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Internacional

O Brexit vai mesmo acontecer

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Jack Taylor

Os britânicos votaram pela saída da União Europeia, por 52% contra 48% dos votos. Na Escócia e na Irlanda do Norte venceu a permanência. A Europa não volta a ser o que era.

And they’re out. O povo britânico escolheu sair da União Europeia, numa decisão histórica e de consequências difíceis de prever cabalmente. Com nove círculos eleitorais por apurar (em 382), é já claro que há uma maioria no Reino Unido a favor de abandonar a União Europeia (UE). A votação de ontem teve uma participação de 72%, tendo ido às urnas 33.568.184 dos 46.500.001 eleitores registados. Desses, 52% votaram para sair e 48% para ficar, com uma diferença de 1,2 milhões.

Foram os votos da Inglaterra (que tem mais de 80% do eleitorado) e do País de Gales a inclinar a balança a favor do Brexit, já que a Escócia (62%-38%) e a Irlanda do Norte (56%-44%) votaram a favor de ficar na UE. Este facto já gerou declarações dos líderes nacionalistas destas duas partes do Reino Unido. Já a capital do país, Londres, votou pela Europa. Em vão.

Sem que haja anúncios oficiais, as principais televisões já declararam o resultado e as capas dos jornais que estão a sair já refletem a vitória dos eurocéticos. Matematicamente já é impossível outro desfecho. O discurso mais esperado, e que deverá acontecer até às 8h, é o do primeiro-ministro David Cameron, o maior derrotado desta madrugada.

Primeiro-ministro em causa

Há quem defenda que Cameron não pode ficar no cargo depois de ter apostado tudo na permanência, após ter renegociado, em fevereiro, os termos da participação britânica na UE. Ontem, ainda antes da contagem começar, 84 deputados do Partido Conservador (liderado pelo primeiro-ministro) que apoiaram o Brexit escreveram-lhe uma carta a defender que ele tem “não só o mandato como o dever” de continuar.

“Fica, por favor, primeiro-ministro, dizem os piratas que tomaram conta do navio”, afirmou na rede social Twitter, com amarga ironia, o ex-líder dos Liberais Democratas Paddy Ashdown. O certo é que a posição política de Cameron é muito frágil num momento em que o Reino Unido precisa de liderança para as duras negociações do “divórcio” que se anunciam.

Apesar da carta dos 84, há 141 deputados conservadores (de um total de 330) a favor do Brexit. Não é certo que todos queiram Cameron ao leme. Será crucial ouvir um homem que ainda não festejou a vitória: Boris Johnson, deputado conservador, ex-presidente da Câmara de Londres e putativo candidato à sucessão.

Risco para a unidade do país

A primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, frisou que “ficou claro que o povo da Escócia vê o seu futuro dentro da União Europeia”. Líder do Partido Nacional Escocês (independentista), sugeriu várias vezes durante a campanha que uma vitória do Brexit podia ser motivo para repetir o referendo separatista de setembro de 2014, em que os escoceses rejeitaram a independência por 55%-45%. Desta vez, todos os 32 círculos eleitorais em que a Escócia se dividia no referendo votaram para ficar.

Patrick Harvie, dirigente do Partido Verde na Escócia, exige que se “examine e esgote todas as opções para manter os estreitos laços da Escócia com a Europa”. E a escritora J.K. Rowling, famosa pela série “Harry Potter”, antevê que Cameron fique conhecido como o homem que destruiu não uma mas duas uniões.

Se para norte cheira a referendo, a oeste fica a Irlanda, uma ilha que é parte soberana, parte britânica. Na Irlanda do Norte, o partido republicano Sinn Fein (que deseja uma Irlanda unida) afirmou que “o Governo britânico prescindiu de qualquer mandato para representar os interesses económicos ou políticos do povo da Irlanda do Norte”.

Mas não são só as regiões do Reino que estão divididas. É a sua gente. A distribuição de resultados dá conta de um país partido ao meio e os analistas explicam grande parte do desfecho com o descontentamento e a sensação que os cidadãos têm de não serem representados pelos políticos, sejam eles britânicos ou europeus.

Um calvário para o qual não há guião

A voz das urnas obriga o Governo de Cameron a invocar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, que estipula as regras para um país sair da União Europeia e que não tem história de aplicação na prática, já que tal nunca aconteceu. Duas questões prementes pairam sobre o Reino Unido: essa invocação vai ser imediata? E será o primeiro-ministro a pessoa capaz de liderar esse processo, que se adivinha longo e espinhoso?

Hoje, na BBC, os deputados conservadores Liam Fox e David Jones não quiseram responder inequivocamente quanto à manutenção de Cameron. Mas ambos defenderam que a invocação do artigo 50 não devia ser imediata. Com eleições em Espanha no domingo e em França e na Alemanha no ano que vem, tudo tem de ser conduzido com pinças.

O Tratado de Lisboa prevê, a partir da invocação do artigo 50, um prazo de de dois anos para negociar a saída. Até lá, o Reino Unido continua a ser membro da UE. Depois disso, todo e cada acordo de que é parte por pertencer à União terá de ser revisto.

Eurocéticos de outros países exigem referendos

Nos mercados, a reação não se fez esperar. Quando o primeiro círculo inglês, Sunderland, anunciou o seu resultado a favor da saída, a libra caiu fortemente em relação ao dólar e ao euro. Neste momento a quebra é para valores que não se viam desde 1985. E as bolsas asiáticas acusaram a inquietude na abertura.

Fora do Reino Unido, os eurocéticos não tardaram a reagir. Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa, celebra no Twitter a "vitória da linerdade". A chefe da Frente Nacional e candidata presidencial bem posicionada para 2017 exige referendos não só em França como outros países da UE. Já o populista holandês Geert Wilders felicita o Reino Unido e também quer um referendo no seu país. "Agora é a nossa vez", escreveu no Twitter.

O eurodeputado conservador alemão Manfred Weber, aliado próximo da chanceler Angela Merkel e presidente do Partido Popular Europeu, defendeu que o Reino Unido nao deve ter "tratamento especial" após uma decisão que diz "respeitar e lamentar".