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“Ninguém está preparado para ataques de lobos solitários”

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Atiradores como os de Orlando e Paris “muito dificilmente” podem ser detetados a tempo já que as suas ações “são pouco sofisticadas e não requerem grande preparação”

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Impedir um ataque de um lobo solitário, como os desta semana nos EUA e França, é uma missão quase impossível para as autoridades. Sejam estas de Orlando, Paris ou Lisboa. Um alto responsável português do combate ao terrorismo revela que “muito dificilmente” homens como Omar Mateen e Larossi Abballa podem ser detetados a tempo já que as suas ações “são pouco sofisticadas e não requerem grande preparação”. Este homicidas passam despercebidos sobretudo porque para cometer o crime não precisam de grandes quantidades de explosivos ou de munições, ao contrário das células terroristas, mais numerosas.

Travá-los a tempo “só eventualmente durante os atos preparatórios”, frisa esta fonte, que não tem dúvidas: “Os lobos solitários e as células locais são as maiores dores de cabeça para as forças antiterroristas portuguesas e do resto do mundo.”

Este receio é partilhado por Felipe Pathé Duarte, investigador na área da segurança e porta-voz do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT). “Ninguém está preparado para ataques de lobos solitários”.

Este especialista explica que o lobo solitário se caracteriza pelo seu isolamento operacional: são autodidatas e agem por conta própria. “A atuação do Daesh ou Al-Qaeda funciona como ‘guião’ doutrinário e modelo genérico de comportamento, seja pela disseminação propagandística ou pelo mimetismo operacional.” Além disso, acrescenta, é impossível vigiar individualmente “o desespero ou patologias do foro psicossocial, que, na maior parte dos casos, os podem impelir para a violência”.

Paulo Pereira de Almeida, também especialista em terrorismo, acrescenta que há “um misto preocupante de doença mental, desintegração social e religião como pretexto para assassinar em massa”.

Pesca de arrasto ou de arpão?

Na ressaca das facadas em Paris e dos disparos em Orlando, o especialista francês François Heisbourg escreveu um artigo no diário “Le Monde” criticando a estratégia norte-americana de ataque ao terror. Considera errada a tentativa das ‘secretas’ de Obama de vigiar o planeta inteiro (chama-lhe de “pesca de arrasto”) quando deviam centrar os esforços nos suspeitos já identificados (ou seja, “na pesca submarina com arpão”).

Felipe Pathé Duarte não concorda a 100%. “Trava-se uma guerra de carácter subversivo, global e a longo prazo. O terrorismo é apenas uma das suas facetas. Por isso, a estratégia tem de ser dupla — arrasto e arpão. A ideia é o “centro de gravidade” dessa subversão, tornando-a fluida e, por vezes, não dependente de uma estrutura de comando, permitindo que qualquer um atue em nome dela. Para isso, o arrasto não chega. É preciso também arpão.”

Quando a prevenção não funciona, ganha o terror. Nos últimos dois anos, os lobos solitários mataram sobretudo militares e polícias. É a primeira vez que atacam civis da comunidade homossexual e pode não ser a última. Depois do ataque em Orlando, a propaganda do Daesh incitou outros lobos solitários espalhados pelo mundo a fazer ataques a paradas gay (a mais famosa, a de Berlim, realiza-se no final deste mês e pode reunir um milhão de pessoas).

O porta-voz do OSCOT salienta que o que se passou na noite de domingo na discoteca Pulse se tratou de um atentado terrorista e também de um ataque à comunidade LGBT, que representa “valores absolutamente antagónicos aos proferidos pelo jiadismo”. E não vê muitas diferenças entre o que aconteceu em Orlando e a matança de Anders Breivik em 2011 na Noruega ou os tiroteios em escolas nos EUA. “O que impele os seus autores não é muito diferente, não obstante as narrativas justificadoras posteriores”.