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Os britânicos já votaram e…

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NEIL HALL / Reuters

À hora a que abrem as urnas, o Expresso explica o que é de prever nos dois cenários possíveis quando os votos estiverem todos contados

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

(enviado a Londres)

…ganhou a saída.

Se o Reino Unido demorou 12 anos a entrar para a União Europeia (o então Presidente francês, Charles de Gaulle, vetou o primeiro pedido de adesão britânico em 1961), é quase certo que demoraria outro tanto a sair. O artigo 50 do Tratado de Lisboa, que o primeiro-ministro britânico prometeu invocar se os eurocépticos vencerem, prevê um prazo de dois anos para qualquer Estado-membro negociar a sua saída, mas admite prorrogações desse prazo, que previsivelmente seriam inevitáveis (mas que requerem unanimidade dos 28). É que há, escreve “The Guardian”, 80 mil páginas de acordos a rever.

David Cameron tem insistido em que uma vitória do Brexit significa saída irreversível, contrariando os que afirmam que, em teoria, o Parlamento poderia não obedecer ao eleitorado (um suicídio político) ou que o país poderia mudar de ideia durante o processo de “divórcio”. O governante repete que irá “respeitar o mandato do povo britânico”. Além do discurso de derrota – não sendo de antever que se demitisse imediatamente –, a primeira preocupação do Governo seria evitar o caos nos mercados europeus, se não globais. Não seria possível travar uma queda acentuada da cotação da libra e das bolsas, mas o ministro das Finanças, George Osborne, já admitiu que até pode suspender os mercados de valores. O Banco Central Europeu também teria de estar atento.

Não há roteiro pré-definido nem precedente. Os líderes europeus multiplicar-se-iam, decerto, em reuniões e cimeiras, até porque os termos da saída afetarão toda a União e mais além. Interessa a todos que corra bem – como escreveu ontem no diário “The Daily Telegraph” o colunista eurocético Ambrose Evans-Pritchard. Os fluxos de pessoas e comércio entre as partes assim o exigiriam.

Os 27 tenderiam, contudo, a não facilitar a vida a Londres, até para dissuadir outros países onde surgissem tentações semelhantes. É que os eurocéticos, em ascensão nos últimos anos, iriam exigir referendos nos seus países. França, Polónia, República Checa e Holanda são Estados-membros onde há porções significativas da população a favor de uma consulta popular. Por outro lado, não faltariam cidades europeias a querer ficar com o estatuto de Londres enquanto centro financeiro. Frankfurt e Milão parecem candidatas óbvias.

Durante os primeiros dois anos, ou até ao fim da negociação (na hipótese muito improvável de ser mais cedo), o Reino Unido continuaria a ser membro da União, devendo até ocupar a sua presidência rotativa no segundo semestre de 2017. Haveria, porém, vozes a questionar a legitimidade do país e dos seus eurodeputados, por exemplo, para votar e influenciar decisões que, a prazo, deixariam de se aplicar aos britânicos

O Reino Unido poderia ficar na Zona Económica Europeia (onde estão a Noruega, a Islândia e o Liechtenstein, nenhum deles membro da UE), ou forjar acordos bilaterais como a Suíça, mas nesse caso teria de obedecer – para continuar a ter acesso ao mercado único – a regras que não ajudaria a elaborar.

A nível interno, haveria pressões, a prazo, para Cameron ceder o lugar a outro. O primeiro-ministro anunciou, em todo o caso, que não se candidatará às legislativas de 2020. Na linha sucessória estariam apoiantes do Brexit como Boris Johnson, ex-autarca de Londres, ou Michael Gove (ministro da Justiça, embora diga não querer o cargo superior) e adeptos da permanência, como os titulares das Finanças, George Osborne, e do Interior, Theresa May.

Na Escócia, se os seus habitantes tiverem votado maioritariamente para ficar, não tardaria a haver quem exigisse novo referendo à independência. No País de Gales e na Irlanda do Norte (porque, se o Brexit ganhar, terá ganho em Inglaterra, que tem mais de 80% da população do Reino) a questão colocar-se-á, mas sem os tons separatistas existentes a norte.

…ganhou a permanência.

Afinal o povo britânico, ou a fatia dele que estava indecisa, optou por deixar tudo como está nas últimas horas antes de votar, ou mesmo perante a urna. Os mercados e muitos governos suspiram de alívio, tal como as instituições europeias. Mas haver uma consulta popular em que o eleitorado decide ficar não é igual a não ter havido consulta nenhuma. A Europa não ficará igual.

Desde logo, será necessário negociar a aplicação das medidas que Cameron acordou com os parceiros europeus em fevereiro último, relativas a imigração e benefícios sociais, proteção dos países que não adotaram o euro, agilização do comércio e exclusão do Reino Unido da tendência para uma “união cada vez mais estreita”. Princípios adotados numa cimeira agitada, falta a sua concretização, que ficou suspensa do resultado de 23 de junho e exigirá mais negociações.

É que uma vitória europeísta no referendo livraria a União de um grande problema, mas inúmeros outros continuariam a existir. Não deixa de haver crise do euro, desemprego, terrorismo, crise migratória, a tragédia dos refugiados, subida dos extremismos e populismos, eleições americanas em novembro, e antes disso espanholas, e para o ano alemãs e francesas. E a UE continuaria, em qualquer dos casos, a negociar o contestado acordo de comércio com os Estados Unidos, a chamada Parceria Transatlântica (também conhecido pela sigla TTIP). Muitos críticos à esquerda consideram que só serviria para desproteger os trabalhadores europeus, permitindo inclusive às empresas processar governos cujas medidas, a seu ver, as prejudiquem.

Dentro de portas, o Reino Unido acordaria muito dividido. Todas as sondagens indicam que a margem de vitória será curta, pelo que haverá um importante trabalho de reconciliação a realizar. O Governo de Cameron tem uma maioria muito curta (de apenas 12 deputados) e há muitos deputados conservadores a apoiar o Brexit, para não falar dos militantes, a quem cabe eleger o próximo líder e potencial primeiro-ministro. Terá sido este, aliás, um dos motivos para o sentido de voto de Boris Johnson, em quem poucos viam um “Brexiter”.

Osborne, May e Johnson continuariam a ser os candidatos mais evidentes a suceder a Cameron. O Partido Trabalhista pouco capitalizaria com as divisões dos conservadores. O seu líder, Jeremy Corbyn, é contestado por bem mais de meia bancada parlamentar, embora retenha o apoio dos militantes. Crítico da Europa, embora tenha apoiado a permanência, Corbyn não se destacou na campanha, que mais pareceu um concurso de vaidades conservador do que o esforço multipartidário por que muitos ansiaram.