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Afluência no referendo acima do normal em Camden

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NEIL HALL/REUTERS

As urnas abriram e a chuva parece abrandar. Participação eleitoral será determinante para o resultado do referendo

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

enviado a Londres

São 8h30 e a chuva forte que caía à hora de abertura das urnas (7h) parece dar tréguas. No centro comunitário de Marchmont, no bairro londrino de Camden, há muita gente a votar. "São mais do dobro, a esta hora, dos que vieram para a eleição do presidente da Câmara, no mês passado", diz ao Expresso Mike O'Neill. Ali ao lado, na estação de metro de Russell Square, uma banca dos partidários da permanência tenta estimular as pessoas a irem votar, o que é permitido no Reino Unido.

Mike está na mesa de voto na qualidade de observador do Partido Trabalhista, e também cá esteve a 5 de maio quando Sadiq Khan foi eleito para liderar a capital britânica. A sua função é pedir o número de eleitor a cada pessoa que vota, para o partido poder contactar e mobilizar aqueles que sabe que ainda não vieram exercer o seu direito.

Num referendo que, tudo indica, vai ser decidido por escassa margem, a participação será decisiva.

"Quem me dera estar otimista!", diz Mike, que defende a permanência do Reino Unido na União Europeia, como a maioria dos trabalhistas. "Faço figas, mas vai ser apertado", concorda Rosie Rutherford, que acabou de votar para ficar.

Camden é um 'borough' (parente da freguesia) que se estende do centro de Londres quase à periferia, o que significa que acumula várias classes socioeconómicas. Tem 230 mil habitantes, menos de metade dos quais são brancos. Nas eleições costuma votar maioritariamente no Partido Trabalhista.

Banca dos europeístas em Russell Square para mobilizar o eleitorado

Banca dos europeístas em Russell Square para mobilizar o eleitorado

Pedro Cordeiro

Imigração pressiona mercado da habitação

Desejo oposto tem Rogério Silva, cabeleireiro brasileiro de 45 anos, 23 deles passados em Londres. "Primeiro eu queria ficar, mas a campanha convenceu-me a votar para sair", afirma, explicando a reviravolta com o "casamento infeliz" entre os britânicos e a UE. "Há quem tenha medo de sair porque é sempre difícil abandonar a zona de conforto, mas ninguém aqui está contente com a UE."

No seu caso, o descontentamento tem que ver com o fenómeno que aqui o trouxe: a imigração. No seu tempo era controlada, garante, mas nos últimos dez anos "a pressão é insuportável". Conta que tem amigos a sair de Londres para os arredores por causa do preço crescente das casas, que atribui à entrada de cada vez mais gente.

"Seria o colapso económico", contrapõe Maureen Hayes, que votou pela permanência. "Acho, infelizmente, que vai ganhar a saída. Os políticos de todos os partidos passaram anos a explorar o papão da UE. As pessoas sabem pouco sobre a Europa, até porque o assunto não apaixona nem fez vender jornais." Mas considera que os eurocéticos estão iludidos: "Acham o quê? Que no dia seguinte aparece um mundo inteiro à espera de fazer comércio connosco?"

Primeiras páginas dos jornais no dia do referendo

Primeiras páginas dos jornais no dia do referendo

Pedro Cordeiro

Deborah Salford concorda que o povo não está esclarecido. "O nosso sistema educativo é mau, os cidadãos não têm ferramentas para analisar a questão. Ainda assim acredito que vamos ficar, por uma unha negra", diz. Deixa uma crítica às forças políticas de esquerda, em que costuma votar: "Estiveram ausentes do debate. Deviam ter explicado como a imigração é útil para a economia, e que todos os que vêm para cá trabalhar devem ter um salário decente". Conclui que muitos irão votar consoante as ideias feitas que têm, não necessariamente a respeito da Europa.