Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Fim de noite em Manchester. Das últimas 42 pessoas, nem um voto Out

  • 333

Membros da campanha pelo 'Ficar' numa ação de campanha em Manchester

OLI SCARFF

Reportagem no fecho da assembleia de voto na Câmara Municipal de Manchester, o mesmo edifício de onde serão transmitidos os resultados oficiais, entre as oito e as dez da manhã de hoje

A mesa de voto fechou às 22h, mas os últimos eleitores não foram a correr para casa. Ficaram ali, a falar os que se conheciam com os que não se conheciam, como no fim de um dia de trabalho - e o Expresso esteve com eles. Na última hora em que esta mesa esteve aberta votaram 42 pessoas, nenhum voto pela saída. Ou pelo menos ninguém nos quis dizer. Pressão dos pares ou convicção genuína, a noite terminou num clima animado à porta da Câmara Municipal.

Não é uma amostra tão abrangente como as que se utilizam para as sondagens oficiais mas este microcosmos diz-nos alguma coisa, se não o resultando final, pelo menos sobre a fibra que sustenta a segunda cidade britânica. Invejavelmente diversificada, a economia da cidade dá cartas tanto na biotecnologia como no desporto, passando pela restauração de luxo e pelo design gráfico e serviços financeiros.

Daniel é designer gráfico, tem 27 anos e foi o único do grupo que disse ao Expresso que tinha considerado sair porque vê a Europa como "um organismo que não só protege como ajuda a que os privilégios se mantenham sempre nas mãos dos mesmos, como por exemplo nas mãos dos banqueiros que arruinaram essa mesma Europa e que "nunca deixará uma ideia mais rebelde vingar mesmo que seja o ideal para a realidade de um país". Mesmo assim escolheu votar para ficar exatamente pela mesma razão "como é que eu vou mudar isso, é o "isso" afecta milhões de europeus, se simplesmente sair da Europa?"

Já Jo, a sua namorada, fotógrafa, diz que nunca teve dúvidas "eu sinto-me europeia, sei que não há muitos britânicos que digam isto mas é quase uma espécie de crença: é uma organização pela paz que tornou Manchester numa cidade artística reconhecida internacionalmente por atribuir imensos subsídios que me ajudaram, por exemplo, a abrir o meu estúdio".

Manchester centro tem apenas meio milhão de habitantes e quase um quarto (24% segundo os últimos Census, em 2011) é de origem estrangeira, a maioria estudantes. Contudo há mais 11 milhões pessoas nos 50 quilómetros circulantes e aí só 7% são imigrantes. Como a maioria das gandra metrópole Manchester é uma cidade desigual: tem a maior concentração de multimilionários fora de Londres mas oito das suas 33 freguesias estão dentro do 1% de áreas mais pobres do país. Em Salford ou Hulme, por exemplo, segundo estatísticas da Autoridade para o Governo central quase todas as crianças enfrentam algum tipo de carência: alimentar ou energética por exemplo.

Hulme está "a renascer" por causa das ajudas da União Europeia, afirma Leslie Shalmers, de 65 anos, que ajudou a reabilitar a área nos anos 90 quando trabalhava na Câmara como arquiteta. "A UE destina muito do seu orçamento a áreas consideradas pobres ou muito pobres dentro da média europeia. Manchester tem recebido uma ajuda preciosa".

Shalmers lembra que "Manchester é uma cidade tolerante, onde, por exemplo, os homossexuais, sempre tiverem um porto seguro e vai votar eu diria 70% pela permanência". Mas para a arquiteta o ideal seria que a discussão sobre a Europa não morresse neste referendo porque, diz ela a apontar para Daniel, "os grandes grupos empresariais não podem atrofiar a pequena indústria e a atividade financeira não pode continuar nesta voracidade, a comer recursos aos cofres do estado".