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‘Brexit’ ou ‘UExit’? Por Henrique Monteiro

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Começou com a comunidade do carvão e do aço; seis países — Bélgica, Holanda, Luxemburgo, França, Alemanha e Itália. A ideia era, sobretudo, manter a paz.

Mais tarde transformou-se em Comunidade Económica Europeia (CEE), através dos tratados de Roma (1957). E assim se manteve, com um mercado, impostos alfandegários e uma política agrícola comuns durante muitos anos. Aos poucos foram aderindo outros — o Reino Unido, a Irlanda e a Dinamarca; depois a Grécia e, em 1986, Portugal e Espanha. Quando em 1989 caiu o Muro e em 1990 há a reunificação alemã, a contrapartida exigida pelos franceses ao gigante que se formava com sede em Berlim foi a moeda única. E a Europa, espaço de paz e progresso, continuou a crescer: ao todo são hoje 28 países assentes no tripé formado pelos tratados de Maastricht, Amesterdão e Nice, com a geometria variável de livre circulação de pessoas para os subscritores de Schengen e moeda única para os que aderiram ao euro.
O Reino Unido ficou de fora de ambos.

A Comunidade, que se designa União Europeia desde 2009 (quando passa a vigorar o Tratado de Lisboa), tem ainda a Albânia, a Macedónia, o Montenegro e a Sérvia como candidatos à entrada. Países como a Islândia, Noruega e Suíça têm diversos acordos firmados. Ou seja, quase todo o continente está unido, num espaço de mais de 500 milhões de habitantes, com um PIB per capita que é o maior do mundo. A predominância política foi sempre da Alemanha e da França (ultimamente mais da Alemanha) e a consciência crítica do Reino Unido.

Este ‘grilo falante’ foi sempre o lado mais atlantista (leia-se também pró-americano) de uma Europa que é um gigante com pés de barro, sem um sistema de defesa eficiente que não seja repousar nos EUA.

Se os britânicos votarem pela saída, a Europa ficará sem essa componente. E ficará também mais centrada no lado continental, o menos interessante e importante para Portugal. A reação da Escócia, que se quer manter no interior da UE será uma incógnita — provavelmente cinde-se com o Reino Unido, propiciando uma confusão total noutras zonas — como a Catalunha, o País Basco, a Valónia, o Norte de Itália e regiões mais ou menos fraturadas com os países que integram.

O ‘Brexit’ pode ser um ‘UExit’, no sentido em que a própria UE deixa de fazer sentido tal como é. Mas será, igualmente, uma má escolha para Londres, do ponto de vista económico e do ponto de vista da influência que os britânicos têm e podem ter na União.

Espero, com pouca esperança, confesso, que se mantenham. E que intervenham mais e façam ouvir a sua voz. A Inglaterra é o mais antigo espaço de liberdade na Europa. Sem ele, a União deixa de ser o que é para ser outra coisa. Provavelmente pior.

Texto publicado na edição do Expresso de 18 junho 2016