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Mariana Mortágua

Vença quem vencer, a Europa já perdeu. Por Mariana Mortágua

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Para escrever este artigo abri os online do costume nas secções ‘internacional’ e ‘Europa’. Depois de deixar para trás o futebol, lá estavam os títulos: nove em cada dez crianças refugiadas chegam sozinhas à Europa, Hungria aprova nova lei para deter e expulsar refugiados, Tribunal da UE aceita cortes nos abonos de famílias de emigrantes no Reino Unido, euroceticismo em crescendo na UE. Penso que é suficiente.

A saída do Reino Unido da UE está a ser preparada sobre algumas das piores razões: um mix de nacionalismo xenófobo e garantias à intocabilidade da City. Mas esta triste evidência não esgota a análise. Alguns dos mais estrondosos erros da história deveram-se àqueles que, entre a coragem de responder às perguntas que importam e a vontade de manter o statu quo, preferiram a última.

Comecemos pela pergunta mais simples: porque cresce a extrema-direita na Europa? Todo o euroceticismo é de direita? A Europa ficará melhor se o ‘ficar’ vencer o referendo?

Ignacio Ramonet escreveu no “Le Monde Diplomatique” sobre a forma como, na História, o medo permanece e apenas muda de lugar. Hoje, o medo da crise, da precariedade e do desemprego encontrou na suposição de uma ameaça externa o bode expiatório ideal para a extrema-direita. A responsabilidade é das instituições europeias: quando a crise exigia apoio social, vieram a precariedade e a austeridade; quando a deceção exigia mais democracia, vieram a imposição e a humilhação burocrática; quando o drama dos refugiados exigia solidariedade, chegaram o securitarismo e a islamofobia. Não, não é preciso ser um extremista de direita para ser cético sobre esta Europa. À esquerda, a desconfiança aumentou de cada vez que a União Europeia se lançou na sua deriva neoliberal — ou neoconservadora, como alguns preferem.

A expressão do descontentamento generaliza-se, da Grécia à França, e neste referendo britânico como reflexo e não como causa de uma desintegração europeia e da falência da promessa de democracia e Estado social.

Vença quem vencer, o Governo britânico já obteve um acordo europeu. Em nome da “União”, Cameron poderá discriminar estrangeiros na proteção social e manterá a City intocável. É por isso que a Europa já perdeu, num dos processos que marcam o princípio do fim de uma União que não soube servir os seus povos.

Texto publicado na edição do Expresso de 18 junho 2016

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