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Jaime Nogueira Pinto

A vontade de Shakespeare. Por Jaime Nogueira Pinto

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Todos os dias vejo as sondagens do referendo inglês. Oscilam, próximos, o ‘sim’ e o ‘não’, dependendo do dia e do instituto. Como as coisas estão, não há previsão ou profecia possíveis. Tenho falado com amigos ingleses, políticos e intelectuais, mas quase todos são patriotas, conservadores e eurocéticos, com exceção dos mais business oriented, que se assustam com as estatísticas catastróficas que Cameron e Osborne põem cá fora. Um exercício interessante na campanha tem sido a presunção da vontade dos “grandes ingleses”: permanência ou saída? Como não podia deixar de ser, Shakespeare, o mais “inglês” e também o mais universal e “europeu” dos ingleses, tem estado no centro da adivinhação. Todos ressalvam o gosto pela ambiguidade e pela contradição do Bardo – pai de Hamlet, o Príncipe da Indecisão —, mas os pró-exit sublinham o seu patriotismo, citando a abertura do discurso do duque de Lencastre em “Ricardo II” (“This royal throne of Kings, this sceptred isle... This blessed plot, this earth, this realm, this England”) e os epítetos com que agracia povos e reinos “europeus”: os alemães são ansiosos, os holandeses rudes e os espanhóis fanfarrões; a Dinamarca está “podre”, a Grécia é “insolente” e a França, “a fickle wavering nation” (“Henry IV”), é um “dog-hole” que não merece sequer “the tread of a man’s foot” (“All’s Well that Ends Well”).

Já os partidários da permanência puxam pelo Shakespeare que, sem sair das ilhas, conhece ou intui toda a Europa e todo o mundo, situando histórias em Itália, em Malta, em Viena, em Chipre, em França; o Shakespeare que fala na bay of Portugal (o estuário do Tejo?), que vai até ao Egito, com António e Cleópatra, que angliciza palavras de todas as línguas; o Shakespeare “tudo em todos”, no mouro Otelo, no judeu Shylock, no selvagem Caliban. Assim, prevê-se que no ‘Brexit’ vença a vontade de Shakespeare — seja ela qual for. Outra coisa é também certa: seja qual for o resultado, a Europa não voltará a ser a mesma, porque ou os ingleses saem e é um fim e um recomeço ou ficam e as exceções que ganharam para ficarem vão ser reivindicadas por outros numa Europa à la carte. Em Portugal, com uma classe política repartida entre a eurofilia cega de uns e a eurofobia temporariamente reprimida de outros, convém não esquecer que, melhor ou pior, na decadência e na crise, somos um Estado nacional cujas fronteiras políticas coincidem com as fronteiras histórico-culturais da nação. E que isso há de valer alguma coisa. E Shakespeare? Shakespeare estaria hoje, como Hamlet, entre os onze ou doze por cento de “indecisos” das sondagens. Mas no dia 23, entre o medo pela bolsa, que não prezava nem pesava muito, e o gosto pela vida aventurosa... era bardo para votar pela saída.

Texto publicado na edição do Expresso de 18 junho 2016