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Eu vi a Europa mudar… duas vezes

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No dia 9 de novembro de 1989, António Pedro Ferreira, repórter fotográfico do Expresso, estava em Berlim onde fez a cobertura da queda do muro. Nesse dia viu nasceu o sonho de uma Europa mais unida. Vinte e seis anos depois eis as suas impressões, no dia em que a Europa voltou a mudar

Estive na queda do muro de Berlim. Assisti a momentos de alegria, de ambos os lados do muro. Junto das brechas abertas, bebia-se champanhe transportado em motoretas e distribuído pela multidão em êxtase. Com a queda de um regime que não tinha mais nada a oferecer a não ser repressão e uma economia em escombros, adivinhava-se a construção de uma Europa mais unida, num sonho que se esfumou na sexta-feira com o resultado do referendo no Reino Unido. O desfazer de um sonho de uma Europa solidária, onde os mais pobres podiam contar com os mais ricos para diminuir as desigualdades.

Mas esta União Europeia não podia sobreviver com os egoísmos nacionalistas, as xenofobias e ameaças constantes à soberania dos povos, em nome de uma cartilha tão rígida como os planos quinquenais das economias socialistas. Aliás, assiste-se a uma curiosa e confusa inversão de papéis: até os socialistas europeus se mostram tão neoliberais como qualquer recém-licenciado da Escola de Chicago, escondendo debaixo do tapete qualquer intenção de defender os direitos dos trabalhadores, há muito consagrados em praticamente todas as constituições democráticas.

Que tem a União Europeia a oferecer? O medo do futuro, do desemprego, das quotas impostas por burocratas que não foram eleitos por ninguém... Na RDA vaticinava-se há muito que o regime não duraria, tal como nesta Europa onde só os ricos mandam. Um momento histórico, mas de sinal contrário. Tal como em Berlim, a derrocada da construção foi estrondosa. Mas não digam que não se estava à espera.