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Ativistas britânicos expulsos de França por “orquestrarem” confrontos entre refugiados e a polícia em Calais

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PHILIPPE HUGUEN

Um académico de Cambridge de 31 anos, que trabalhava há vários meses como voluntário no campo de refugiados de Calais, e um jovem ativista de 19 anos foram julgados por alegadamente terem organizado o protesto de alguns migrantes na segunda-feira, travado pela polícia com gás lacrimogéneo e canhões de água

Dois homens britânicos receberam na quarta-feira ordens para abandonarem França imediatamente por representarem uma "ameaça à ordem pública" após a polícia os ter acusado de "orquestrarem" violentos confrontos entre alguns migrantes e refugiados e as autoridades que fazem a patrulha do campo improvisado de Calais.

Depois de terem sido detidos, Steven Martin, de 31 anos, e Richard Jones, de 19, foram presentes a um tribunal de Bolonha para um "julgamento imediato", sob acusações da polícia de serem fomentarem o violento braço-de-ferro de segunda-feira, no qual alguns refugiados e migrantes atiraram pedras, cones de sinalização de trânsito e pequenos troncos de árvores para o meio de uma das estradas que leva ao porto de Calais, com o objetivo de embarcarem nos camiões que atravessam o eurotúnel do Canal da Mancha com destino ao Reino Unido.

A polícia usou gás lacrimogéneo e até canhões de água para os dispersar, acusando depois Martin, um académico de Cambridge que é autor de alguns relatórios do Governo britânico sobre saúde pública, de usar os seus conhecimentos científicos para "fermentar" gás lacrimogéneo num laboratório improvisado na "selva de Calais", onde cerca de seis mil refugiados e migrantes continuam acampados.

Tanto Martin como Jones negam as acusações de pertencerem ao grupo de ativistas No Border e de terem sido eles a motivar os refugiados para que se manifestassem em Calais, admitindo contudo em tribunal que viram membros desse grupo a tentarem convencer alguns migrantes a atacarem a polícia.

Martin, que trabalha há vários meses como voluntário no campo de refugiados de Calais, foi acusado pela polícia de orquestrar o motim e de procurar "os pontos fracos" das autoridades para os usar a favor dos manifestantes. Foi absolvido das acusações formais de arremesso de projéteis e por ter partido uma janela de uma carrinha policial.

Jones, que era acusado de desempenhar um papel importante no mesmo protesto, garantiu em tribunal que só estava a tentar acalmar as tensões, declarando-se culpado de ter proferido insultos contra um agente da polícia, por ter comparado as autoridades francesas aos "nazis" e "fascistas" por causa do colaboracionismo de alguns agentes daquela força com a Alemanha de Hitler durante a II Guerra Mundial. Por causa disso, foi condenado a uma pena suspensa de dois meses de prisão.

Após a audiência, os dois homens receberam notificações formais das autoridades de Bolonha ordenando que abandonem França de imediato por causa do seu "comportamento e atitudes para com a polícia" e por representarem uma "ameaça para a ordem pública".

À saída do tribunal, Jones avisou que se o referendo desta quinta-feira no Reino Unido sobre a permanência na União Europeia terminar com uma vitória do Brexit, "a situação vai ficar dez vezes pior" em Calais. "Se de repente [os migrantes] sentirem que os seus direitos de permanência no Reino Unido serão afetados por isso, então a situação de desespero em que se encontram só vai ficar exacerbada", avisou o ativista.