uma moção de censura ao líder, alegando que este não se empenhara o suficiente na campanha pela permanência na UE, à qual, de resto, aderiu tarde. Dos 17 milhões que escolheram sair da UE, muitos são eleitores trabalhistas desiludidos com o sistema e com baixos rendimentos.

Há menos de um ano Corbyn dizia à revista "New Statesman" que não sabia como ia votar. Crítico da ortodoxia financeira da UE, não partilha o entusiasmo dos seus antecessores pela União. O líder da campanha trabalhista do referendo, Alan Johnson, acusou mesmo a liderança do partido de dificultar a vida aos seus colaboradores. A moção de censura é votada hoje, por voto secreto.

Muito tem sido escrito sobre o lugar estranho em que Corbyn tem transformado o partido: os seus detratores dizem que o Labour é uma espécie de grupo de estudo para a implementação do socialismo (hoje ou daqui a um século) e não um partido preocupado em governar, ambição que implica vencer eleições.

Os apoiantes do velho combatente falam em visão e idealismo. "Jeremy é um visionário, um homem que não quer saber dos poderes instituídos, que vai até ao fim com o que acredita, é disso que o Labour precisa, e é por essa força, esse coração incorruptível que hoje estou aqui a lutar", diz Donna, sul-africana radicada na capital britânica desde 1989, que não dá o último nome porque trabalha para um deputado que se demitiu. Na sua opinião, os trabalhistas só podem vencer se adotarem a visão "dos trabalhistas antigos, que se preocupavam de facto com os trabalhadores".

Donna acrescenta que "Jeremy assenta tudo o que faz numa visão clara: não à austeridade, não aos conflitos bélicos, não às políticas neoliberais que privatizam tudo: a única coisa que é preciso é que os meios de comunicação o ouçam e não o amordacem: se a mensagem chegar aos enclaves que há três dias voltaram para sair da União Europeia, acredito que é bem possível ganharmos as eleições gerais. Durante anos o partido deixou de fazer campanha nos chamados 'assentos seguros' [circunscrições onde a maioria do eleitorado vota nos trabalhistas] e essas pessoas começaram a sentir-se abandonadas, migrando para o UKIP [o eurocético e xenófobo Partido pela Independência do Reino Unido] que, como qualquer nacionalismo, fala muito de patriotismo e de proteção dos sérvios públicos"

Ana França

Guerra de legitimidades

Esse é outro dos problemas: por muito irritados que estejam os trabalhistas do centro com a inccapacidade de Corbyn de se moldar ao sistema, os militantes do partido, que votaram em massa pela sua eleição, voltariam, muito provavelmente, a elegê-lo numa eventual eleição interna antecipada. As sondagens mais recentes mostram que mais de 70% dos inscritos no Partido Trabalhista aprovam o trabalho de Corbyn.

No comício de apoio ao líder aparece uma ave rara: um rapaz com um cartaz a dizer "Demite-te Corbyn". Não quer dar o nome completo ("James only"), mas diz que o partido só pode mudar alguma coisa se ganhar eleições. "É louvável que Jeremy esteja a tentar inserir nos seus discursos, e nos meios de comunicação social, um pendor mais esquerdista: nacionalizações, completa aversão a intervenções militares e todas essas coisas, mas os seus deputados não acreditam nele e isso causa muita desconfiança entre o eleitorado: se os próprios deputados não confiam nele, claro que os eleitores também não vão confiar. Se não tentarmos chegar às massas, nunca seremos poder", diz.

A praça diante do Parlamento está pejada de bandeiras e cartazes de apoio a Corbyn. Centenas de bandeiras vermelhas, sem nada escrito, misturam-se com fotografias de Corbyn, numa alusão ao famoso "Keep Calm and Carry On" (mantenha-se calm e ande em frente), divisa adotada pelo Governo britânico durante a II Guerra Mundial: "Keep Corbyn and Carry On". Há cartazes a pedir Corbyn para primeiro-ministro. De notar que a demissão do primeiro-ministro conservador, David Cameron, após o referendo pode desencadear eleições legislativas antecipadas, depois de o seu partido escolher o novo líder.

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Nas últimas 24 horas, mais 46 deputados apresentaram a demissão do Governo-sombra. É impossível não ver a gravidade da situação. Daniel Fraser, programador informático para para o Serviço Nacional de Saúde, de 40 anos, diz que "as políticas que o Parlamento aprova são de e para Londres, é normal que o pessoal do Norte de sinta abandonado, o Jeremy é simplesmente a resposta para esse alheamento, se as pessoas o deixarem trabalhar. Se o Partido Trabalhista alinhar ao centro, vão perder as eleições, metade para os Verdes, metade para o UKIP. Ao contrário do que toda a gente pensa, os britânicos querem mudança radical, mas mudança de esquerda. Por toda a Europa os partidos do centro estão a perder votos, o Labour não pode ser mais um exemplo de um partido acomodado ao status quo".