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Candeia que vai à frente. Por Daniel Oliveira

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O projeto europeu foi construído com entusiasmo das elites mas apenas aceite pelos povos na medida em que lhes garantia bem-estar e segurança. Viveu várias crises e todas elas foram resolvidas com fugas para a frente. Até que a fuga foi longe demais e criou-se uma moeda sem quaisquer garantias de coesão fiscal, política e social. Foi assim que, depois de décadas de convergência, se iniciou um processo de divergência económica e social entre os Estados. Perante isto, o apelo ao egoísmo é inevitável. E o que era uma união voluntária transformou-se numa forma de dominação. A existência de um visto prévio de burocratas a orçamentos aprovados por eleitos e as repetições de referendos a tratados, até se conseguir o resultado desejado, são os melhores exemplos da deriva antidemocrática da União.

É verdade que o Reino Unido ficou fora do euro. Foi de lá, aliás, que vieram os avisos mais sensatos contra esta moeda. Também é verdade que as razões apresentadas para o ‘Brexit’ são opostas às minhas criticas. Mas não tratemos os sintomas como causas. Não é por acaso que alguém com as minhas convicções políticas se viu, muito mais vezes do que desejava, a concordar com as críticas de Nigel Farage, do UKIP, aos atropelos da União à democracia. O que aconteceu para que o porta-voz do parlamentarismo democrático fosse um político de extrema-direita? Mesmo que o faça em nome de um discurso xenófobo, como foi possível entregar-lhe este troféu? Ou deixar para Marine Le Pen a defesa das conquistas sociais dos franceses? Quando a União deixou de ser um projeto solidário e promotor do modelo social europeu, que era o verdadeiro garante da paz na Europa, não sobrou nada que justificasse a amputação das soberanias. Se é cada um por si, porque “a França é a França”, a Alemanha é a Alemanha e Portugal é apenas Portugal, que sentido faz manter uma farsa que apenas mina os alicerces das democracias nacionais?

Não é apenas por xenofobia que metade dos britânicos pondera seriamente sair deste barco à deriva. É porque o único argumento que sobra para os convencer a ficar são os custos económicos da sua saída. E o que apenas depende do medo apenas convida ao egoísmo. Já não espero que o ‘Brexit’ assuste alguém em Bruxelas. Nada parece travar a inexorável caminhada para o abismo. E é por isso que, por mais distante que esteja dos argumentos britânicos, vejo neles uma saudável manifestação de vigor democrático. Diz o povo que candeia que vai à frente alumia duas vezes. Se houver ‘Brexit’, em vez do medo e da chantagem, que passaram a ser as marcas identitárias da União Europeia, decido pela pedagogia: eles que nos mostrem como se faz este caminho que outros terão de trilhar. Alumiem-nos.

Texto publicado na edição do Expresso de 18 junho 2016

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    Jo Cox era uma deputada trabalhista, favorável à integração de refugiados e à permanência do Reino Unido na União Europeia. Nigel Farage é líder do partido anti-imigração UKIP e um dos grandes defensores do Brexit. Na semana passada, à mesma hora, a primeira foi assassinada por um nacionalista xenófobo enquanto o segundo apresentava um cartaz reminiscente da era nazi para convencer os eleitores a castigarem o bloco europeu nas urnas. Novas sondagens mostram que o coincidir desses dois eventos está a aproximar os britânicos mais indecisos do voto de permanência na UE, quando faltam apenas quatro dias para o antecipado referendo ao futuro do Reino Unido. Mas nada vai ser como antes

  • O projeto europeu é o inverso do que foi: em vez de convergência económica, a divergência; em vez do modelo social europeu, o seu desmantelamento; em vez de solidariedade, ameaças, sanções e ingerência; em vez do reforço da democracia europeia, a arbitrariedade. E, no entanto, a qualificação de “europeísta”, “eurocético” e “antieuropeísta” continua a usar-se como se nada tivesse acontecido. Um conjunto de sondagens recentes mostra que, nos países do norte da Europa (Reino Unido ou Holanda), a direita é mais antieuropeísta do que a esquerda. No sul (Grécia ou Espanha), acontece exatamente o oposto. No eixo central do poder europeu (Alemanha ou França) há quase empate, com a direita a mostrar-se um pouco mais eurocética. Na Escandinávia (Suécia), semelhante, mas com vantagem para a esquerda. Sejam sinal de indisponibilidade para ajudar outros quando a crise também bateu à porta, reação aos efeitos sociais da crise e a essa indisponibilidade ou a defesa de um Estado Social com fortes tradições, os euroceticismos de sentidos opostos resultam do mesmo: os povos perceberam que a Europa que temos, com as regras que tem, apela ao egoísmo. Foram os próprios opositores ao Brexit a deixar claro que o Reino Unido tem direito, como outros, a regras apenas feitas para si, que negociaram para evitar a saída. Até eles perceberam que isto já não é uma casa comum. Os que querem sair são apenas mais coerentes