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Começou a desintegração do Reino Unido?

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LAURENT DUBRULE | EPA

Apesar de um Estado-membro nunca ter abandonado a União Europeia, sabe-se que o processo de saída do Reino Unido firmado no referendo desta quinta-feira deverá demorar cerca de dois anos a estar concluído. Até lá, o impacto mais imediato será a nível interno: as réplicas do sismo Brexit já estão a ser sentidas na Escócia, na Irlanda do Norte e em Gibraltar

Inglaterra (menos Londres) e o País de Gales bastaram para que o referendo desta quinta-feira, cuja contagem de votos terminou esta manhã, terminasse com a derrota da União Europeia, firmando a saída do Reino Unido. Mas o reino está longe de estar unido nesta vontade, com a Escócia, a Irlanda do Norte e Gibraltar a votarem em peso pela permanência no bloco regional.

Com uma participação eleitoral de 71,8% dos quase 46 milhões e 500 mil britânicos que se registaram para votar, os resultados fugiram da margem de erro mas demonstram que a população da Grã-Bretanha está profundamente dividida: no total, 52% dos eleitores votaram a favor da saída da UE, 48% a favor da permanência.

Para já, não é certo como se vai proceder à retirada do país. Toda a Europa tem de esperar pelas eleições antecipadas após David Cameron ter anunciado a sua demissão dentro de três meses por causa da vitória do Brexit. Depois disso, o novo líder, possivelmente o conservador anti-UE Boris Johnson, irá recorrer ao artigo 50.º do Tratado de Lisboa, que apesar de nunca ter sido utilizado prevê a saída de um Estado-membro da UE.

Certo até ver é que os resultados práticos deste referendo vão ser sentidos no imediato dentro do Reino Unido. A começar pelo território que está mais longe do coração do reino: Gibraltar.

blo Blazquez Dominguez/Getty Images

O território ultramarino no extremo da península ibérica foi o que mais se mobilizou a favor da UE, com 92% dos 30 mil habitantes a escolherem ficar. O facto de não terem encontrado eco entre os conterrâneos que vivem no Reino, por si só, já seria suficiente para augurar um futuro tumultuoso, considerando que Espanha sempre manteve a reivindicação do território a norte de Marrocos — uma reivindicação que, tendo sido sempre rejeitada pela maioria da população gibraltina, poderá ganhar novos apoios com a vitória do Brexit.

Assim o espera Espanha. Esta manhã, com a saída do Reino Unido da UE já confirmada, o governo conservador interino de Mariano Rajoy anunciou que vai perseguir a co-soberania de Gibraltar, que pertence aos britânicos desde 1713.

"O resultado do referendo muda completamente o panorama e abre novas possibilidades que Gibraltar não via há muito tempo", disse José Manuel García-Margallo, o ministro interino dos Negócios Estrangeiros do PP, que este domingo disputa a presidência do Executivo espanhol em eleições antecipadas. "Espero que a fórmula de co-soberania — para ser claro, ter a bandeira espanhola hasteada no Rochedo — esteja mais próxima do que nunca", disse o chefe da diplomacia.

Contactado pela Reuters, o porta-voz do governo da península recusou-se a comentar de que forma é que o Brexit pode ditar uma alteração do estatuto do território, sendo que no passado 99% da população votou contra a co-soberania.

Para já Madrid vai fazer de tudo para manter Gibraltar fora de quaisquer negociações do Reino Unido com Bruxelas para executar a saída do bloco, procurando manter negociações bilaterais com vista à co-soberania e ao eventual controlo da península pelos espanhóis, disse García-Margallo.

Nicola Sturgeon

Nicola Sturgeon

Robert Perry

Independência da Escócia à vista?

Antes das eleições de maio deste ano, o Partido Nacional Escocês (SNP) já tinha deixado claro no seu manifesto político o que pretendia fazer caso o Brexit saísse vitorioso do referendo desta quinta-feira. "Acreditamos que o parlamento escocês deve ter o direito de convocar um novo referendo se houver provas claras e sustentadas de que a independência se tornou a opção preferida de uma maoiria do povo escocês — ou se houver uma alteração material e significativa das circunstâncias que prevaleciam em 2014, como a Escócia ser tirada do Reino Unido contra a nossa vontade."

Apesar de Nicola Sturgeon, do SNP e atual primeira-ministra da Escócia, ter mantido ao longo da campanha para o referendo que não queria ver o país fora do reino nem o reino fora do bloco europeu, "as circunstâncias que prevaleciam em 2014", quando a maioria da população votou contra a independência com uma curta margem, alteraram-se efetivamente.

Alex Salmond, o antecessor de Sturgeon que sempre foi mais vocal sobre a sua vontade de referendar a independência caso o Brexit se concretizasse, voltou a suublinhar na quinta-feira, ao longo do processo de votação, que se o apoio maioritário dos escoceses à UE se concretizasse como previsto, a consulta teria de avançar.

"É provável que a Escócia vá votar solidamente pela permanência", disse à BBC na quinta-feira, antes de se saber que 62% da população votou a favor da UE contra 38%. "Se houver uma vitória pela saída em Inglaterra, arrastando-nos para fora da UE, estou certo de que Nicola Sturgeon vai implementar o manifesto do SNP."

Pela força das circunstâncias, Sturgeon alinhou-se com Salmond esta sexta ainda antes de a contagem de votos estar concluída. "A Escócia votou com força e inequivocamente para ficar na UE e eu aplaudo esse apoio do nosso estatuto europeu. Apesar de os resultados finais ainda não terem sido declarados, a votaçãõ deixa claro que a população da Escócia vê o seu futuro dentro da União Europeia. A Escócia contribuiu significativamente para a votação a favor da permanência em todo o Reino Unido. Isto reflete a campanha positiva do SNP, uma mensagem positiva à qual as pessoas em toda a Escócia responderam. Esperamos os resultados finais, mas a Escócia já falou — e falou decididamente."

Charles McQuillan

E o separatismo da Irlanda do Norte?

Num comunicado emitido esta manhã, após o anúncio de que também a Irlanda do Norte votou maioritariamente a favor da UE, o secretário-geral do Sinn Fein acusou os eleitores ingleses de "arrastarem a Irlanda do Norte para fora da UE", numa declaração que sinaliza a vontade do país em unificar-se com a Irlanda.

"Os eleitores ingleses reverteram a vontade democrática da Irlanda do Norte", declarou Declan Kearney, que lidera o partido no poder, um dos mais antigos do país que sempre liderou os esforços pela saída do reino e pela unificação da Irlanda. "Este Governo britânico [de David Cameron] perdeu o mandato para representar os interesses políticos e económicos da população da Irlanda do Norte. O Sinn Féin vai reforçar o seu pedido, a sua exigência de longa data, para uma votação sobre a fronteira."

De acordo com o "The Independent", o vice-primeiro-ministro, Martin McGuinness, já confirmou que vai convocar essa consulta. A Irlanda do Norte é o único país dentro do Reino Unido que partilha uma fronteira com um Estado-membro da UE, a República da Irlanda. No referendo desta quinta-feira, 56% dos norte-irlandeses votaram a favor da permanência no bloco regional, o que deverá alumiar uma elevada participação e apoio à unificação da Irlanda no eventual referendo ao seu futuro.