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Reino Unido. “Mãe, estão aqui mil pessoas a pedir para votares para ficar!”

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Num comício improvisado em Londres, os partidários da União Europeia afirmaram a sua confiança em relação ao referendo de quinta-feira

Ana França

Ana França

Correspondente em Londres

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Enviado a Londres

"Mãe, estão aqui mil pessoas a pedir para votares para ficar!" Foi um momento no mínimo original no comício desta noite em Trafalgar Square, no centro de Londres, a favor da permanência do Reino Unido na União Europeia. Tendo pedido a cada um dos presentes que telefonasse, ali e naquele momento, a um parente ou amigo indeciso para o convencer a votar "remain" (ficar), uma das organizadoras do comício resolveu exemplificar em palco.

Não seriam exatamente mil pessoas. A estimativa do Expresso fica pelas 500, no máximo. Mas não faltou convicção a quem interveio e assistiu a esta iniciativa da esquerda europeísta. Havia trabalhistas, verdes, gente sem partido, mas não se via um único conservador, apesar de o primeiro-ministro, David Cameron, ser a cara do sim à UE.

"É óbvio que estou confiante. Vamos ganhar", afirmou ao Expresso o deputado trabalhista Ed Miliband, antigo líder do seu partido. Reconhece que este último podia ter tido um papel mais ativo na campanha, mas crê que "encontrou uma voz que permitiu esclarecer as pessoas".

Timidez trabalhista

O Partido Trabalhista tem sido criticado por excessiva contenção no referendo. A grande maioria dos seus militantes é pela permanência, mas também há quem seja contra e o próprio sucessor de Miliband na liderança, Jeremy Corbyn, vota para ficar mas dificilmente pode ser considerado entusiasta da UE.

"A questão é que devem ser as pessoas a fazer ouvir a sua voz, não os políticos a ditar lá de cima", justifica Molly, ativista da tendência trabalhista Momentum (na ala esquerda do partido, formada sobretudo por jovens para para eleger como líder o septuagenário Corbyn). E acrescenta que "também entre os que vão votar pela saída, muitos fazem-no porque querem que a voz do povo seja ouvida".

A isso mesmo aludiu, no comício, Jonathan Bartley, atual candidato a líder dos Verdes britânicos. "Precisamos de arrumar a casa aqui no Reino Unido para termos legitimidade para exigir mais democracia à Europa", afirmou. A seu ver, "não foi nenhum compromisso internacional nem nenhum tratado europeu que roubou direitos aos britânicos nos últimos anos". Foi o Governo conservador, acusa. Fora da UE, à direita podia fazer muito pior, conclui.

Sensação de viragem

Para Bartley, a escolha é entre "um país de mentalidade pequena e porta fechada ou um país que se orgulha de trabalhar com outros por um mundo melhor". A ouvi-lo estava o casal Jason e Rowena. Ele, de autocolantes a dizer "In" colados no rosto, prevê uma vitória dos europeístas por 52-48%. "Vejam toda esta alegria!", exclama.

Prognóstico diferente tem Kenny Given, escocês de 35 anos que escreveu a giz, no chão da praça, um manifesto a favor do Brexit (saída). "A UE é antidemocrática, dominada por comissários não-eleitos. Só serve a banca e as empresas", explica. Prevê um triunfo dos eurocéticos por 53% e diz que isso seria importante porque "este país, com 65 milhões de habitantes, não consegue absorver todos os imigrantes que um bloco de 500 milhões nos quer impor".

A giz de várias cores escreveram também os europeístas, nas escadas de Trafalgar Square, as suas esperanças, medos e desejos." Os nacionalismos não são parte do passado", "união é sempre melhor que divisão", "ao que chamas burocracia eu chamo proteção ambiental", "as fronteiras afastam o que história uniu".

O medo de ser mandado embora

Londres uniu Alexander e Adrjana, ele polaco, ela eslovena. Ela embrulha-se na bandeira do país dele e ele na da União Europeia "porque não é fácil encontrar uma bandeira eslovena". Ele está cá há cinco anos, conduz uma carrinha de entregas de electrodomésticos e é músico numa banda de folk irlandês, ela foi com os amigos a um bar onde por acaso ele estava a tocar. O resto é história que as fronteiras não afastaram.

"Trabalho num restaurante italiano, completei o décimo segundo ano e vim para aqui. Estou cá há cinco meses, são precisos cinco anos para pedir residência permanente, o que é eu vou fazer?", pergunta Adrijana, que tem 19 anos. Não é para nós que olha, é para Alexander.

"Já cá estou há cinco anos, mas nunca pensei em pedir um passaporte, não era preciso, ninguém poderia prever isto, e agora, se eles saírem e eu pedir um visto, será que um condutor/músico é essencial para o crescimento da economia? Mas voltamos os dois para a Polónia ou os dois para a Eslovénia, com uma vida necessariamente menos confortável mas juntos".

Uma questão que atormenta muitos dos imigrantes com que o Expresso falou nas últimas semanas: os requisitos que poderão ser exigidos, num cenário de saída, para que os imigrantes possam permanecer no país: uma das possibilidades é que os novos imigrantes sejam admitidos apenas se a sua profissão for considerada essencial ou em falta. Mas se os europeus forem virem o seu estatuto equiparado aos imigrantes de fora da Europa, há mais consequências: para os estudantes o cenário é
potencialmente trágico: de 9000 libras (quase 12 mil euros) por ano podem passar a pagar o dobro.

Raphaela, que estuda Direito na Queen Mary University e tem 20 anos, tem medo que os ajustes cheguem, mesmo que não imediatamente. "O curso é longo, comecei agora, estudar direito aqui é completamente diferente de estudar em França, é outro sistema, terei necessariamente de exercer aqui. E se não conseguir pagar? E se depois de pagar afinal eles não precisam de advogados? E não é só por mim, é pelos
britânicos, a grande maioria são pessoas muito tolerantes é muito abertas, isto vai prejudicá-los de uma forma que não imaginam, as pessoas vão investir menos aqui, os grandes talentos vão migrar para os países do norte da Europa, a Alemanha, ou mesmo Ásia, a Índia, principalmente o pessoal de informática.

Destinados ao isolamento?

Hannah Clawden, inglesa de 32 anos, que trabalha numa loja de queijos de um casal francês no sul de Londres, no Borough Market, também está preocupada com a perceção que os outros países terão do Reino Unido, se este optar pela saída: "Quebrar o laço com a União Europeia é andar para trás, é escolher o isolamento, escolher sair de um grupo de países que se uniu para manter a paz, haverá necessariamente animosidades e isso é o embrião de conflitos. Eu quero que o mundo
continue a pensar que somos tolerantes, inclusivos, que somos bons e recetivos a novos talentos. A campanha pela saída foi toda contra a imigração: não existiu discussão nenhuma sobre os problemas da Europa, que existem, foi tudo de ataque às pessoas que tornaram o país este sítio tão atrativo para investimento que hoje é. Eles construíram as comunidades, construíram negócios, gastam aqui dinheiro e agora podem ir embora? Este não é o meu país". Curiosamente esta é uma frase muito repetida por quem acha que o país mudou de mais.

O que mudou também foi a comunidade portuguesa e as ruas por onde se espalha. Little Portugal. Fernanda Correia viu tudo a acontecer. Tem 45 anos, repara e revende computadores e dá aulas de informática de inglês à comunidade. Está prestes a lançar a Portuguese Business Woman Network, um grupo dedicado à promoção dos sucessos empreendedores no feminino. Vinte e sete desses 45 anos passou-os em Londres. Portugal tinha acabado de se tornar membro da Comunidade Económica Europeia quando ela chegou e Lambeth, e não era a aguarela que é hoje.

"Não havia nada, era um dormitório. Tal como a comunidade portuguesa fez de sul de Londres o que ela é, outras comunidades modernizaram outras áreas. É deprimente pensar que posso acordar no dia 24 e não estar no país que me recebeu. Nunca fui mal tratada mas agora, quem sabe, poderia vir a ser. Londres será o mesmo lugar mas será um lugar estranho".

As sondagens dos últimos dias têm favorecido a causa da Europa, com a do jornal eurocético "The Daily Telegraph" a prever uma vitória dos que querem ficar na UE, por 53-46%. Na contagem decrescente para a ida às urnas, paira no ar uma sensação de viragem pró-UE, como se, ao aproximar-se a votação, os riscos da opção que tudo muda começassem a vir à tona da água.