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“Amaremos como Jo Cox”, promete Malala Yousafzai

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Brendan Cox, o viúvo da deputada assassinada

TOBY MELVILLE/REUTERS

Aniversário da deputada assassinada na semana passada foi festejado por milhares em Inglaterra e não só. Reportagem na capital britânica, onde intervieram Malala, Bono, Lilly Allen e Gillian Anderson, entre outros

Pedro Cordeiro, enviado a Londres

"Os extremistas falharam de novo", afirmou Malala Yousafzai perante milhares de pessoas reunidas na praça de Trafalgar, no coração de Londres. A ativista paquistanesa pelos direitos das mulheres, prémio Nobel da Paz em 2014, encerrou a cerimónia, esta tarde, na capital britânica. Festejos semelhantes desenrolarem-se em Batney, terra de Jo Cox (no norte do país) e noutras localidades.

"É importante trazer aqui o meu filho", diz ao Expresso Phillip Rundell, que se faz acompanhar pela mulher e um bebé de cerca de um ano. "Podia ter sido qualquer família." A seu ver, o assassínio da deputada, no dia 16, deve "calar os interesses egoístas eal fazer-nos ultrapassar as divisões que o país tem vivido, e que os media
ampliam".

Refere-se à dura campanha para o referendo de amanhã, a que também aludiu, na cerimónia, o viúvo de Jo, Brendan Cox, presente com o filho Cuillin e a filha Lejla. "Jo estaria aqui para vos dizer que o Reino Unido é mais forte dentro [da União Europeia], afirmou, recordando que a mulher "odiava muros e as dinâmicas que eles desencadeiam". Brendan Cox assegurou que Jo queria "tornar o mundo melhor" e que esse desejo não vinha "das bibliotecas de Cambridge" mas do amor ao próximo que sempre a guiou.

"A morte de Jo foi política", sentenciou o viúvo, emocionado. A ironia, porém, "é que um ato cheio de ódio gerou amor", prosseguiu. O fundo criado em nome da deputada para apoiar as suas causas mais queridas, como a ajuda aos refugiados, angariou mais de um milhão de libras (1,25 milhões de euros) em menos de uma semana.

Música, poesia e lágrimas

"Jo era humana, não era um colosso que percorresse o mundo sem esforço", afirmou Brendan Cox. "Era uma leitora ávida, uma escaladora de montanhas mas, acima de tudo, uma mãe", disse. Pouco depois, o coro da escola do seu filho mais velho cantou "If I had a hammer", do músico e ativista político Pete Seeger, arrancando lágrimas a muitos dos presentes. Estes eram várias vezes mais do que os do comício pró-Europa de ontem, no mesmo local.

As atuações musicais durante a cerimónia incluíram Lilly Allen (com a canção "Somewhere only we know", que a família Cox costumava entoar no carro em férias), Bono ("Ordinary Love", em vídeo) e atores do musical "Os Miseráveis" (Do you year the people sing?"), além da banda Didleedee, com quem a desaparecida chegou a cantar.

TOBY MELVILLE/REUTERS

A atriz Gillian Anderson (a agente Scully de "Ficheiros Secretos") declamou um poema escrito na sequência dos atentados de Bruxelas em março passado, com o título "Defenderei o amor".

O ator Bill Nighy ("Piratas das Caraíbas" e "Harry Potter") leu um excerto de um discurso de Robert Kennedy: “De cada vez que um homem se ergue em nome de um ideal, ou age para melhorar a sorte dos demais, ou se insurge contra a injustiça, emite uma minúscula réstia de esperança e esta cruza-se com outras de um milhão de centros de energia e audácia. Essas réstias constroem uma corrente quenpode varrer os mais poderosos muros de opressão e resistência".

Aniversário duplo

Cox também foi homenageada pelos capacetes brancos da Síria, organização voluntária de busca e salvamento que ajuda vítimas da guerra civil naquele país, e com quem a deputada colaborava. Um capacete branco, em sua honra, juntou-se, no palco, a 42 rosas brancas (símbolo da região de Yorkshire, onde fica Batley, e em número igual aos anos Qué a deputada teria feito), colocadas por representantes das fés cristã (católica e anglicana), hindu, muçulmana e judaica.

Numa coincidência insólita, 22 de junho é também o aniversário de Bernard Kenny, o homem que na fatídica quinta-feira passada tentou salvar a vida de Cox, tendo acabado apunhalado. Voltou ontem para casa, após internamento, e os seus 78 anos também foram celebrados em Trafalgar Square.

De Batley, a irmã de Cox, Kim Leadbeater, apelou a que se seguisse o seu exemplo, "não com mudanças radicais mas com gestos do quotidiano, preocupando-nos com o que afeta os outros, fazendo por conhecer as pessoas antes de as julgar". Na assistência, viam-se cartazes com inscrições como #LoveLikeJo (amar como Jo) #MoreInCommon (mais em comum, menção ao primeiro discurso de Cox no Palramento, em 2015, no qual afirmou: "Ao andar pelo meu círculo eleitoral verifico que é muito mais o que temos em comum do que o que nos separa".

"Via humanidade em todos", concluiu Malala Yousafzai, para quem Jo Cox era uma "sufragista dos tempos modernos". Dizendo-se "pequena de estatura", como Cox (que, segundo o marido, não tinha o metro e meio que a imprensa lhe atribuiu mas "um e cinquenta e dois nos dias bons"), a paquistanesa, baleada por extremistas em 2012, no seu país, devido aos ideais que defende, assegurou que "a tragédia não apaga o que Jo fez". Até porque, promete, "viveremos como Jo e amaremos como Jo".