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Dilma: “Montaram um processo fraudulento para interromper o mandato de uma presidente honesta”

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UESLEI MARCELINO / REUTERS

Em entrevista ao jornal “i”, a chefe de Estado brasileira destituída há quarenta dias critica o presidente interino, Michel Temer, e volta a sublinhar: “Foi um golpe”. “Luto para ser reconduzida à presidência”

Dilma Rousseff, afastada da presidência brasileira, disse ao jornal português i que "há um golpe em curso no Brasil" em virtude de um processo de destituição fraudulento e que luta para recuperar o poder.

"Luto para ser reconduzida à presidência porque não cometi nenhum crime de responsabilidade que justifique meu 'impeachment' (destituição)", disse Dilma Rousseff ao jornal i, no Brasil, acrescentando que, "quando voltar", vai dar sequência ao programa de Governo que apresentou quando foi eleita.

Para a presidente afastada, "o facto é que, nos tempos atuais, a questão democrática articula a questão nacional e a social e não haverá solução de gabinete possível. Isso significa que o caminho de saída deverá ser sempre submetido ao escrutínio do povo brasileiro".

Na longa entrevista publicada esta segunda-feira na edição do jornal i, Dilma Rousseff, afastada há quarenta dias do cargo de chefe de Estado, critica o presidente interino, Michel Temer, e refere-se ao "processo de impedimento" que corre no Brasil, sublinhando que foi alvo de "um golpe".

"Um grupo de políticos acusados por investigações contra a corrupção percebeu que, enquanto eu estivesse à frente da presidência, não conseguiriam impedir o avanço das investigações sobre corrupção", afirma Rousseff, quando questionada sobre as gravações que registaram uma conversa entre Sérgio Monteiro, ex-responsável da empresa Transpetro, e José Sarney, em que o antigo chefe de Estado diz que o erro de Dilma foi "fazer andar" o processo Lava Jato.

Nesse contexto, a presidente afastada do poder diz que há um "golpe" em curso no Brasil. "Montaram um processo fraudulento de 'impeachment' para interromper o mandato de uma presidente honesta, sobre a qual não há qualquer denúncia consistente de irregularidade", insiste.

Dilma Rousseff afirma também que é acusada de ter "editado decretos de crédito suplementares e de ter atrasado repasses ao Banco do Brasil para a execução do Plano Safra", mas que os procedimentos seguiram as regras contidas na lei do Orçamento e que não afetaram o cumprimento da meta fiscal autorizada pelo congresso.

"Não há na acusação qualquer indício de que eu tenha cometido crime de responsabilidade, porque não cometi. Por isso, o 'impeachment' não passa de um golpe, de uma interrupção da normalidade democrática no Brasil", sublinha.

Dilma Rousseff acusa ainda o presidente interino de estar a implementar medidas que não faziam parte do programa eleitoral "que foi derrotado" nas eleições de 2014 e que, por isso, Temer não está a respeitar um dos direitos mais "sagrados" dos cidadãos: escolher pelo voto direto quem governa o país com um determinado programa de Governo.

"Trata-se de uma ação ilegal que dá origem a um Governo ilegal e golpista", insiste.

Na entrevista de quatro páginas, Dilma é questionada sobre as medidas económicas do segundo mandato, sobretudo os ajustamentos fiscais através dos cortes no investimento, que levaram à perda de alguns setores da esquerda política brasileira e, por outro lado, rejeita que a legislação antiterrorismo seja encarada como medida autoritária contra os movimentos sociais no país.

Dilma Rousseff considera também que as sociedades sul-americanas e a brasileira, em particular, têm uma história oligárquica, patriarcal e machista, que apesar das mudanças, ainda é relevante.

"Estar sob a liderança de uma mulher, receber comando de uma mulher, ser dirigido por uma mulher ainda é uma novidade que incomoda e perturba a ordem supostamente natural da sociedade nos nossos países. No caso do Brasil o estranhamento é ainda maior, pois eu fui a primeira mulher a ocupar este cargo", acusa Dilma Rousseff.