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Efeito dominó: em cinco países já se fala de referendos sobre a União Europeia

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Dan Kitwood

Pelo menos quatro Estados-membros da União Europeia e a Turquia já estão a dar sinais de que pretendem consultas populares iguais à que, esta quinta-feira, ditou o fim da permanência do Reino Unido no bloco após 43 anos de integração regional. O que vem a seguir é uma incógnita

Os mercados estão em alvoroço. O preço da libra teve a maior queda num só dia de toda a sua história, um colapso de mais de 10% para valores que tinham sido registados pela última vez em 1985. A Europa e o resto do mundo acordaram hoje com a notícia que os europeístas otimistas nunca acharam que chegaria: com 90% dos votos do referendo britânico contabilizados, confirma-se que uma maioria dos eleitores do Reino Unido quer abandonar a União Europeia, na ordem dos 52% a favor do Brexit contra 48% que queriam ficar no bloco.

Depois de 43 anos de integração regional, o país — provavelmente já ao leme de outro político que não o atual primeiro-ministro, David Cameron — deverá nos próximos meses ativar o artigo 50.º do Tratado de Lisboa, que estipula as regras de saída de um Estado-membro e que nunca foi utilizado. Muitos vaticinam já o fim de um bloco criado no rescaldo da II Guerra Mundial para fomentar a paz e a cooperação entre as nações do continente europeu, depois de séculos de conflitos.

É o chamado efeito dominó, sobre o qual poucos ou nenhuns analistas quiseram debruçar-se aprofundadamente antes de o referendo acontecer. Agora que aconteceu, as probabilidades de outros Estados-membros seguirem o exemplo são mais reais do que nunca. Estes são alguns dos países da UE (e um aspirante a Estado-membro) que já sugeriram consultar às suas populações sobre a permanência no bloco (ou no caso turco, sobre a adesão a ele):

REMKO DE WAAL/ AFP/ Getty Images

Holanda

Ainda Boris Johnson não tinha reagido oficialmente aos resultados parciais da votação de quinta-feira e Geert Wilders já estava a celebrar a vitória do Brexit a partir de Amesterdão, numa série de publicações no seu Twitter ao longo da madrugada, à medida que a contagem apontava cada vez mais para a saída do Reino Unido da UE.

Há uma semana, o líder do partido PVV, populista, anti-imigração e islamofóbico, que neste momento encabeça as sondagens de intenção de voto para as legislativas da Holanda, tinha declarado em entrevista à BBC que não só esperava uma vitória do Brexit como que a seguir a ele viesse um "Nexit" (Netherlands + exit).

"Penso que seria uma coisa boa as pessoas do Reino Unido votarem para sair deste projeto político. Acredito que isso vai significar que outros países, como o meu talvez, encontrem um enorme incentivo para recuperar a soberania nacional. Estou a falar de uma primavera patriótica. Se queremos sobreviver como nação, temos de travar a imigração e travar a islamização."

Apesar de a declaração parecer extrema, alimentando em teoria esperanças de que a generalidade da população holandesa não caia na retórica isolacionista e xenófoba, o facto é que, em abril, os holandeses já tinham votado num referendo que apresentaram como "precursor" da consulta ao Brexit, no qual chumbaram a assinatura de um tratado comercial com a Ucrânia, tida como um primeiro passo para a eventual adesão da ex-nação soviética ao bloco europeu. Sondagens recentes que exploraram as visões e as opiniões da população europeia em relação ao bloco têm mostrado que há cada vez mais eurocéticos entre os habitantes dos Países Baixos.

Esta madrugada, com mais de 80% dos votos contabilizados no Reino Unido, Wilders confirmou a sua intenção de levar a cabo um referendo ao Nexit se for eleito para liderar o país em março — ou, pelo contrário, usar do seu poder dentro do parlamento para forçar uma maioria dos deputados a aprovar essa consulta popular.

"Queremos estar ao comando do nosso próprio país, do nosso próprio dinheiro, das nossas próprias fronteiras e das nossas próprias políticas de imigração", disse num comunicado citado pela Reuters. "O mais depressa possível as pessoas têm de ter a oportunidade de se manifestarem sobre a permanência holandesa na União Europeia."

JONATHAN NACKSTRAND

Suécia

De acordo com uma sondagem conduzida em abril pelo instituto Sifo, a população sueca está relativamente satisfeita com a atual pertença ao bloco europeu, com 44% dos inquiridos a dizerem que preferem permanecer na UE e 32% a declararem que querem sair. Mas segundo o mesmo inquérito, quando questionadas sobre a sua integração no caso de uma saída do Reino Unido se concretizar, o cenário é o oposto: aí, 32% dos suecas apoiaria a permanência contra 36% que dizem querer seguir as pisadas.

De acordo com Göran von Sydow, um investigador do Instituto Sueco para os Estudos Políticos Europeus (SIEPS), o Reino Unido é tido como o mais importante aliado da Suécia dentro do bloco, entre outros pelo facto de ambos estarem fora da Zona Euro, pelo que que a vitória já confirmada do Brexit no referendo poderá ditar uma consulta semelhante e a saída de mais esse Estado-membro.

"Ter a Grã-Bretanha na União Europeia neste momento traz muita estabilidade e se eles saírem, isso terá um impacto enorme", dizia há alguns dias à BBC Max Hedgren, de uma empresa de consultoria financeira em Estocolmo. "Penso que [o Brexit] vai afetar-nos financeiramente, nas nossas vidas privadas e nos nossos empregos."

O primeiro impacto previsto do Brexit na Suécia é financeiro. "Os suecos estão apaixonados pelo Reino Unido mas agora as regras do jogo vão ser desconhecidas", sublinhou ao mesmo canal Per Tryding, vice-diretor executivo da Câmara do Comércio e Indústria do sul da Suécia. Com a derrota da UE num país tido pelos suecos como "modelo", haverá uma crise de confiança, defende o especialista. "Quais serão as reais condições de fazer negócios com ou de investir na Grã-Bretanha no futuro? Essa insegurança vai tornar as pessoas avessas a investimentos."

Massimo Percossi/EPA

Itália

Na quarta-feira, na véspera do referendo britânico, o primeiro-ministro italiano avisou que a saída do Reino Unido da UE iria trocar "a autonomia pela isolação, o orgulho pela fraqueza e a identidade pela automutilação". Como outros líderes na Europa, Matteo Renzi parecia guardar a esperança de que os resultados nas urnas fossem a favor do bloco, mas no seio da política italiana nem todos são tão favoráveis ao bloco regional.

Beppe Grillo, o líder do partido anti-sistema MoVimento 5 Estrelas, anunciou na terça-feira que vai exigir um referendo à permanência do país na moeda única, num primeiro passo ao qual se poderá seguir uma outra consulta à saída dos italianos da UE.

O partido quer que o euro acabe ou então que sejam criadas duas moedas distintas dentro da UE — o euro como o conhecemos e o euro 2. Apesar de ter sido sempre considerado como um partido das franjas descontentes desde a sua criação em 2009, o cenário alterou-se há um mês e novamente este domingo, com o partido a sair dos resultados residuais nas duas voltas das eleições municipais e clamando vitórias em 19 das 20 autarquias em disputa, incluindo em Roma.

A juntar a isso, uma sondagem conduzida em Itália há um mês mostrava que 58% da população quer um referendo sobre a permanência do país na UE, uma aspiração que deverá ser reforçada pela vitória do Brexit. Nesse inquérito, quase metade dos inquiridos disseram que votariam a favor da saída.

PASCAL ROSSIGNOL/REUTERS

França

Não seria de esperar outra coisa que não vermos Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional francesa, de extrema-direita, anti-imigração e anti-UE, a aproveitar o referendo britânico para atrair mais eleitores descontentes à sua plataforma.

Na quarta-feira, a poucas horas de a votação ao Brexit começar no Reino Unido, a versão francesa de Nigel Farage, o líder do partido britânico anti-europeísta UKIP, exigiu que França leve a cabo um referendo nos mesmos moldes.

Não se sabe para já quantos franceses concordam com essa convocatória, mas uma sondagem recente conduzida pelo Ipsos MORI em maio mostrava que, a concretizar-se essa consulta, cerca de 41% da população votaria pela saída da União Europeia.

Considerando que, noutras sondagens, Le Pen tem surgido bem colocada na corrida à presidência francesa em 2017, antevendo-se que consiga passar à segunda volta para disputar o lugar de François Hollande, é um país a ter em atenção nos próximos meses.

FOTO © VINCENT KESSLER / REUTERS

Turquia

Na quarta-feira à noite, enquanto a população britânica se preparava para o dia D, o Presidente turco sugeriu que o seu país poderá levar a cabo um referendo sobre se o empatado processo de adesão à UE deve ou não continuar.

Zangado com Bruxelas pelo tratamento a Ancara, Recep Tayyip Erdogan disse que nada o impede de marcar uma consulta popular semelhante à britânica para que sejam os eleitores a decidir se querem continuar a tentar aderir ao bloco europeu, um processo que começou em abril de 1987, ainda a UE era a Comunidade Económica Europeia (CEE).

"Nós podemos decidir perguntar às pessoas tal como os britânicos estão a fazer", disse citado pela agência turca Anadolu. "Podemos perguntar 'Damos continuidade às negociações com a União Europeia ou acabamos com elas?' E se as pessoas disserem 'continuamos', então nós continuamos", declarou galvanizado pela consulta ao Brexit, dizendo que a adesão da Turquia lhe foi prometida em 1963 (quando a UE ainda não era sequer CEE, mas sim a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), mas que 53 anos depois nada mudou.

A promessa de um referendo surge depois de a Turquia e a UE terem alcançado um acordo sobre refugiados em março, sob o qual os turcos exigiram como condição ajuda financeira e a reabertura do seu processo de adesão ao bloco. Desde então, Bruxelas continua a insistir que não pode garantir a isenção de vistos exigida pelo Governo de Erdogan, para que os turcos possam viajar livremente dentro do espaço Schengen, se o país não alterar as suas abrangentes leis de combate ao terrorismo.