Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Juncker: “A primeira questão é fazer um divórcio limpo”

  • 333

Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia

FRANCOIS LENOIR/REUTERS

Em entrevista ao jornal alemão “Bild”, Juncker instiste na rapidez da saída para reduzir o período de incerteza. Reconhece que vai “sentir falta dos britânicos à mesa” mas afirma que este não é o fim do projeto europeu

“Fora quer dizer fora”, diz Jean-Claude Juncker ao jornal alemão “Bild”. Questionado sobre se o Reino Unido vai receber um estatuto especial ou ser tratado como qualquer outro país terceiro, o Presidente da Comissão Europeia responde que os Tratados são claros e que “agora, a primeira questão é fazer um divórcio limpo, porque os cidadãos e as empresas necessitam de certeza legal”.

Sobre a parceria que vier a seguir, diz que terá de ter o acordo dos 27 e que depende do que o Reino Unido quiser para si próprio. “Certamente não haverá cherry-picking (escolherem o que melhor lhes convém).”

Mas são muitas as questões complexas que se colocam e que só deverão ter resposta durante as negociações com o Reino Unido. “Qual vai ser o estatuto legal de milhões de cidadãos europeus a viver no Reino Unido? E como é que a saída vai afetar milhares de pensionistas britânicos a viver em Portugal e Espanha que perdem acesso ao sistema de saúde?”, questiona o próprio Juncker.

É por isso que insiste que os britânicos têm de rapidamente notificar formalmente a UE de que querem sair, para que as negociações comecem e o país saia da União dentro de dois anos, o mais tardar. É a forma de diminuir o período de incerteza.

Acomodar preocupações de Cameron

“Até lá, após 43 anos de casamento, há todo um corpo legislativo que tem de ser desentrelaçado”, diz. Há 53 acordos de comércio que foram negociados pela UE em nome dos Estados-membros e que são uma questão importante a resolver agora.

Ao jornal alemão diz ainda que em Bruxelas tudo foi feito para acomodar as preocupações de David Cameron. “Os meus colaboradores e eu, pessoalmente, passámos dias e noites a negociar um acordo que fosse justo para o Reino Unido e para os outros 27 Estados”, diz, acrescentando ter ficado surpreendido pelo acordo negociado em fevereiro não ter tido qualquer papel durante a campanha do referendo.

“Se alguém se queixa da Europa de segunda a sábado, claro que ninguém vai acreditar nele no domingo, quando disser que é um europeu convicto”, atira Juncker.

O Presidente diz que muitas vezes as culpas são atribuídas a Bruxelas, mas que no caso do referendo, tal não se aplica: “o referendo foi convocado pelo primeiro-ministro britânico e não pelo Parlamento Europeu, a Comissão ou o Conselho Europeu”.

Questionado sobre se receia este tipo de referendos noutros países, Juncker responde que “os populistas nunca perdem uma oportunidade para fazer barulho em torno das posições anti-Europa”. No entanto, mostra-se convencido de que as repercussões do referendo britânico podem rapidamente travar esses movimentos, “se se tornar claro que o Reino Unido estava melhor dentro da UE, em termos económicos, sociais e de política externa”.

O Presidente da Comissão Europeia fala ainda da necessidade de “uma melhor Europa”, com menos interferência nas questões em que os Estados-membros conseguem decidir melhor sozinhos e mais trabalho conjunto em questões como a crise de refugiados e a segurança das fronteiras externas.

Alemanha continuará a ter “um papel central”

Já sobre o papel da Alemanha, Juncker diz que o país de Angela Merkel “vai continuar a ter um papel central - talvez mais importante – na Europa”. Mas recusa falar de eixos de poder a passarem de Paris para outras capitais, como Madrid ou Roma.

“Da mesma forma que a UE não foi dominada pelo Reino Unido no passado, não será agora conduzida por um trio diferente. O que é bom na União Europeia é que o projeto conjunto beneficie todos os Estados-membros.”

Europeísta convicto, Jean-Claude Juncker assume que a “família europeia é tudo menos perfeita”, mas diz também: “é o melhor que temos para juntar países da Europa à mesma mesa e forjar compromissos para que as pessoas possam viver em paz, liberdade e prosperidade”.

“Vamos sentir a falta do Reino Unido à mesa”, diz ainda, reconhecendo que com a saída dos britânicos, a UE perde uma “voz orientada para os mercados”. “Vamos ter saudades da abordagem pragmática, principalmente nas longas noites de negociação, com o seu charme britânico e o lendário sentido de humor”, acrescenta.

Em entrevista ao “Bild volta a negar que este seja o princípio do fim. “Definitivamente, não é”, responde Juncker, argumentando que a “União Europeia tem décadas a ultrapassar crises e sempre saiu delas mais forte”.