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Ensinar algoritmos através da dança

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Um “grande internacionalista” e figura carismática, Phil George, fala dos efeitos do Brexit sobre as artes

Luís M. Faria

Jornalista

Ver augustas figuras da vida cultural da nação, algumas delas em lugares institucionais de topo, entretidas a bailar danças tradicionais umas com as outras numa espécie de armazém, não é o tipo de cena que se espera encontrar no nosso país. Aconteceu há dias no país de Gales, e o Expresso assistiu. O lugar foi um pequeno centro cultural no bairro de Canton, próximo do centro de Cardiff, e a ocasião foi a despedida do presidente do Teatro Nacional de Gales (NWT), Phil George, um evento onde não faltaram discursos comovidos com uma boa dose de humor (toda a gente pareceu reconhecer as alusões à lendária verbosidade do presidente, a avaliar pelas gargalhadas). O NW é um projecto de longa data que tem como objetivo levar o teatro a todas as partes de Gales, e notabilizou-se pelas suas produções inovadoras em lugares inesperados - Os Troianos, por exemplo, foi apresentado numa carreira de tiro.

George, que permaneceu seis anos no cargo e foi agora descrito como "um grande internacionalista" pelos seus colegas presentes - afirmação com uma especial intencionalidade após o referendo desta semana - sai agora para dirigir o Arts Council of Wales, organismo que distribui os financiamentos oficiais atribuídos às artes. São quase cinquenta milhões de libras no total. Desse dinheiro, uns três quintos vêm do governo galês, e o resto da National Lottery (Lotaria Nacional), bem como, em menor grau, da Europa. Aproveitando um intervalo na festa, o EXPRESSO entrevistou Phil George sobre os possíveis efeitos do resultado da decisão britânica de sair da UE.

O que acha que pode mudar nas artes a partir de agora?
Vai ter um impacto considerável. Neste momento, quem queria ter a região de Cardiff como cidade europeia da cultura já está a sentir que isto enfraquece a candidatura.

A cidade pode candidatar-se, mesmo saindo o país da UE?
Realmente, não sei. Mas não há dúvida que a sua posição enfraqueceu. Em termos gerais, Gales tem recebido dinheiro europeu em grandes quantidades. Muitas das nossas organizações candidatam-se a fundos: na área dos media, arte, cultura. A situação neste momento não é clara, em relação às várias linhas de financiamento, possibilidades de coprodução e colaboração...

O que se sabe ao certo neste momento?
Bom, determinados financiamentos para projetos vão deixar de poder ser acedidos. Por exemplo, a relação entre artes e saúde está a receber um grande impulso aqui, e tínhamos a esperança de que, como parte desse pacote, pudéssemos abordar a Europa.

Gales tem esta coisa boa. Em diálogo com o Governo, desenvolvem-se formas de permitir que as artes façam diferença na sociedade, em áreas muito focadas. O Arts Council começa por financiar uma ecologia das artes muito diversa - apoiando-as por si mesmas, por o trabalho ser bom. Procura-se criar acesso, fazer com que as artes cheguem a uma audiência maior, uma vez que pertencem a toda a gente.

Tenta-se garantir que cheguem às faixas mais pobres, envolvendo também essas pessoas. E trabalha-se com o Governo para perceber como os artistas podem ajudar na educação, na saúde. Por exemplo, já está em curso um programa chamado Creative Learning (Aprendizagem Criativa). É um projeto de vinte milhões, que se encontra no segundo ano de cinco, e que tem tido um efeito profundo nas escolas. Um agente criativo entra em contacto com uma escola, e os dois por sua vez contactam uma escola onde vão lidar com um grupo particular de crianças que tem uma dificuldade particular de aprendizagem. Algoritmos, digamos, podem ser ensinados através da dança.

E funciona?
Funciona. Outras vezes é uma coisa mais simples. Por exemplo, chega a altura dos exames GCSE, aos dezasseis anos, e há alunos que estão um pouco desligados. Um artista leva-os a uma floresta e aí eles fazem o mapa da ilha e criam os pontos principais da narrativa. Isso transforma a escrita deles. Ao espalharmos estas práticas entre as escolas, ajudamos não só a melhorar a compreensão e a motivação dos estudantes, como a mudar a própria cultura.

A nossa própria iniciativa, na qual o governo Gales está mesmo muito interessado, é como usar as artes em certos problemas de saúde e bem estar. Uma das áreas mais óbvias é a da demência, em especial nas pessoas idosas. O Teatro Nacional de Gales acaba de fazer uma peça fantástica chamada Before I Leave (Antes de eu partir). E há pessoas a trabalhar em canto e música nos lares.

Outra área tem a ver recuperação de doenças físicas. Ajudar a reintegrar as pessoas na sociedade, a envolvê-las de novo. Tudo isto ajuda a melhorar o bem estar da sociedade. Já está a acontecer, vamos garantir que continua a acontecer, mas podíamos ter tido acesso a fundos europeus como parte do pacote.

Que percentagem seria?
Não faço ideia.

Mas seria significativo?
Teria sido útil, sim.