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O Reino Unido sai da UE e Cameron de Downing Street

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STEFAN WERMUTH

O primeiro-ministro não se considera apto a liderar o país no processo de abandono da União Europeia. Novo líder será escolhido pelo Partido Conservador até outubro

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Enviado a Londres

Ao contrário do que anunciou ao longo da campanha para o referendo sobre a União Europeia, David Cameron demitiu-se após ter sido derrotado nessa consulta popular. O primeiro-ministro afirmou que deixará a liderança do Governo e do Partido Conservador até outubro, pois não se considera apto a ser o "capitão que pilotará o barco no novo rumo" decidido nas urnas.

Só depois da mudança de primeiro-ministro é que as negociações do Brexit serão encetadas, isto é, o Governo do Reino Unido não vai invocar de imediato o artigo 50 do Tratado de Lisboa, que rege a saída da UE. Cameron assegura que esse processo terá de contar com a participação dos governos escocês, norte-irlandês e galês. Note-se que, se o País de Gales votou pela saída, como a Inglaterra (menos Londres), a Irlanda do Norte e a Escócia preferiam ficar na UE e em ambos estes territórios já houve reações separatistas ao resultado do referendo.

Cameron explica que ficará três meses no cargo para garantir alguma estabilidade e teve palavras de tranquilização para os mercados e também para os britânicos que vivem noutros países da União Europeia e nos cidadãos comunitários que estão no Reino Unido. "Nada muda, para já, na vossa situação". O governador do Banco de Inglaterra anunciará hoje medidas para proteger a economia.

Recordando que sempre defendeu que o país ficava "mais forte, mais seguro e melhor" na UE do que fora, Cameron elogiou o povo por ter participado num "exercício democrático gigante, talvez o maior da nossa história". E garantiu que "a vontade do povo britânico terá de ser respeitada".

Boris Johnson na pole position

O anúncio do primeiro-ministro desencadeará, imediatamente, uma corrida à liderança dos conservadores. Perfilam-se como candidatos, segundo a imprensa britânica, Boris Johnson, que foi presidente da Câmara de Londres até maio último e apoiou o Brexit, e os ministros europeístas George Osborne (Finanças) e Theresa May (Interior). Johnson parte em vantagem, dado o seu papel na campanha pelo Brexit.

Não tardarão a surgir declarações formais de candidatura a suceder ao primeiro-ministro demissionário. O processo de escolha passa primeiro pelos deputados conservadores, que reduzem o leque de aspirantes a dois, e depois pelos militantes, que elegem um deles. O próximo chefe do Executivo será escolhido, assim, por cerca de 150 mil pessoas, os militantes, entre duas figuras designadas por 330 parlamentares.

No sistema político britânico é banal e incontroversa a substituição do primeiro-ministro sem eleições. A última vez que tal sucedeu foi em 2007, quando o trabalhista Tony Blair deixou o poder ao fim de dez anos, passando o testemunho a Gordon Brown. Ainda assim, o novo primeiro-ministro pode sentir-se na necessidade de convocar eleições legislativas antecipadas, para se legitimar.

Brown foi criticado, dentro do Partido trabalhista, por não o ter feito. Não carecia de legitimação (era sucessor anunciado de Blair desde sempre) mas estava em boa posição de vencer as eleições em 2007. Preferiu esperar pelo calendário normal e perdeu-as em 2010.

No caso do próximo primeiro-ministro, a complexidade das negociações que se anunciam e a divisão que o resultado desta noite mostra existir no país, o Reino Unido precisa de liderança forte. Isso pode passar (pese embora o risco de instabilidade) por um refrescar da representação política nas urnas.