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Narciso londrino. Por Henrique Raposo

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Como todas as mentes ocidentais, a mente britânica está a entrar num beco paroquial. Há um fechamento da mente britânica. O possível “não” à UE é o zénite deste paroquialismo que se alimenta de uma vaidade histórica desligada da realidade atual.

No final do dia, os chamados eurocéticos britânicos só têm uma grande narrativa: a UE, dizem, está a fazer através de meios pacíficos aquilo que Filipe, Napoleão, Hitler e Estaline tentaram pela força, a unidade da Europa. Claro que nesta narrativa a Grã-Bretanha aparece como a grande heroína que salva a Europa das potências continentais. O ‘Brexit’ é visto assim como uma Batalha de Inglaterra pacífica e eleitoral. Problema? A UE está longe de ser este superestado que funciona como homem de palha do euroceticismo britânico. É por isso que Thatcher, por exemplo, deu sempre passos no sentido da UE. Não podemos confundir a fantasia dos Estados Unidos da Europa com a realidade. A UE não é um superestado que anula as velhas nações, é um mecanismo de diálogo que civiliza e domestica as tensões entre as nações. Além disso, o narcisismo britânico não entende que a UE está longe de ser um instrumento de amplificação do poder alemão. Pelo contrário, a UE é uma instituição que limita o poder alemão. Se quisesse ser um império, Berlim só tinha de fazer uma coisa: sair da UE.

O fechamento da mente britânica é visível ainda noutro pormenor: o desprezo quase infantil pelo contexto internacional que todos os dias retira poder à Europa e à Grã-Bretanha. Nós vivemos num mundo pós-europeu, um mundo cada vez mais determinado pela relação entre EUA e as potências asiáticas. Este narciso londrino julga que terá sempre uma “relação especial” com Washington, mas, como tem salientado Sir Stephen Wall, é um erro grave assumir que a “relação especial” continua a ser especial no século XXI. A Europa já não é prioritária como cenário estratégico para Washington. E, enquanto ator internacional, Londres não tem o poder de outrora. Neste sentido, a voz de Londres é desejada em Washington não de forma isolada, mas enquanto voz representativa de uma Europa unida.

Para terminar, o ‘Brexit’ faz ainda menos sentido tendo em conta o timing escolhido. Nunca a Europa do pós-guerra enfrentou um conjunto de circunstâncias tão perigosa como a atual: a Turquia e a Rússia estão a despertar sonhos imperiais antigos, as fronteiras do Médio Oriente criadas no auge do eurocentrismo já não existem e essa fragmentação está a enviar milhões de refugiados para a Europa. Acrescente-se ainda o perigo do terrorismo islamita conduzido por muçulmanos nascidos e criados na Europa. Sair da UE nesta altura não é apenas um erro estratégico, é traição.

Texto publicado na edição do Expresso de 18 junho 2016