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O dinheiro já não é o que era, a burocracia aumentou. Ainda vale a pena ficar na UE?

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Matthew Horwood/GETTY

Numa zona rural do País de Gales, o Expresso encontrou angústia, pragmatismo e um conflito básico entre coração e cabeça entre os agricultores

Luís M. Faria

no País de Gales

Jornalista

Se há área económica onde a União Europeia dá uma contribuição decisiva para manter os produtores a funcionar, é a agricultura. Apesar de todos os abusos que ao longo dos anos têm sido reportados - e combatidos através de reformas na PAC (Política Agrícola Comum) que, nalguns casos, levaram a reduções efetivas no desperdício financeiro - muitos agricultores ainda dependem de subsídios comunitários.

Gales, o mais pequeno dos quatro 'countries' que hoje votam no referendo para decidir se o Reino Unido sai da UE, é um lugar onde a atividade agrícola conserva uma grande importância, como se vê imediatamente pela quantidade de ovelhas que começamos a ver naquelas milhas e milhas de encostas sem uma habitação humana à vista assim que saímos de Cardiff. O normal lá é um agricultor obter a maior parte do seu rendimento por via do subsídio comunitário. Embora haja diferenças significativas entre produtores - as quintas em zonas altas, por exemplo, tendem a receber bastante mais do que as outras - a percentagem facilmente atinge os sessenta, sessenta e cinco.

Nessas condições, seria de pensar que uma larga maioria dos agricultores se declarassem fervorosos defensores da UE. No entanto, não é que se tem constatado publicamente, nem foi o que Expresso ouviu quando visitou o Hay & Brecon Farmers Market, meia hora a norte de Cardiff. É um mercado para profissionais, onde três bem-dispostas funcionárias atendem homens (no tempo que lá passámos, foram só homens, salvo uma excepção) com o ar de quem anda ocupado a fazer a sua vida, limitando a conversa fiada a uns minutos. Ainda assim, conseguimos falar com vários. A impressão geral com que ficámos foi de dúvida. A maioria disse-nos ainda não saber como ia votar, e houve quem se assumisse claramente apreensivo.

Wynne Rees, proprietário de uma unidade com 600 vacas e ovelhas, é um caso típico de hesitação: "A minha cabeça diz uma coisa, o meu coração outra", diz. "Se estivéssemos agora a decidir se entrávamos ou não, eu fugiria a correr. Agora o meu coração diz para sair, a cabeça diz para ficar. Não sei." Porque é que lhe apetece sair? "Porque estamos fartos da burocracia que nos vem de Bruxelas. E não podemos votar para correr com eles." O outro lado da questão - o lado da cabeça - é Res não saber o que acontecerá a seguir. "É entrar no desconhecido, não é? Se o nosso governo não olhar pela agricultura, se não substituir os subsídios que vamos perder... Eles não se importam connosco como o governo francês se importa com os agricultores franceses. Os franceses têm muito peso."

Um amigo dele que se encontra presente admite que a UE tem ajudado a sua quinta, e exprime a certeza de que se o país sair não receberá mais subsídios - "nem do governo nem de mais ninguém", diz rindo. "Será difícil." Uma vez que é demasiado novo para se lembrar da situação antes de o Reino Unido entrar na UE, não pode dizer se melhorou ou piorou. A vida para ele sempre foi assim.

Matthew Horwood/Getty

Menos subsídios, mais burocracia

As duas queixas principais dos agricultores galeses, pelo que percebemos, têm de facto que ver com subsídios. Hoje em dia estes são inferiores ao que já foram, demoram muito mais tempo a chegar, quando chegam de todo, e exigem muito mais burocracia. Além disso, só estão garantidos até 2020. Se a UE continuar a expandir-se, admitindo países com vastas áreas agrícolas e níveis de necessidade bastante maiores (a Turquia é o caso sempre citado, mas existem outros), o que sobrará do bolo? Nessas condições, valerá a pena ficar? Não será melhor o país habituar-se a depender de si mesmo ou arriscar a sua sorte no resto do mundo?

Hazel Davies, de uns quarenta anos, que se descreve como "mulher de um agricultor" numa pequena quinta (360 teixos, 30 vacas), assume abertamente a sua angústia na matéria. Além da agricultura, o casal tem um negócio de "bed & breakfast" e faz catering. "Hoje ninguém pode sobreviver só com agricultura", justifica. "Neste momento estamos muito preocupados. Isto é uma decisão grande, e acho que nós, enquanto público, não sabemos o suficiente. E há uma data de gente que sabe menos do que nós. Não foi explicado."

Em particular, ela gostava de saber o que o parlamento galês tenciona fazer pelos agricultores. "Estamos nas colinas, onde há muitas pequenas quintas, e ainda não ouvimos nada por parte deles. Não se preocupam connosco. Dizem que se sairmos da UE muito dinheiro vai voltar para cá, mas esse dinheiro irá para hospitais, para as escolas. Como deve." As explorações de maior dimensão salvam-se sempre, e até continuam a crescer, explica Davies, mas os pequenos agricultores, "que mantêm o campo como ele é", vão ficar em sérias dificuldades.

Matthew Horwood/Getty

"A UE ajudou-me, sim. A aumentar o défice na conta bancária"

Outras pessoas que fomos abordando exprimiram opiniões igualmente vacilantes, uns a tender para o sim, outros para o não (opinião que as funcionárias da loja nos garantiram ser largamente maioritária na zona). Num único caso, encontrámos alguém que confessou detestar a UE desde o início. Foi um homem chamado Gwilym Morris. Alto, magro e enérgico, foi o mais idoso dos agricultores com quem falámos. Votou contra a permanência na comunidade europeia logo em 1975, dois anos depois de o Reino Unido aderir (o voto em 1975 foi 66% a favor do sim) e jamais mudou a sua opinião, apesar de todo o dinheiro que recebeu de Bruxelas desde essa altura.

Morris assume-se sinteticamente como um "out man", e explica em tom rápido. "A UE é demasiado grande, demasiados países, as diferenças entre eles são demasiado grandes." E que efeitos negativos tem isso? "Não há terreno comum, portanto nunca há acordo. A Alemanha manda, apoiada pela França, pelo menos como eu vejo." É uma União Europeia, completamente diferente de um mercado comum.

Quanto aos subsídios, diz que ele próprio só teve direito a 'grants' até ao Tratado de Maastricht e nunca mais depois disso. Continuou a receber dinheiro, mas não 'grants', que ele define como o tipo de fundos atribuídos, por exemplo, para construir um novo edifício na sua quinta. Quando lhe perguntámos se acha que a União Europeia o ajudou nalguma coisa, diz que sim: "Ajudou-me a aumentar o défice na minha conta bancária. Um subsídio é só uma percentagem da despesa. Como para os receber era preciso pôr mais dinheiro, tive de pedir emprestado." Ainda assim, nem sempre foi mau. Em 1980, havia subsídios para irrigação e escoamento, por exemplo, que chegavam aos cinquenta, sessenta por cento. "Agora já não há subsídios para isso, de todo."

Também ele nota que o presente acordo com Bruxelas dura só até 2020. "O ministro da Agricultura diz que alguma coisa o irá substituir, mas até agora não pôs nada na mesa." Confiança, portanto, é pouca ou nenhuma. Como em 1975.