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Então qual é o problema da Europa?

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JON NAZCA / Reuters

Reportagem num subúrbio rico inglês no dia em que o Reino decide como vai ser europeu

Ana França

Ana França

correspondente em Inglaterra

Dez minutos no autocarro número 83 e Park Hill já não se vê. Eccelsall Road está escondida entre árvores frondosas e casas vitorianas. Não há prédios, só vivendas. Sheffield Hallam é, excluindo as dez zonas mais ricas do país, Londres e sudeste, a zona com salários médios mais altos do país. É a única área liderada por um Liberal Democrata (o ex-vice-primeiro-ministro Nick Clegg), o resto do Yorkshire do Sul é fortemente trabalhista. É a exceção numa província que concentra alguns dos concelhos mais pobres de toda a Europa do Norte. Este subúrbio, contudo, onde quase 20% da população está a estudar a tempo inteiro, 60% das pessoas em idade ativa têm um curso superior - uma percentagem mais alta do que em Cambridge - e o rendimento per capita é o 60.º mais alto de uma lista de 650 localidades no Reino Unido, foi um bastião conservador durante 130 anos. Nem em 1997, quando todo o resto do país parecia enfeitiçado pelo carisma de Tony Blair, o lugar passou para os trabalhistas. Em vez disso, saltou um degrau ideológico e foi parar aos Liberais Democratas.

À frente do centro comunitário The Well, cuja morada é uma igreja medieval de pedra, estão Elsa e Katherine, que não dão idades - mas estão com certeza para lá dos 60 - nem segundo nome: idades por ser deprimente e apelidos porque “as pessoas são sempre interpretadas erradamente por dizerem o que pensam”, diz Elsa. A campanha tem sido pouco tolerante? “Sim, completamente. Eu votei pela saída e, quando digo isto, as pessoas tratam-me mal. Eu adotei uma menina ucraniana que trabalhava num café que eu frequentava e que era maltratada pelo namorado. Viveu comigo como filha, com os meus outros filhos, agora tem uma casa dela, é cidadã britânica. Por isso, não admito que me digam que tenho um problema com a imigração”, acrescenta. “Então qual é o problema da Europa?”, pergunta Katherine, uma senhora alta e magra de cabelo completamente branco apanhado sem jeito, como uma universitária num dia de calor. “Eu quero as nossas indústrias de volta, que os britânicos produzam e vendam as suas coisas, sem estarem sujeitos à competência desleal de países que utilizam material de segunda e pagam mal às pessoas. Acabou a produção de algodão, leite, pesca, mobília, tudo”, responde Elsa.

Katherine votou para permanecer na União Europeia porque a incerteza sobre o futuro é “demasiado para a minha ansiedade”. Não acredita que as fronteiras se fechem, mesmo com um voto pela saída, porque os imigrantes “são demasiado importantes para a economia, coisa que seria imediatamente visível assim que os obrigássemos a pedir vistos e eles fossem embora”. Enfermeira reformada, Katherine pergunta de onde somos e diz que o serviço nacional de saúde já não sobreviveria sem portugueses. “E quem diz sem portugueses enfermeiros diz sem eletricistas polacos ou chefes italianos. O que as pessoas têm de entender é que o mundo mudou e não é perfeito de todo, que há disparidades gritantes mesmo nesta área onde as pessoas vivem bem, mas que se não fossem estas pessoas que para cá vêm abrir negócios e gastar dinheiro, não se sabe o que seria feito de cidades industriais como a nossa. Será que estaríamos a crescer assim? Será que teríamos dado à volta por cima?”

Jordan Davis, que tem 24 anos e estudou Política na Universidade de Sheffield Hallam, não tem dúvidas: “Nunca ultrapassaríamos a crise pós-industrial sem a diversidade económica e cultural que os estudantes e os imigrantes trouxeram”. Jordan revela-se chocado com a forma como a campanha foi conduzida: “Ninguém se preocupou em informar as pessoas, lançaram-se afirmações incendiárias nos jornais sobre os imigrantes e as pessoas que não tem por hábito ler mais do que um jornal podem ter ficado a pensar que o país está a ser invadido, mesmo que não vejam esses imigrantes. Há, aliás, imensos estudos que provam que as zonas mais avessas à imigração são aquelas que menos percentagem de estrangeiros têm”. Isto foi, de facto, confirmado pelo Observatório da Imigração, que fez coincidir dois mapas: um da percentagem de estrangeiros por número de nativos e outro da concentração de apoio ao Partido para a Independência do Reino Unido (UKIP): quanto maior a presença dos primeiros, menor a dos segundos.

Também Lesley Faithful, de 55 anos, gerente do gabinete de apoio ao cidadão (Citizens Advice Bureau) da zona de Sheffield Hallam, considera que “o antagonismo da campanha não está a servir os interesses das pessoas, não há factos, há um discurso de ódio e de culpar os outros pelos problemas”. “A tradição britânica é a de lutar pelas coisas, não encontrar bodes expiatórios para os nossos falhanços. Esta campanha está a dar o ok a esse tipo de comportamento.”