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Independência, desistência, permanência... vota-se já quinta-feira

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Stefan Rousseau / Reuters

No último dia de campanha, e com as sondagens a sugerir que está tudo em aberto quanto à saída ou permanência do Reino Unido na UE, esgrimem-se argumentos para conquistar os indecisos

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

enviado a Londres

O último dia da campanha para o referendo à União Europeia amanheceu cinzento e frio em Londres, a contrastar com o clima estival do início da semana. Amanhã, dia da votação, prevê-se muita chuva, o que não é um dado irrelevante se tivermos em conta que a mobilização – quantos vão votar e quem são – vai determinar o resultado da consulta. Até lá, as duas fações vão esgotando argumentos. As sondagens da última semana tender a favorecer a permanência (com valores que vão dos 44 aos 53%) sobre o Brexit/saída (42 a 46%), mas não são conclusivas.

“Poderá ser o dia da independência do nosso país”, afirmou ontem à noite, num debate televisivo – com tres figuras de cada lado –, o antigo presidente da Câmara de Londres, Boris Johnson. Para o agora deputado conservador (e eterno putativo candidato à liderança do partido e do Governo ), estão em liça no referendo de amanhã os que “só falaram de medo e nós, que temos esperança”.

Estas palavras foram contrariadas pelo homem que comanda hoje a capital britânica, o trabalhista Sadiq Khan, no mesmo debate. A seu ver, onde Johnson fala de independência devia ler-se desistência. “Ficamos e lutamos, não desistimos. Porque é que és um desistente?”, atirou Khan ao seu antecessor. A mesma palavra fora usada, há dois dias, pelo primeiro-ministro David Cameron.

Cameron diz que não se demite se perder

Já esta manhã, em entrevista radiofónica à BBC, Cameron defendeu os resultados da renegociação que realizou com os 28 em fevereiro, e que os apoiantes do Brexit consideram insuficientes. “Estávamos em risco de ser arrastados para os resgates do euro… não tínhamos garantia [de não o ser] e agora isso está garantido”. Assegurar que os Estados-membros que não adotaram a moeda única não possam ser penalizados por decisões dos demais foi uma das suas grandes preocupações.

Cameron também realçou que os imigrantes terão de trabalhar quatro anos no Reino Unido para terem direito a benefícios sociais no seu todo (o governante queria que só ao fim de quatro anos começassem a receber, mas acabou por aceitar que as prestações crescessem progressivamente). “Não resolveremos a questão da imigração saindo da UE, mas criaremos um enorme problema para a nossa economia”, alertou, para recordar, triunfante: “No debate de ontem à noite, a campanha pela saída admitiu que demoraríamos 10 anos a negociar um acordo comercial”. Hoje, dentro do mercado único mas com exceções conseguidas ao longo dos anos (desde o cheque britânico de Margaret Thatcher, ainda em vigor), o primeiro-ministro não hesita: “É inegável que temos o melhor de dois mundos”.

Embora muitos considerem que uma derrota no referendo obrigaria Cameron a demitir-se, o governante afirmou na entrevista de hoje que o que fará, na sexta-feira, se tiver perdido, é “aceitar as instruções do povo britânico e trabalhar para as pôr em prática”.

Medo, esperança, ódio

No debate de ontem, Khan teve uma aliada preciosa em Ruth Davidson, líder dos conservadores na Escócia, que hoje assina um manifesto inédito com os líderes dos cinco maiores partidos escoceses – Partido Nacional Escocês (independentista), Trabalhista, Conservador, Liberal e Verde – e os cinco ex-primeiros-ministros vivos da Escócia a favor da permanência. Davidson atacou Johnson, seu companheiro de partido e figura de proa dos que querem o Brexit: “Quando lhe perguntaram se as pessoas iam perder empregos [em caso de saída da UE], Johnson disse que podiam perder ou não”. Isto porque o ex-autarca qualificou a UE de “máquina de destruir empregos”. “Vê-se em toda a Europa do Sul”, acrescentou.

Rejeitando o rótulo “Projeto Medo” que os eurocéticos têm tentado colar aos que querem ficar na União, Davidson recordou que são inúmeros os peritos a defender a permanência. Hoje, 1300 empresas declararam-se pela permanência. Há dias, dezenas de economistas, incluindo dez prémios Nobel, fizeram igual apelo, tal como um grupo de cientistas liderado pelo físico Stephen Hawking e por Tim Berners-Lee, criador da Internet.

Os adeptos do Brexit dizem ser “esperança” onde os adversários são “medo”. “Disseram-nos que iam apresentar um caso positivo e patriótico, mas voltaram ao ‘Projeto Medo’ aos 20 minutos de debate”, criticou Johnson. Khan corrigiu-os: a seu ver, o que há é um “Projeto Ódio” por parte dos eurocéticos, “desesperados” ao ver as sondagens virar a favor da pertença à UE. Ódio, entenda-se, aos imigrantes, combinado com a “grande mentira” de que a Turquia aderirá em breve à Europa dos 28. Em todo o caso, o Reino Unido teria (como qualquer outro país) direito de vetar tal adesão.

Desespero parece ser, de facto, o que guia alguns políticos britânicos. Ontem o ministro da Justiça, Michael Gove, adepto do Brexit, reagiu à catadupa de especialistas de várias áreas que apoiam a permanência dizendo que também nos anos 30, na Alemanha nazi, “100 cientistas foram pagos pelo Governo [de Adolf Hitler] para dizer que Einstein não tinha razão”. O Führer tem sido presença assídua no discurso do Brexit. Há semanas, Johnson comparou a UE a um superestado destinado a realizar a visão de Hitler para a Europa.

Aproveitando estes deslizes e para não serem vistos apenas como velhos do Restelo, os apoiantes da permanência do Reino Unido na UE têm procurado nos últimos dias um tom mais positivo, sublinhando o papel importante que Londres tem na Europa. A ideia é contrabalançar o apelo emotivo do lado do Brexit, que enaltece os dias do império britânico e acusa os europeístas de não acreditarem nas capacidades dos seus concidadãos. Para Cameron, porém, trata-se de não perder influência no maior bloco económico do mundo: “O Reino Unido não pode saltar do avião e depois voltar a trepar para o cockpit”, disse esta manhã, na rádio.