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A sua fruta vem toda de cá?

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NEIL HALL / Reuters

Considerações e ponderações em Leeds no dia em que o Reino Unido diz in ou out

Ana França

Ana França

correspondente em Inglaterra

Uma hora num autocarro para o interior e chegamos a Leeds, mais uma cidade universitária. Mas quem chegasse à estação de autocarros e por aqui ficasse não adivinharia que é um enorme e moderno campus que alimenta a cidade.

Podia ser o cenário de uma cena de Trainspotting. Garrafas partidas, muito lixo, jovens a beber sentados nas escadas cravejadas de pontas de cigarros. David Wright, de 64 anos, é segurança da estação e está a contar aos seus colegas, na pausa do seu próprio cigarro, porque é que votou esta manhã para sair da União Europeia. Esteve no exército antes de ser segurança. Bósnia. Iraque duas vezes. Mas medo, medo, só aqui. "Já fui esfaqueado, espancado, já tive garrafas partidas na cabeça e estou aqui sozinho sempre à noite, a porta do gabinete aberta. Sete em cada dez chatices são com estrangeiros, polacos, romenos, portugueses..."

Portugueses?

"Sim, portugueses, não sei, brasileiros, angolanos, falam português mas nem são tão violentos. Não têm onde dormir nem o que comer, precisam de se aquecer e forçam a entrada nos cafés."

Wright é escocês e diz que sabe que o seu país votará para permanecer na UE. Admite até uma cisão com o resto do Reino Unido, um segundo referendo. "Se eu tivesse ficado na Escócia, se calhar não tinha votado para sair mas a Inglaterra está desfigurada. Somos um grande reino, o melhor país do mundo e não temos que ter gente a mandar em nós. O mercado cheio de produtos estrangeiros, as ruas cheias de mercearias do Leste, não há casas para ninguém, os salários contraíram, os hospitais têm listas de espera malucas."

Os colegas fazem que sim com a cabeça. Um diz: "Vou agora votar no fim do turno".
Mesmo ao lado da estação fica o Mercado de Leeds: há desde utensílios de cozinha a enxovais completos, roupa em segunda mão a sapatilhas de corrida da Nike, daquelas levezinhas. A serem falsificações foram as melhores que já vimos. Cheira a laranjas bolorentas e a cachorros quentes.

Oliver só para de gritar o seu pregão quando lhe compramos aquilo que só pode ser descrito como uma bacia de pêssegos achatados. Não quer conversa fiada, quer negócio. E quer sair da União Europeia. "Não voto há mais de 20 anos. Hoje fui votar NÃO à Europa", atira num grito convicto. Vocês sabem quem foi o Hilary Benn? O Michael Foot? Essa gente sim, trabalhistas a sério, gente que era capaz de vir para aqui vender batatas comigo. Os políticos não querem saber da classe trabalhadora, ninguém vai lutar pelo nosso país senão nós e temos que o ter de volta."

E a sua fruta, vem toda de cá?

"Não, muita é europeia mas os europeus vão querer continuar a exportar para cá e nós colocaremos os nossos produtos lá mas escolheremos quais: não será esta invasão de laranjas de Espanha e leite de França. E também não seria mal pensado reaver um pedacinho de controlo das fronteiras: afinal somos ou não somos soberanos? Quem é que manda?"

Oliver, que não diz o segundo nome mas diz andar a vender fruta há 50 anos - "desde sempre" - acrescenta que "o governo atual não é melhor que o da UE" e que "pensou e leu sobre o assunto antes de votar" e até admite que o seu voto "não conta para nada porque os políticos vão sempre fazer leis para os amigos ricos e os trabalhadores que se governem".

É verão, não há aulas; os parques, os cafés, o campus universitário, por todo o lado há só caras jovens. A avenida até à universidade tem tanto trânsito na rua como no passeio - é o dia aberto da universidade, quando os estudantes podem vir visitar as instalações, conhecer os programas dos cursos e ouvir alguns professores. Parece, e é, outro mundo. Também aqui há autoestradas para o céu dos sonhos. Agnese e Roberta vieram de Itália conhecer a universidade. "Fiquei muito bem impressionada com tudo: ginásio, zonas verdes, as residências são modernas, os poucos professores que conheci foram muito inspiradores", diz Roberta de 18 anos, que quer estudar Design. Está preocupada com o referendo mas Agnese, que quer estudar Inglês e traz uma t-shirt com uma frase de Oscar Wilde - "Algumas coisas são preciosas porque não duram muito tempo" - está triste por antecipação: "Mesmo que eles decidam sair e continuar a aceitar estudantes, as propinas podem subir e mesmo que eles fiquem por uma margem pequena, aqui no campus não vou ter grandes problemas. Mas será que a atmosfera do país vai mudar? Será que nos vamos sentir bem-vindos?".

George Black, que é inglês, tem 21 anos e estuda Design tinha acabado de votar quando o Expresso o encontrou. "Queria ter votado 20 vezes. Fico tão frustrado que as pessoas não saibam o que a Europa fez por este país. Em Manchester por exemplo, é só placas a anunciar investimento europeu, desde reabilitação de edifícios históricos até construção de raiz, muita na área da cultura e da proteção ambiental, que o governo deixou para trás. Sempre fui impecavelmente recebido na Europa. Que o meu país possa estar a escolher - e repete escolher - fechar-se sobre si mesmo deixa-me muito triste em relação ao futuro."