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Brutalismo, discurso de ignorante (que na verdade não o é) e a modéstia da UE

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Park Hill. Um dos mais fotografados exemplos de arquitetura Brutalista na Europa

É um dia de contrastes, de sim ou não. Anotações em Sheffield, uma das cidades que define hoje o que será o futuro do projeto europeu. Começamos na arquitetura, acabamos na ambivalência dos argumentos

Ana França

Ana França

em Sheffield

Do cimo da colina de Blackwell Close avistam-se dois mundos distintos: à direita Sheffield Hallam, uma das zonas mais ricas de Sheffield, com a sua imponente universidade, símbolo de uma cidade que se quer vender como um polo de conhecimento, modernidade e inovação. À frente fica o enorme bairro social de Park Hill, um dos mais fotografados exemplos de arquitetura Brutalista na Europa, a joia da coroa da habitação social britânica dos anos 60. Mas as suas pontes de betão, que ligavam os vários prédios entre si como carruagens, e que de tão longas foram apelidadas de “autoestradas no céu”, hoje já não unem ninguém. Os prédios já não estavam em condições e as pessoas foram enviadas para outras casas do Estado. Para quem ainda aqui vive, no único prédio renovado, Sheffield tornou-se um lugar irreconhecível.

A robustez destes edifícios foi um dia também a da indústria do aço, que produzia para todo o mundo armamento, talheres, ferramentas e que deu a Sheffield o rótulo de Steel City. Cidade de aço é para alguns sinónimo de austeridade e cinzentismo mas Paul Holden, de 60 anos, que é funcionário de uma loja de artigos desportivos, relembra-nos que “o aço reluz”. Holden admite não saber bem o que mudou mas o que quer que tenha sido mudou demasiado: “Esta comunidade, e outras que também se dispersaram, eram extremamente unidas, havia uma identidade comum, uma luta comum, valores comuns. A Margaret Thatcher tirou-nos a indústria que nos definia e a Europa não a impediu, a Europa tem os seus produtos para nos vender, é claro que não nos vai deixar produzi-los. Em vez disso estamos a lidar não só com um ataque ao mercado interno, aliás um ataque arrasador do qual restam poucos sobreviventes, como com a absorção de uma grande quantidade de mão-de-obra barata”.

Parece um paradoxo que as comunidades do Norte e Centro de Inglaterra, tão fortemente trabalhistas, por vezes apresentem argumentos que poderiam ter saído de um panfleto escrito pelo líder eurofóbico Nigel Farage. Mas se o voto pela permanência é um voto para manter tudo igual ao que está, então entende-se que quem vive em áreas como Park Hill ou Sheffield Brightside não tenha qualquer vontade de “preservar o status quo”. A austeridade mordeu fundo as comunidades mais dependentes de subsídios e as pessoas acham que isso aconteceu porque a proteção social do Estado agora tem de esticar para abranger cada vez mais pessoas.

Lee Perry, um taxista de 45 anos pára em frente à mesa de voto e diz logo que vai votar para sair e que já nos explica porquê. “Alguma coisa tem de mudar e todas as oportunidades são boas oportunidades para abalar o sistema. Parece o discurso de um ignorante mas não é: os meus irmãos estão os dois desempregados, ambos já enviaram candidaturas para lojas de artigos de desporto, de venda de computadores e coisas assim e os gerentes só contratam europeus através de agências porque podem pagar menos. Eu não estou a dizer que é culpa dos europeus, mas só quando sairmos e admitirmos gente aos poucos é que as empresas, os patrões, vão valorizar o trabalho das pessoas daqui.”

Mas nem toda a gente pensa assim. Richard Roberson, com 41 anos, que trabalha com pessoas com problemas mentais, votou pela permanência precisamente porque viu o que os cortes do governo fizeram aos projetos que ajudavam os mais carenciados e não tem dúvidas: “A União Europeia é um organismo até bem modesto, porque muitas vezes têm sido os fundos europeus a garantir o funcionamento de atividades e a manutenção de infraestruturas que o governo central abandonou”.