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“Só querem é sair, e o resto resolve-se a seguir”

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Geraint Davies é o cabeça da campanha Remain, que defende a permanência na UE

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No País de Gales, Geraint Davies, o líder da campanha Remain, critica a falta de um verdadeiro plano para o que fazer no caso de o país votar amanhã pelo 'Brexit'

Luís M. Faria

no País de Gales

Jornalista

Uma nação pequena, ao lado de um vizinho bastante maior. Assim é o País de Gales, na sua relação com a Inglaterra. Historicamente, desde o século XVI que não se põe a questão da independência, mas os habitantes de Gales há muito se sentem menorizados — e até discriminados, mesmo em comparação com outras partes do Reino Unido, como a Escócia.

Com apenas 3 milhões de pessoas — 5% da população — esta zona cronicamente pobre viu na adesão à Comunidade Europeia, mais tarde UE, uma oportunidade para estabelecer conexões para além da Inglaterra e afirmar a sua identidade. E resultou, pois Gales evoluiu imensamente, não só em infraestruturas como em numerosos outros aspetos. Geraint Davies, um veterano jornalista da BBC que se tornou chair de instituições importantes, incluindo a Welsh National Opera, é o cabeça da campanha Remain, que defende a permanência na UE. O Expresso entrevistou-o em Cardiff.

No momento em que falamos, as sondagens estão muito longe de dar garantias a quem defende que o Reino Unido permaneça da UE. Se o voto for pela saída, quais serão as consequências imediatas?
A principal será o início de um longo período de incerteza. Isso de certeza afetará o investimento. Já temos problemas suficientes na economia europeia e não precisamos de acrescentar mais. Vai ser muito difícil. Mesmo pessoas do lado do Leave reconhecem que antes de 2019, 2020 não teremos clareza sobre os novos acordos comerciais. É um período muito longo. Estamos numa situação em que o investimento aqui já baixou bastante, devido à incerteza com o referendo, e isso vai prolongar-se.

Será concebível que os anteriores arranjos em matéria comercial de alguma forma se mantenham, mas sem o livre movimento de pessoas e outras coisas a que os partidários da saída objetam?
Esta é a dificuldade. Em primeiro lugar, deixe-me dizer que o referendo pode ser ganho, e acho que conseguiremos. Mas se não acontecer, haverá um grau de turbulência política. Embora o primeiro-ministro diga que vai permanecer no lugar, isso pode revelar-se mais difícil do que ele pensa. E teria de haver um período em que o Governo começaria a elaborar a sua estratégia negocial. Quais seriam os objetivos. Pois uma das dificuldades com este referendo é que não há um plano alternativo consensual. Ouvimos falar da Noruega, da Suíça, da Albânia — embora o presidente da Albânia não pense que seja boa ideia... Outras pessoas dizem simplesmente que não estão interessadas no mercado único, faremos os nossos próprios acordos.

Leanne Wood, líder do Plaid Cymru (nacionalista) e o First Minister Carwin Jones (trabalhista) numa homenagem à seleção de Gales

Leanne Wood, líder do Plaid Cymru (nacionalista) e o First Minister Carwin Jones (trabalhista) numa homenagem à seleção de Gales

FOTO GERAINT DAVIES

Ninguém diz como vai ser.
Não, ninguém diz. Só querem sair, e o resto revolve-se a seguir, de alguma forma. Mas isso significa que terá de haver um longo debate sobre quais serão os objetivos negociais. O que é que queremos exatamente. Porque se o que queremos é acesso pleno ao mercado único, certas condições aplicar-se-ão. Se preferirmos antes fiar-nos na Organização Mundial de Comércio, é uma perspetiva bastante insegura.

Qual foi o fator principal que deu tração ao Leave durante os últimos meses, ou o último ano?
Acho que a emigração foi um verdadeiro problema. Não há dúvidas sobre isso. Pode-se ver isso até na estrutura do debate da noite passada. Havia apenas três secções: economia, emigração e a questão democrática. Pessoalmente, não tenho dúvidas de que o argumento económico foi ganho. O argumento da emigração permitiu gerar uma data de emoção, e, falando com franqueza, jogar com os piores instintos. Do lado do Leave, há pessoas para quem ele não é a questão chave, mas usaram-na. E há aliados deles — em particular, o UKIP (o United Kingdom Independence Party, anti-europeu) — que são algo um bocado mais negro.

Quando diz que para alguns dos outros isso não é a questão chave...
Para algumas pessoas do lado Leave, trata-se de recuperar o controlo democrático, a soberania. Acho que é uma visão bastante desatualizada. Se virmos como chegámos à nossa presente posição, desde logo, percebemos que houve décadas de distorções sobre a União Europeia, perpetuação de todo o tipo de mitos sobre a Europa. E de certa forma, políticos que são a favor da nossa ligação europeia foram demasiado discretos a esse respeito. No Partido Conservador houve uma tendência excessiva para contemporizar. E assim chegámos ao referendo. Foi um longo processo de cedências à ala conservadora do partido.

Também houve o azar do timing. Quando Cameron anunciou que ele ia ter lugar, ainda não tinha começado a grande crise dos refugiados.
Não. Mas a verdade é que, durante todo este debate, quase não se ouviu uma referência aos efeitos do crash financeiro de 2008. Foi como se a situação fosse normal. Falava-se do desemprego no sul da Europa como se não tivesse nada a ver com a crise financeira.

Como se a culpa fosse da emigração.
Sim. Numa boa parte da imprensa britânica, não se dá crédito à UE por nada, e culpa-se a UE de tudo. É uma imagem escandalosamente errada.

E é assim porquê?
Ah (suspiro). Acho que no Partido Conservador há a ressaca dos tempos do império, a nostalgia... Hugo Young (um jornalista do “Guardian”, já falecido) escreveu sobre a doença britânica do irrealismo. Uma das suas observações foi que, enquanto os membros originais da União Europeia viram como uma grande vitória a sua criação depois da guerra, a Grã-Bretanha viu a sua adesão como uma derrota. A sua economia estava numa confusão, e precisava da Europa para sair da confusão. É tão triste, essa ênfase na nação-ilha, numa era de viagens de avião baratas, internet, o túnel do canal da Mancha.

FOTO DAVID ROGERS/ALLSPORT

Porque que é que os políticos e comentadores britânicos, de modo geral, se têm mostrado tão relutantes a defender a Europa?
Em geral, se há uma crítica que se pode fazer à Europa, é que não se tem envolvido suficientemente com as pessoas. Talvez seja diferente em França ou na Alemanha. Aqui, quase não há cobertura do funcionamento do Parlamento Europeu, por exemplo. Talvez seja por esse funcionamento ser com frequência técnico, pormenorizado. E talvez o próprio parlamento preciso de olhar para o modo como funciona, para estabelecer uma relação com as pessoas. Se este referendo for ganho amanhã e ficarmos na Europa, terá uma agenda realmente grande para a mudança. Donald Tusk tem-no dito: depois de uma escapada tão à justa como esta, não se pode continuar como até aqui. Uma data de coisas terão de ser consideradas. Gordon Brown sugeriu, por exemplo, a criação de um fundo europeu para apoiar países onde haja pressões migratórias. E muito mais. As reformas de Cameron são boas em si mesmas, mas há razões para defender reformas bastante mais radicais. Contudo, só pode fazer isso quem é um membro de pleno direito.