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Cameron achava que tinha a melhor mão e acabou a perder as fichas todas

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LAURENT DUBRULE / EPA

A arriscada jogada de poker do primeiro-ministro do Reino Unido, agora demissionário, culminou num resultado que nem ele nem os restantes europeístas antecipavam realmente: a saída da União Europeia. Aparte o descontentamento da população com Bruxelas e com a imigração, é Cameron o verdadeiro responsável pelo terramoto de consequências imprevisíveis para já

No poker, cada jogador tem um controlo muito limitado sobre o resultado de cada ronda. Com duas cartas na mão, tenta adivinhar-se que cartas vão sair na mesa e se temos ou não reais hipóteses de ganhar. O primeiro-ministro do Reino Unido esqueceu-se de que ter um Ás e uma Dama na mão, apesar de serem das melhores cartas, nem sempre é sinal de que vamos ficar com as fichas todas. E assim acabou a perdê-las e a ditar a saída da União Europeia.

Se não o soubesse, David Cameron não teria chamado os jornalistas ao número 10 de Downing Street esta sexta-feira de manhã para anunciar ao país e ao mundo que vai abandonar a chefia do Governo, só dentro de três meses para dar tempo aos britânicos de se ambientarem à ideia de que, a partir de hoje, a sua realidade mudou (e com a deles a de todos nós). "Vou fazer tudo o que puder como primeiro-ministro para estabilizar o navio ao longo das próximas semanas e meses, mas não penso que seja correto tentar ser o capitão que vai dirigir o país para o seu próximo destino", declarou.

Ninguém deverá discordar dele. Aparte o descontentamento de 52% dos britânicos com as imposições de Bruxelas e ainda mais com os níveis de imigração no país, Cameron é o verdadeiro responsável pela situação em que o Reino Unido se encontra a partir de hoje. Como apontou o "The Guardian" esta manhã em reação aos resultados da consulta, "a geografia física não mudou, mas a psicológica sim". Como apontava o "New York Times" na véspera da votação, "Cameron não tem ninguém a quem culpar que não a si próprio".

Tudo começou em 2013. Com o crescimento de forças anti-europeístas como o UKIP de Nigel Farage, que no ano seguinte viria a alcançar estrondosos ganhos nas eleições para o Parlamento Europeu, e sob enormes pressões dentro do seu Partido Conservador para fazer frente às exigências de Bruxelas, Cameron prometeu ao eleitorado que, se o reelegessem em 2015, iria convocar um referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE.

O líder sabia que a probabilidade de ser reeleito graças a essa promessa era alta mas não se lembrou que ela poderia vir a ser inversamente proporcional à vontade dos britânicos em permanecerem num bloco regional que se queria de cooperação e paz no rescaldo da II Guerra Mundial. Essa possibilidade ganhou contornos reais quando o UKIP ficou em primeiro lugar nas europeias, conquistando 24 dos 73 assentos do Parlamento Europeu afetos ao Reino Unido — e contribuindo para a criação de um grupo parlamentar de extrema-direita e anti-UE dentro da própria UE. Mas aí já era tarde de mais.

Apesar disto, durante a longa partida de poker que encetou há três anos, Cameron foi ganhando muitas mãos, a melhor delas quando, em fevereiro deste ano, e depois de um longo périplo pelas capitais europeias e de várias reuniões com o líder do Conselho Europeu, Donald Tusk, conseguiu que Bruxelas cedesse às exigências britânicas, dando ao país um "estatuto especial" dentro da UE para o convencer a ficar no bloco.

Nesse mês a maioria dos britânicos, possivelmente até muitos dos que votaram contra o Brexit esta quinta-feira, aplaudiram a vitória. Londres passou a estar isenta do objetivo-base da UE de uma maior integração regional, recebeu garantias de isenção no que toca ao pagamento de benefícios sociais a migrantes europeus e conseguiu um compromisso para que a capital fosse protegida como centro financeiro de máxima importância.

As reformas alcançadas, com caráter vinculativo, levaram Cameron a marcar o referendo para 23 de junho sob a solene promessa de fazer tudo o que estava ao seu alcance para que o país continuasse na UE: "Acredito que somos mais fortes e que estamos melhor e mais seguros dentro de uma União Europeia reformada. E é por isso que vou estar a fazer campanha de alma e coração para persuadir o povo britânico a permanecer na União Europeia reformada que assegurámos hoje."

Esqueceu-se do jogo das probabilidades. Achou que tinha o rei na barriga, ou neste caso na palma da mão, mas quem reina é o povo e hoje sabemos que a maioria não quer ficar. Esse rei foi parar às mãos da campanha pelo Brexit e, sem ele, Cameron nada pôde contra Boris Johnson, Nigel Farage e companhia. Mesmo com a Dama (na forma das instituições europeias) e o Ás (na forma de celebridades, políticos e empresários) nas mãos.

Com dois reis a saírem do baralho para a mesa — a imigração que serve de combustível a uma xenofobia gritante que terá levado ao homicídio brutal da deputada trabalhista Jo Cox, e o controlo individual das fronteiras e do futuro dos britânicos — e com o terceiro (leia-se uma maioria qualificada da população) alinhado contra a UE, um Cameron que apostou tudo para conseguir o straight acabou a perder para um trio.

Com o fim da jogatana e a sua saída do poder, passamos do poker à roleta russa: as consequências do que o colunista Martin Wolf escreveu no "Financial Times" — sobre este referendo ser, "indiscutivelmente, o ato mais irresponsável de um governo britânico na minha vida" — são impossíveis de prever para já.