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As notícias sobre a morte do bipartidarismo foram manifestamente exageradas

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Denis Doyle/Getty images

O Partido Popular volta a sagrar-se vencedor das eleições espanholas, seis meses depois do último teste, e aumenta o número de deputados. Unidos Podemos falha o assalto ao segundo lugar, onde os socialistas do PSOE se mantêm. Recomeça o processo de negociação para formar um Governo saído destas eleições, de onde voltou a não emergir uma maioria clara

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Catorze novos deputados. É esta a vantagem com que o Partido Popular sai destas eleições, face ao ato eleitoral de dezembro, depois de ter vencido com 33% dos votos. Um resultado que há uma semana parecia improvável e que revelou um PP capaz não só de resistir, como de crescer. Enquanto o centro-direita se pode regozijar de ter vencido em 16 das 19 regiões espanholas (inclusivamente no bastião socialista da Andaluzia), os outros partidos assumem-se todos como derrotados: o PSOE perdeu deputados face a dezembro, o Unidos Podemos falhou o assalto ao segundo lugar e o Ciudadanos não conseguiu estancar a perda de votos.

“Este é o discurso mais difícil da minha vida”, garantiu Mariano Rajoy, líder do PP, este domingo à noite. Rajoy discursava do alto da varanda da sede do partido, acompanhado pela sua mulher, enquanto a multidão gritava “Sí, se puede!”. O antigo primeiro-ministro espanhol acabou por ir direto ao assunto no seu discurso: “Ganhámos as eleições e reclamamos o direito a governar”, disse, assegurando no entanto que no dia seguinte tratará de “falar com toda a gente”. Só assim Rajoy pode conseguir os 176 deputados necessários para ter maioria no Congresso espanhol, já que o PP conta apenas com 137 lugares.

Quanto ao PSOE, e ao contrário do que as sondagens à boca das urnas previam, conseguiu manter-se como segundo partido mais votado e “respira aliviado”, como escreve o diário “La Vanguardia”. “Não estou contente porque queríamos ganhar as eleições, mas devemos sublinhar que continuamos a ser a força política mais forte da esquerda”, assinalou Pedro Sánchez.

O líder dos socialistas, que conseguiram 85 deputados (menos cinco do que em dezembro) e 22,7% dos votos, aproveitou ainda para enviar recados a Pablo Iglésias, líder da coligação Unidos Podemos: “Espero que o senhor Iglésias reflita sobre estes resultados. Teve na sua mão votar a favor de um Governo progressista, teve na sua mão derrubar Rajoy, mas com a sua atitude fez com que o PP se reforce.” A mensagem referia-se à votação da investidura de Pedro Sánchez em março, onde o Podemos votou contra um Governo liderado pelo PSOE e apoiado pelo Ciudadanos.

Podemos e Ciudadanos desiludem

Iglésias é um dos grandes perdedores da noite, já que o Unidos Podemos (coligação Podemos-Izquierda Unida) não foi além de 21% dos votos e de 71 deputados, apenas mais dois do que tinha conseguido em dezembro. Mais importante ainda, falhou o segundo lugar, que as sondagens lhe davam como praticamente certo. “Não estamos satisfeitos com os resultados, tínhamos outras expectativas”, admitiu o líder do Podemos já a meio da noite, depois de o partido ter inicialmente reagido de forma algo efusiva às previsões à boca das urnas que o colocavam à frente do PSOE.

Também o Ciudadanos ficou aquém das suas expectativas e, inclusivamente, dos resultados que teve em dezembro - perdeu oito dos 40 deputados que tinha conquistado à altura e regista agora apenas 13% dos votos. O seu líder, Albert Rivera, apresentou-se naturalmente desiludido, mas voltou a dizer-se disponível para negociar uma solução governativa com PP e PSOE. “Só pedimos uma condição: deixem os lugares [no Governo] de lado. Caso contrário, o Ciudadanos estará na oposição”, garantiu.

Matemática ainda é complicada

Terá agora início o processo de negociações, com vista a formar um novo Governo. À semelhança do que aconteceu há seis meses, não há nem maioria absoluta de nenhum partido, nem nenhuma maioria provável. A soma PP + Ciudadanos não chega para maioria, já que se ficam pelos 169 deputados. À esquerda, uma aliança PSOE + Unidos Podemos fica ainda mais aquém, registando apenas 156 lugares.

Tendo em conta que uma aliança que envolva PP e Podemos está naturalmente fora de questão para ambos os partidos, isso significa que o mais provável é que qualquer solução tenha de contar com o apoio do PSOE. Para conseguir uma maioria de 176 deputados, há várias hipóteses na mesa. O PSOE pode viabilizar um Governo minoritário do PP, com ou sem o apoio do Ciudadanos, mas também pode entrar num Bloco Central com o maior partido da direita, se quiser chegar ao poder.

A alternativa é o PSOE chumbar a possível investidura de Rajoy e tentar formar Governo com o apoio do Unidos Podemos e do Ciudadanos. Uma ‘geringonça’ espanhola, feita apenas de partidos à esquerda, não é possível, já que - como já se disse - PSOE e Unidos Podemos somam apenas 156 deputados. Um acordo que envolva Iglésias e Rivera à mesma mesa também parece difícil atualmente.

A matemática espanhola é mais complicada do que a portuguesa, mas numa coisa a tradição mantém-se: seja qual for a solução, terá de envolver pelo menos um dos dois grandes partidos que têm dominado a política espanhola ao longo das últimas décadas. Depois de seis meses de impasse, o número de votos no PP e no PSOE nestas eleições chegou aos 13 milhões e 322 mil votos - cerca de meio milhão de votos a mais do que os dois partidos tinham registado nas eleições de dezembro. Afinal, o bipartidarismo em Espanha ainda vive, mesmo que sem o vigor de outros tempos.