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Lambeth: votar para ficar na UE e proteger direitos ou sair para ter mais democracia?

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Hamilton Harris diz que o racismo infetou a campanha

foto pedro cordeiro

Bairros de Londres continuam a dar conta de participação elevada. Sondagem da quatro por cento de vantagem aos europeístas.

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

enviado a Londres

Se há tendência que o referendo de hoje parece indicar é a de uma participação acrescida, pelo menos nos bairros que o Expresso tem visitado. Numa mesa de voto de Lambeth tinham comparecido cerca de 65 eleitores por hora até ao meio-dia, quando na eleição autárquica de maio eram 30 por hora, segundo o presidente da mesa. Talvez a isso ajude o facto de a chuva ter parado em Londres. O mesmo não se passa noutras partes do país, com a intempérie a deixar alagados locais de voto e a dificultar o acesso aos mesmos.

É um 'borough' etnicamente diverso, com mais de 300 mil pessoas, que tanto inclui zonas com forte imigração (como Stockwell, onde abundam os portugueses) como a área fronteira ao rio Tamisa onde se ergue o palácio do arcebispo de Cantuária, chefe da igreja anglicana (abaixo apenas da rainha). Tende a votar à esquerda.

A imigração, que tomou conta do debate, é aqui crucial. "O Governo esteve mal. Deixou que o racismo imperasse e que as minorias levassem com as culpas de todos os problemas gerados pela crise económica e financeira. É por isso que há tanta gente a votar pela saída”, afirma ao Expresso Hamilton Harris, de 52 anos, professor há 23.

Votou pela permanência porque acredita que “são as classes trabalhadoras que vão pagar a fatura em caso de Brexit”. “Os ricos ficam bem em qualquer caso, pior será para os varredores de rua e empregados de balcão, muitos deles imigrantes” alerta. Inglês e negro, diz já ter sido vítima de bulluying no trabalho por causa da cor da sua pele e queixa-se de que o Governo está a retirar as ajudas estatais a todos os que dela precisam, incluindo ele, que sofre de espinha bífida. A esse nível, crê que estar na UE é uma salvaguarda dos direitos dos trabalhadores.

O referendo levou a Londres jornalistas dos principais órgãos de comunicação do mundo

O referendo levou a Londres jornalistas dos principais órgãos de comunicação do mundo

foto pedro cordeiro

É para defender direitos que Jennifer Lewis, de meia-idade, vota pela saída. “A União Europeia não é democrática, é dominada por burocratas não-eleitos que não têm em conta as opiniões do Reino Unido”, acusa. Acredita, porém, que “provavelmente vai ganhar a opção de ficar”.

Isso agradaria bastante à eleitora Mary Macdonald, na casa dos 30. “Os problemas mundiais resolvem-se melhor fazendo parte de um grupo de países”, explica. Lastima uma “campanha má, em que os eurocéticos tentaram que não se debatesse a economia, apenas a imigração”. É certo que este último tema parece favorecer o Brexit, enquanto os riscos económicos aconselham muitos a preferir deixar tudo como está.

Se nenhum eleitor se atreve a predizer o desfecho da votação, isso mesmo ecoa no brasão da escola onde está instalada esta mesa de voto. “Nihil impossible est” é a sua divisa, isto é, nada é impossível. Que é como quem diz que continua tudo em aberto.