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Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

O paradoxo da democracia. Por Ricardo Costa

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É tão importante quanto assustador que o destino da Europa esteja nas mãos da mais sólida e tradicional das democracias parlamentares. Não há nenhum país do mundo que possa dar lições de democracia ao Reino Unido e não há instrumento — apesar dos defeitos — mais democrático do que um referendo. Além disso, esta ida às urnas é o cumprimento de uma promessa eleitoral. Uma promessa perigosíssima mas, ainda assim, uma promessa.

A democracia, como todos os sistemas, tem os seus paradoxos. Um dos mais extremos é o de permitir a vitória de quem limite ou acabe com o próprio regime democrático, coisa que vemos em muitas geografias mas que, felizmente, parece impossível além do Canal da Mancha. Outro paradoxo, menos extremo, é o de colocar à votação uma questão com implicações imediatas muito difíceis de calcular e impossíveis de prever no médio e longo prazo.

Não concordo com grande parte das críticas que fazem a David Cameron e que assentam na ideia de que só propôs o referendo para ganhar eleições e acalmar o seu partido, dividido entre uma ala mais europeísta e uma forte tradição eurocética. É verdade que Cameron beneficiou com isso, conseguindo unir o partido numa campanha que terminou com uma vitória estrondosa nas legislativas do ano passado. Mas é ainda mais verdade que, cedo ou tarde, este referendo teria de se realizar.

No fundo, Cameron antecipou um movimento a seu favor, achando que depois podia controlar o seu resultado. Foi aqui que a coisa (lhe) começou a correr mal. O terrorismo e a imigração tomaram conta da política europeia e essa corrente atravessou o Canal da Mancha a grande velocidade. Como é natural, se há temas que são difíceis de debater com calma e ponderação são estes. E se há temas que são fáceis de manipular — de um lado e de outro — com números falsos, ideias feitas e medos futuros, são também estes. Em pouco tempo criou-se o caldo perfeito para o ‘Brexit’.

Aquilo que parecia aos olhos de David Cameron um referendo arriscado mas controlado, transformou-se num processo com resultado imprevisível, mas com o ‘Brexit’ a ganhar espaço a quem quer ficar na UE. A esperança do primeiro-ministro reside agora no eleitorado trabalhista e, sobretudo nos mais jovens, que são esmagadoramente europeístas. Se estes forem votar, é possível que o ‘Brexit’ perca; se o perfil demográfico dos votantes for semelhante às anteriores eleições, então já podemos começar a fazer contas. O problema é, contas a quê? A uma saída da UE? E a uma saída a prazo da Escócia do Reino Unido? E à criação de uma fronteira entre a Irlanda do Norte e a Irlanda? A lista nunca mais acaba.

Texto publicado na edição do Expresso de 18 junho 2016