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Brexit: que Europa é esta?

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Sim. Margaret Thatcher, acabada de ser eleita líder conservadora, fez campanha pelo ‘sim’ no referendo de 1975

Floyd/Daily Express/Hulton Archive/Getty Images

O Reino Unido vai a votos esta quinta-feira para decidir se fica, ou não, na União Europeia. Aconteça o que acontecer, a Europa nunca mais será a mesma

Filipe Ribeiro de Meneses

Já só faltam cinco dias para a União Europeia sofrer — talvez — a maior crise da sua já longa existência, uma crise cujas proporções e consequências ninguém ainda quis, ou soube, avaliar: a saída do Reino Unido da UE por via de um referendo. Estamos habituados há muito à expansão territorial da União. Custa-nos por isso, apesar dos desencantos dos últimos cinco anos, entender o como e o porquê da saída de um dos seus membros mais poderosos, um daqueles que não correm o risco de sanções, cujas contas estão em ordem e cuja economia cresce. Soube o Reino Unido aproveitar as oportunidades abertas pela União Europeia e soube também quando dizer ‘não’ a políticas que lhe não interessavam, como Schengen e o euro. A que se deve por isso o desejo de sair da União, de ‘Brexit’? E o que poderá dele resultar?

O Reino Unido não fez parte do lote inicial de países fundadores da antiga Comunidade Económica Europeia, mas não tardou a entender a necessidade de aderir a um bloco económico a que pertenciam os seus principais parceiros comerciais, sobretudo a França e a República Federal Alemã. O fim do ciclo imperial assim impunha. Mas Londres teve de sofrer para atingir o seu fim, graças à oposição tenaz de Charles de Gaulle, que vetou a adesão britânica: era a Grã-Bretanha, explicava De Gaulle, um porta-aviões americano ancorado ao largo da Europa. Georges Pompidou não seguiu as pisadas do velho general, e em 1973 o Reino Unido aderiu finalmente à CEE. No entanto, já nesta altura se notava no discurso britânico sobre o “mercado comum” uma forte relutância em abordar a dimensão supranacional da CEE, fixando-se o debate em torno das consequências económicas da adesão. Seria assim a CEE unicamente uma versão superior da EFTA (à qual o Reino Unido já pertencia), em função da importância das economias envolvidas. Deste engano adviriam graves consequências no futuro.

Foi a questão económica que dominou o debate em junho de 1975, quando o Governo Trabalhista de Harold Wilson, tendo renegociado os termos da adesão britânica, e de acordo com uma promessa eleitoral, realizou um referendo sobre a presença britânica na CEE. Dois terços do eleitorado participaram no escrutínio; desses, outros dois terços votaram a favor da permanência. O grosso da oposição encontrava-se no partido no poder, estando o próprio Governo dividido, um pouco como hoje: a ala esquerda do partido, onde figuravam Tony Benn e Michael Foot, receava uma perda de soberania económica que impedisse o partido de defender uma linha socialista no presente e no futuro. A recém-eleita líder conservadora, Margaret Thatcher, era a favor da CEE; o seu partido, embora não de forma unânime, estava com ela; militantes e eleitores receavam os sindicatos muito mais do que uma “Europa” ainda distante. A vitória foi expressiva, sobretudo na Inglaterra. Na Escócia e no País de Gales, bastiões trabalhistas, o resultado foi mais equilibrado.

Quarenta e um anos depois, é a Inglaterra que se mostra mais eurocética e um Governo conservador que se apresenta dividido. O que aconteceu entretanto? Muito. Em 1975 a CEE tinha nove Estados-membros; hoje, após expansões a norte, a sul e, sobretudo, a leste, a União Europeia conta 28, muitos dos quais não existiam enquanto países independentes aquando do primeiro referendo britânico. Finda a Guerra Fria, desapareceram a União Soviética e a Jugoslávia e deu-se a reunificação alemã, ressurgindo com ela a “questão alemã”, isto é, como evitar o domínio alemão do continente europeu. A resposta encontrada foi simultaneamente acelerar e tornar mais abrangente a integração europeia, criando-se o mercado único, a União Europeia e o euro. Porém, a necessidade de preparar, regular e proteger o mercado único levou a Comissão Europeia a intervir em campos cada vez mais diversos. Num país como o Reino Unido, que insistia em guiar à esquerda e que, por teimosia, resistia à simplicidade do sistema métrico (como outrora resistira às bombas da Luftwaffe), estas alterações eram malvistas, porque entendidas — e, sobretudo, explicadas — como impostas por estrangeiros não-eleitos. A série satírica “Yes, Minister” explorou tanto este sentimento quanto a forma como, já nos anos 80, ele era manipulado pela classe política. Foi a defesa da salsicha britânica, pretensamente em risco devido à fúria regulatória europeia, que facilitou a ascensão de Jim Hacker, o protagonista da série, à chefia do Governo — mas quando Hacker pronunciou o discurso churchilliano que lhe angariou a popularidade necessária para dar esse passo (“Trocaram-nos os quartilhos por litros e as jardas por metros, mas não podem e não irão destruir a salsicha britânica”) já sabia que a questão tinha sido resolvida de forma a satisfazer as reclamações de Londres. Tudo não passara de um enorme embuste.

Nesses mesmos anos 80, o Reino Unido experimentou as enormes transformações ditadas por Margaret Thatcher. Indústrias inteiras desapareceram, deixando os outrora poderosos sindicatos de rastos; uma onda de privatizações reduziu o papel económico do Estado, tornando precárias muitas ocupações outrora tidas como seguras; e os serviços financeiros — concentrados na City de Londres — tornaram-se o centro indiscutível da economia britânica, agora na crista da onda da globalização. Regiões inteiras empobreceram e uma fortíssima cultura proletária — um misto de protestantismo, socialismo reformista e patriotismo forjado nas duas guerras mundiais, a que o Estado-providência juntara a possibilidade de uma vida melhor, graças ao Serviço Nacional de Saúde, e de elevação social à geração seguinte, graças à educação pública — viu-se subitamente ultrapassada e mesmo em vias de extinção. O desejo de enriquecer a qualquer custo foi elevado a virtude por Thatcher, sendo a principal função do Governo permitir que tal acontecesse e não velar pelos desprotegidos. A sociedade, explicou a “Dama de Ferro”, não existia.

As tensões sociais visíveis durante este período nada tinham que ver com a Europa; eram o produto da feroz batalha entre duas conceções do Reino Unido radicalmente opostas. Mas graças à vitória militar sobre a Argentina, em 1982, que lhe salvou a carreira política, Thatcher compreendeu a utilidade de um inimigo estrangeiro — e tinha agora um feito à medida. Os anos de Thatcher no Governo coincidiram com a passagem pela presidência da Comissão Europeia do socialista francês Jacques Delors. Foi este provavelmente o período mais importante na história da (futura) União Europeia e de maior confiança no seu sucesso. Havia pouca margem para compromisso entre Thatcher e Delors. O projeto europeu, outrora visto como uma arma preciosa contra a ala esquerda dos trabalhistas, era agora entendido como um entrave à revolução liberal de Thatcher. À hostilidade teórica de alguns conservadores à perda de soberania sofrida desde 1973 vinha agora juntar-se a ideia de que esta organização estaria a prejudicar os interesses económicos de Londres, que se devia libertar do “continente”, retrógrada, cujo ponto de vista já não partilhava. Thatcher deu o mote através da campanha pela devolução de fundos — o famoso “rebate”, que limitava as transferências reais do Reino Unido para os seus parceiros (compreensível em parte porque o Reino Unido beneficiava menos da Política Agrícola Comum do que, por exemplo, a França). Foi um primeiro golpe na noção de solidariedade entre Estados-membros.

Tendo assim minimizado o impacto financeiro do alargamento a Sul (Espanha e Portugal), que iria necessariamente requerer um investimento inicial por parte da Comunidade Europeia (através, por exemplo, dos fundos estruturais contidos no “Pacote Delors”), Thatcher deu-lhe luz verde. Aprovou também o Ato Europeu Único, cujo fim era a criação do mercado único europeu até 1992, facilitado pela introdução do voto por maioria qualificada (e não por unanimidade, como até então), nas questões que lhe diziam respeito. Mas a hostilidade de Thatcher a Bruxelas foi sempre crescendo, e ficou como parte do seu legado ao Partido Conservador e ao país. O seu herdeiro, John Major, reeleito em 1992 com uma maioria exígua, sofreu às mãos dos eurocéticos dentro do partido, que lhe conseguiram impor uma derrota, de mãos dadas com a oposição, aquando da votação do Tratado de Maastricht, em julho do ano seguinte. Ficou famosa a descrição de Major dos inimigos que, dentro do próprio Governo, lhe obstruíam a ação — “the bastards”. Por esta altura já tinha ocorrido a “quarta-feira negra”, quando os mercados internacionais, liderados por George Soros, julgando a libra esterlina sobrevalorizada dentro do Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio, forçaram a sua saída, apesar dos esforços do Banco de Inglaterra. Esse dia de pânico financeiro, em que foram gastos milhares de milhões de libras numa tentativa vã de sustentar o valor da moeda, deixou marcas profundas na Grã-Bretanha, sendo interpretado como uma humilhação dispensável, provocada apenas pelo desejo de pertencer ao futuro euro.

A Major seguiram-se, em 1997, Tony Blair, decidido a reparar as relações entre o Reino Unido e a União Europeia, e, em 2007, Gordon Brown. O regresso dos trabalhistas ao poder foi marcado pela introdução dos “cinco critérios” para a adoção do euro e, mais tarde, pela recusa de Brown, já como primeiro-ministro, em aderir à moeda única. Ressentiam-se as instituições europeias, por esta altura, do enorme esforço empreendido para alargar e aprofundar a União. Foram aprovados os Tratados de Amesterdão (1997) e de Nice (2001), mas derrotada, pelo eleitorado francês e holandês, a Constituição da União, parte importante da qual foi, mesmo assim, reciclada no Tratado de Lisboa (2007). A Irlanda, entretanto, foi forçada a repetir os referendos sobre Nice e Lisboa, como a Dinamarca repetira já um referendo sobre Maastricht. A sucessão de tratados descritos como essenciais e as manobras para os impor prejudicaram, como seria de esperar, a reputação democrática da União Europeia, tornando-a um alvo fácil para os seus inimigos. Entretanto, dentro do Partido Conservador, forçado a uma travessia do deserto de treze anos, a guerra civil continuou, intensificando-se até com o passar dos anos. Eurocéticos assumidos como Michael Howard e Iain Duncan-Smith passaram pela liderança partidária e cresceu a corrente que defendia a realização de um segundo referendo, para decidir de uma vez por todas o futuro do Reino Unido dentro da União. David Cameron, líder desde 2005, não pertencia a este grupo, mas mostrou-se incapaz de pôr cobro às dissensões em torno da questão europeia. Nunca escondeu, porém, a sua frustração com Bruxelas, e raramente se lhe ouviu uma palavra de apreço sobre todo o projeto, tido essencialmente como um mal necessário (uma atitude que se reflete na campanha eleitoral em curso). Durante os Governos de Blair e Brown cresceu — e muito — a fação do Partido Conservador que interpreta o projeto transnacional da União Europeia como um atentado aos pilares da política doméstica e internacional do Reino Unido: as tradições de soberania parlamentar e de evolução gradual e cautelosa, fundamentada por observações empíricas e não preceitos ideológicos; o receio de se ver envolvido em questões continentais, em vez de permanecer “esplendidamente isolado”; a “relação especial” com os Estados Unidos, perseguida com afinco desde Winston Churchill, por vezes (como aquando da segunda guerra do Iraque) de forma embaraçosa; e o comércio livre (agora sob o rótulo de “globalização”). Para quem se guia por estes princípios — esquecendo-se necessariamente da importância do império para a grandeza do Reino Unido — a União Europeia surge como um pesadelo burocrático, em tudo contrário aos interesses seculares do país. Estes conservadores lembram que, quando em 1946, em Zurique, Churchill recomendou a criação dos Estados Unidos da Europa, incluiu a Grã-Bretanha (com a sua Commonwealth) no lote dos amigos e patrocinadores da empresa, lado a lado com os Estados Unidos e a União Soviética, e não entre os seus membros.

É já sob a liderança de Cameron que assistimos aos desenvolvimentos essenciais para entendermos o que se passa agora no Reino Unido. Depois de várias vagas de emigração chegadas do antigo império — da Irlanda (uma constante ao longo dos séculos XIX e XX), das Caraíbas, do subcontinente indiano e de África — chegou a vez, na última década, da imigração europeia, oriunda de toda a União: imigração essa que o Estado britânico, graças à liberdade de movimento inerente ao mercado único, não pode travar nem controlar (e que num primeiro momento, após o alargamento a Leste, quando ainda era possível fazê-lo, não quis retardar), apesar de promessas insensatas por parte de Cameron sobre a redução do número de estrangeiros a viver no Reino Unido. Esta imigração europeia é motivada quer pela boa prestação da economia britânica, a segunda da União, quer pela incapacidade de grande parte da população de beneficiar dessa boa prestação. Porquê? Porque não está qualificada para participar nos serviços financeiros da City, cujo alcance (e recrutamento) é hoje global, ou porque desdenha os empregos criados no sector de serviços — cuja precariedade é notória, em grande medida porque a legislação laboral do Reino Unido (por oposição à do resto da União Europeia) assim permite. O que alguns desprezam, a outros, vindos da Europa meridional ou de Leste, aparece como o ponto de partida para uma nova vida num país onde os salários são, por comparação aos praticados nos países de origem, altíssimos. Porém, foi enorme o mal-estar provocado por esta imigração entre a população local, que, mal guiada por uma imprensa eurocética e sensacionalista, e uma classe política habituada a usar Bruxelas como um bode expiatório, depressa começou a confundir causas e efeitos. Assim, os resultados práticos dos cortes impostos nos serviços sociais pela política de austeridade do chanceler George Osborne foram interpretados como consequência da necessidade de esticar aos limites o Estado-providência de forma a abranger os recém-chegados. Entretanto, os partidos políticos tradicionais viraram as costas ao público sobre a imigração, receando ser acusados de xenofobia. Na campanha de 2010, Gordon Brown foi inadvertidamente gravado a queixar-se de uma eleitora com quem conversara, a quem chamou “mulher preconceituosa”. Estava encontrado o tema capaz de tornar popular a causa eurocética, até então basicamente limitada a elementos do Partido Conservador.

Se ignorarmos a extrema-direita pura e dura (o British National Party), o primeiro partido a explorar e a beneficiar dos receios da população britânica quanto a uma imigração impossível de controlar — e gozando de importantes garantias legais quanto à sua entrada e permanência no Reino Unido — foi o United Kindgom Independence Party (UKIP), de Nigel Farage, criado originalmente para combater a adoção do euro e, se possível, retirar o Reino Unido da União. De 600 mil votos em 2005 passou a 3,8 milhões no ano passado — o mesmo que, por exemplo, a soma dos votos no Partido Nacionalista Escocês (que elegeu 56 deputados) e nos Liberais Democratas, de Nick Clegg (oito deputados). Apesar deste magnífico resultado, Nigel Farage ficou fora do Parlamento, elegendo o UKIP apenas um único deputado. Nas eleições para o Parlamento Europeu, porém, o potencial do UKIP ficara já demonstrado em 2004, quando os seus 2,6 milhões de eleitores representaram 16,1% dos votos. Em 2014 estes números aumentaram para 4,4 milhões e 27,5% (elegendo o UKIP 24 dos 73 eurodeputados britânicos) — uma vitória inequívoca para o partido de Farage.

A tendência para minimizar a importância de eleições para o Parlamento Europeu é comum a todos os Estados-membros; mas os resultados obtidos pelo UKIP a partir de 2005 mostravam que algo de importante se passava: o partido deixara de ser uma agremiação de ex-conservadores frustrados pela pusilanimidade de sucessivos governos perante as intromissões de Bruxelas, para ser o partido de ex-trabalhistas ingleses e galeses que desde Tony Blair haviam deixado de se rever num partido que já não os entendia e que muito menos lhes defendia os interesses — um partido que, nas mãos de Blair, Brown e Miliband, piscava o olho às classes médias e mostrava-se mais preocupado com o crescimento económico e liberdade de escolha do que com as necessidades dos seus apoiantes tradicionais. À frente das preocupações deste eleitorado estava agora a imigração, vista por uma crescente fatia da população como descontrolada e a causa de um declínio constante de salários e de condições de trabalho, mas sobre o qual o partido não dizia uma palavra. Simples xenofobia? Não necessariamente. Um dos fenómenos mais curiosos em torno desta nova imigração é a revolta das comunidades de imigrantes não-europeias, que se sentem ofendidas pela facilidade com que polacos, romenos, portugueses, italianos e franceses se apresentam no Reino Unido sem vistos, nem convites de emprego, nem, em muitos casos, mais do que algumas palavras de inglês. Segundo os dados do Migration Observatory, da Universidade de Oxford, em 2014 13,1% da população do Reino Unido nascera no estrangeiro e 8,5% era composta por estrangeiros (refletindo a diferença o número de imigrantes entretanto naturalizados). Entre os estrangeiros, a comunidade polaca, extremamente recente, representava já 15,1% do total (por comparação com a indiana, em segundo lugar, com 7,3%).

Pressionado pela poderosa ala eurocética do seu próprio partido e, segundo as sondagens então realizadas, incapaz de conquistar uma maioria absoluta nas eleições marcadas para maio de 2015, David Cameron prometeu realizar um referendo sobre a União Europeia, de forma a acalmar as suas hostes. Julgava Cameron na altura que, para poder governar, precisaria de um parceiro — provavelmente renovando a coligação com os democratas-liberais de Clegg, com quem vinha colaborando razoavelmente desde 2010. Europeístas por excelência, não permitiriam os lib-dems a inscrição de um tal referendo no programa de Governo, a negociar depois das eleições. Foi esta, no fundo, a grande aposta de Cameron: uma promessa que julgou nunca ter de cumprir. Mas, para seu espanto, os conservadores conseguiram mesmo conquistar uma maioria absoluta, à custa, curiosamente, dos lib-dems, cujo eleitorado não perdoou a Clegg a coligação com os conservadores e desertou do partido. Na Inglaterra e no País de Gales, o UKIP fez mais estragos aos trabalhistas do que aos conservadores; na Escócia, os nacionalistas destroçaram o que restava dos trabalhistas. Tudo se conjugou para dar a Cameron um triunfo inesperado que o deixou refém de uma promessa impossível de ignorar: a de que a permanência do Reino Unido na União Europeia tinha de ser sufragada pela população.

O ‘Brexit’ assenta assim numa vaga de fundo inegável. Aos milhões que votaram no UKIP nas eleições de 2015 juntam-se agora cada vez mais ex-trabalhistas, provenientes de uma esquerda frustrada e abandonada, e os “little englanders”, conservadores tradicionais, receosos do mundo para lá do Canal da Mancha e insatisfeitos com as traduções operadas no seio do seu país, sobre o qual, sentem, perderam o controlo. Em 2015 votaram no Partido Conservador por causa da promessa do referendo com que sonham há muito. Que seja a União Europeia a causa dos males contra os quais ambos reagem é duvidoso, mas não interessa: depois de décadas de uma cobertura corrosiva das instituições europeias (ficou célebre a primeira página de “The Sun” de 1 de novembro de 1990, com o título intraduzível “Up Yours Delors”), argumentos racionais deixaram de afetar o debate sobre a União Europeia. Há anos que a News Corporation de Rupert Murdoch, que inclui a cadeia televisiva Sky e jornais como “The Times” e “The Sun”, combate o projeto europeu por todos os meios, sendo acompanhada neste desígnio por outros títulos sonantes da imprensa britânica, como o “Daily Telegraph”, o “Daily Mail” e o “Daily Express”. Embora Murdoch seja um campeão da globalização (e um inimigo da regulação), não é apenas sob esta bandeira que os seus jornais combatem a União. E seguindo-lhe os passos, a campanha oficial a favor do ‘Brexit’ é dominada por um misto de saudosismo e xenofobia, com muita mistificação à mistura. É de certa forma o espelho britânico do projeto de Donald Trump. E tal como nos Estados Unidos, onde um bilionário conhecido pelos seus excessos e mau génio dá voz à frustração de todos aqueles que julgam estar o seu país a desaparecer, graças à imigração, à desindustrialização e ao “politicamente correto”, no Reino Unido são figuras igualmente improváveis que surgem à frente da campanha para o ‘Brexit’ — não só Farage como — e sobretudo — Michael Gove e Boris Johnson, conservadores, ex-jornalistas oriundos de escolas privadas e de Oxford e membros indiscutíveis do establishment contra o qual se insurgem os milhões que vão votar ‘não’ à permanência do Reino Unido na União Europeia.

A tarefa dos defensores dessa permanência não é facilitada pela atual liderança trabalhista; Jeremy Corbyn, herdeiro ideológico de Foot e Benn, com um longo passado de oposição à União e à sua deriva liberal, não convence agora como europeísta, contribuindo com a sua inação para a confusão em que está claramente mergulhado o partido. Com cada sondagem cresce a impressão de que o voto trabalhista (se é que ainda pode ser descrito como tal) tenderá para o ‘Brexit’. Corbyn, que se recusa a fazer campanha ao lado de Cameron, pouco se vê, permitindo assim que a campanha eleitoral se confunda com a batalha pela liderança do Partido Conservador: David Cameron contra Boris Johnson. A situação vivida há anos na periferia da zona euro também não ajuda a causa da União. Transparece a ideia de crise permanente e insolúvel, da qual o Reino Unido faria bem em afastar-se o mais possível.
A questão da total liberdade de movimento de trabalhadores dentro das fronteiras da União Europeia é crucial para o futuro não só da Grã-Bretanha mas de toda a União (se é que a segunda pode existir sem a primeira), à qual se poderá estender. É o ponto preciso em que o projeto europeu, o mercado único que forma o seu núcleo e a vocação universalista da União chocam com as expectativas das populações dos vários Estados-membros e a falta de informação generalizada sobre o que é, e para que serve, a União Europeia. Esta questão confronta as populações com a realidade da falta de poder dos respetivos governos para travar a transformação das comunidades em que vivem, fazendo-as despertar para uma nova realidade, na qual o Estado-nação já não funciona como o defensor dos seus interesses mais imediatos. De nada lhes serve fazer parte de um gigantesco mercado único, se dele nunca beneficiaram. Daí o slogan mais eficaz dos partidários do ‘Brexit’: “Take back control [recupera o controlo]”. O fluxo de refugiados chegados de África e do Médio Oriente, ainda longe de terminar, veio juntar-se à imigração intraeuropeia, criando a impressão, bem explorada por alguns, de um enorme movimento de massas em direção à Grã-Bretanha. Como prova são apontados os acampamentos semipermanentes de refugiados e imigrantes clandestinos em cidades portuárias francesas, como Calais. A capa do “Daily Express” de 2 de junho, com uma fotografia de albaneses acampados em Dieppe debaixo do título “The Invaders”, explora este receio de forma chocante.

Os líderes da campanha pró-‘Brexit’ têm um trunfo ainda maior na manga, que não hesitam em jogar, por irresponsável e insultuosa que seja tal ação: a Turquia, com os seus mais de setenta milhões de habitantes, cuja adesão à União Europeia, descrita como inevitável, é apresentada como a estocada final à coesão interna do Reino Unido. Num futuro próximo, explicam, essa enorme massa humana irá atravessar a Mancha à procura de emprego. Será o fim. Pelo caminho, desprezam Farage, Gove e Johnson argumentos da maior importância para um debate racional: que os imigrantes já no Reino Unido trabalham e produzem a riqueza que sustenta o Estado-providência, contrariando o envelhecimento da população britânica; que para continuar a ter acesso ao mercado único, o Reino Unido terá de continuar a permitir o livre movimento de trabalhadores; e que mesmo se renunciar aos dois, terá de continuar a importar trabalhadores estrangeiros.

Se, em 1975, foi a Inglaterra, onde reside a grande maioria da população britânica, que mostrou mais entusiasmo pela então CEE, hoje é o contrário: A Escócia e a Irlanda do Norte mostram-se mais abertas à permanência na União Europeia (estando o País de Gales alinhado com a Inglaterra). A Política Agrícola Comum representa uma fonte importante de rendimento para a economia norte-irlandesa, onde a componente rural é fortíssima. Mas a saída da União significa um enorme retrocesso no processo de paz na Irlanda do Norte e nas relações entre esta (e o Reino Unido em geral) e a Irlanda. Muitas vezes nos esquecemos de que o Reino Unido tem uma fronteira terrestre e que esta, durante longas décadas, foi extremamente problemática. Tudo o que seja vincar as diferenças entre os dois lados dessa fronteira é visto em toda a ilha com apreensão, pois o processo de paz assentou precisamente na diluição de identidades e soberanias, algo facilitado pelo livre movimento de bens, pessoas e serviços característico da União Europeia. Mas como controlar a entrada de cidadãos europeus no Reino Unido pela fronteira terrestre com a Irlanda (onde têm todo o direito de residir e trabalhar) sem fiscalizar os 500 km de fronteira, interrompendo, por exemplo, a autoestrada que agora liga Dublin a Belfast? E o que fazer às inúmeras estradas e caminhos rurais que, mesmo durante os tristes anos dos Troubles, o exército britânico nunca conseguiu controlar devidamente? A criação de postos de fronteira seria saudada como um enorme retrocesso para a paz e estabilidade de toda a Irlanda. A alternativa — controlar o trânsito marítimo entre a Irlanda do Norte e o Reino Unido — é politicamente inaceitável.

Mais problemática ainda é a situação da Escócia, que também viu desaparecer as suas indústrias tradicionais ao longo dos anos 80 (a começar, claro, pela construção naval, reduzida hoje a uma fração minúscula do que outrora foi). Durante longas décadas a Escócia foi um bastião trabalhista, mas a subida ao poder de Tony Blair (que veio substituir um líder escocês, John Smith, falecido inesperadamente em maio de 1994) fez vacilar esse apoio. O eleitorado trabalhista não se reviu no New Labour e na “Terceira Via” de Blair; queria antes um partido que se batesse pelos seus valores, os seus empregos e o seu modo de vida — mas Blair, à caça da classe média inglesa, virou-lhe as costas, ao mesmo tempo que, num processo paralelo, devolvia poder político à Escócia, dotada agora de Governo e Parlamento próprios. O resultado foi imediato: a ascensão do Partido Nacionalista Escocês [SNP], que hoje domina por completo essas instituições enquanto detém a quase totalidade dos deputados escoceses no Parlamento britânico, em Westminster. Fracassou o SNP no seu intento de separar a Escócia do resto do Reino Unido, por referendo, em setembro de 2014, mas durante a campanha eleitoral afirmou alto e bom som, de forma a vincar as diferenças entre a Escócia e a Inglaterra, o seu europeísmo. Na altura, ouviram-se muitas vozes (incluindo a de Durão Barroso, enquanto presidente da Comissão Europeia) afirmando ser difícil, se não mesmo impossível, a Escócia, uma vez independente, aderir à União. Agora a situação é outra: o que acontecerá se o eleitorado escocês votar a favor da permanência na União Europeia mas o Reino Unido optar pelo ‘Brexit’? Podem os escoceses perder o direito à cidadania europeia? Nicola Sturgeon, líder do SNP e do Executivo escocês, e tenaz e inteligente defensora da permanência na União Europeia, já avisou: a defesa desse direito é razão suficiente para repetir o referendo de 2014 sobre a independência. Por outras palavras, desejando salvaguardar a independência do Reino Unido através da saída da União Europeia (cujo fim esperam, muitos deles, provocar), os proponentes do ‘Brexit’ estarão — talvez — a contribuir para a sua desagregação.
Nota: Foi este artigo concluído a 13 de junho. As sondagens indicavam nesse dia que as intenções de voto estavam igualmente repartidas entre o ‘sair’ e o ‘ficar’, tendo o ‘Brexit’ recuperado muito terreno desde o início da campanha. Pensa-se que quanto maior for a participação eleitoral, melhor será a prestação dos partidários da União Europeia — mas ninguém tem a certeza, dadas as previsões erradas das várias agências de sondagens antes das eleições gerais de 2015. Porém, há um facto a reter. Segundo um estudo feito pela London School of Economics, um terço do eleitorado, consciente da importância deste ato eleitoral, só decidirá como votar no dia do referendo. Por outras palavras, nada está ainda decidido.

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Texto publicado na edição do Expresso de 18 junho 2016