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Grimmie, Lennon, Versace: ninguém sabe explicar uma coisa destas

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HOMENAGEM. Centenas de fãs, familiares e amigos juntaram-se segunda-feira numa vigília em Orlando, na Flórida, para homenagear a jovem estrela Christina Grimmie, assassinada em público precisamente há uma semana

Brian Killian/getty images

É uma história de terror e faz agora precisamente uma semana: a cantora Christina Grimmie, de apenas 22 anos, perdeu a vida às mãos de um homem obcecado que dizia querer casar com ela sem sequer a conhecer. Há novos detalhes que acabam de ser divulgados - por exemplo, sabe-se que o assassino fez cirurgias plásticas para tentar conquistar a artista. A indústria da música (e não só) está de luto (Adam Levine: “fico chocado com a forma como isto continua a acontecer no nosso mundo”), mas não é a primeira vez que o inexplicável acontece - John Lennon, Gianni Versace...

Ninguém sabe explicar uma coisa destas. Faltavam poucas horas para mais um concerto e Christina Grimmie, cantora de apenas 22 anos, apelava nas redes sociais com vídeos bem-humorados para que os seus fãs aparecessem no Plaza Live Theater, em Orlando, Flórida. O concerto chegou a acontecer, bem como o encontro com fãs à saída do local. E de repente chegaram os tiros.

No primeiro momento, as 120 pessoas que ali se encontravam à espera de um autógrafo da cantora não perceberam que um indivíduo armado com duas armas de fogo e uma faca de caça atirava contra Christina, tendo atingido alguns dos fãs que ali se encontravam. O irmão da cantora, Marcus, acabou por imobilizar o assassino, que só conseguiu fazer duas mortes: a sua e a de Christina. No dia a seguir, o mundo não podia acreditar no que tinha acontecido.

“Ele tinha planos para voltar para casa” depois do homicídio que planeara, revelou entretanto a polícia de Orlando, que continua a revistar os bens pessoais, telemóveis e computadores do suspeito à procura de um motivo. Segundo informações adiantadas pelo website TMZ esta sexta-feira, a explicação pode ser tão simples quanto cruel: Kevin James Loibl, de 27 anos, terá viajado de propósito da sua cidade natal de São Petersburgo, Flórida, para Orlando com o objetivo de matar a mulher por quem estava obcecado.

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KEVIN JAMES LOIBL Foto divulgada pelo polícia de Orlando

KEVIN JAMES LOIBL Foto divulgada pelo polícia de Orlando

FOTO ORLANDO POLICE / EPA

Citando antigos colegas de trabalho da Best Buy, uma loja de aparelhos eletrónicos, o TMZ adianta que o assassino estaria numa espécie de missão para conquistar a cantora, que incluíra já cirurgias plásticas, uma dieta vegana para perder peso e vários transplantes capilares - tudo com o objetivo de se tornar mais atraente e, finalmente, “torná-la sua mulher”. O próprio terá garantido aos colegas de trabalho que no início deste ano chegou a assistir a um concerto de Christina e a conhecer a cantora, tendo depois jogado jogos online com ela - uma informação que fonte próxima da cantora desmente, garantindo que Christina não conhecia o assassino. Os mesmos colegas garantem que chegaram a provocar Loibl lembrando que Christina já tinha namorado - o seu produtor -, o que terá enraivecido o jovem e que poderá ter acelerado a decisão de voar até Orlando para atacar Christina.

“Christina era mais do que a minha irmã. Era a minha companheira de vida. Uma estrela. Amiga de todos, genuinamente”, explicou um Marcus destroçado, horas depois da tragédia. As palavras que disse sobre a irmã foram confirmadas por várias celebridades, que recorreram às redes sociais para homenagear Christina. Adam Levine, que foi seu mentor no programa “The Voice”, no qual chegou ao terceiro lugar na final, já se ofereceu para pagar o funeral da jovem cantora, expressando a sua incredulidade: “É mais um ato de extrema violência. Fico chocado com a forma como isto continua a acontecer no nosso mundo”.

CHRISTINA GRIMMIE. Cantora tinha apenas 22 ano

CHRISTINA GRIMMIE. Cantora tinha apenas 22 ano

epa

Três teorias: um maníaco, um caso amoroso ou dívidas à máfia

O caso de Christina, assassinado em público, não é único no mundo da arte e das celebridades. Em 1997, os noticiários abriam com um relato misterioso e sangrento: o famoso estilista Gianni Versace, um dos mais aclamados da moda italiana, fora alvejado aos 50 anos fora da sua casa de South Beach, em Miami, tendo morrido de imediato.

A descrição da cena era sangrenta: um indivíduo tinha-se aproximado da vivenda perto das 09h de 15 de julho de 1997, aproveitando a altura em que Gianni abria o portão da casa para disparar dois tiros - que o atingiram na cabeça, quando estava de costas. Na altura, os motivos para o homicídio não eram claros, mas o “The Guardian” escrevia que havia “três teorias: homicídio por um maníaco obsessivo e ciumento, uma morte encomendada por causa de um caso amoroso ou de uma relação profissional que correu mal - ou a máfia ou outra organização criminosa”.

A forma como o homicídio ocorreu - os tiros cravados na nuca, o facto de o assassino, Andrew Cunanan, ter feito outras quatro vítimas mortais desde abril desse ano e de se ter matado num barco perto da vivenda de Gianni antes de que a polícia chegasse - terão guiado a polícia a acreditar na hipótese da máfia. Uma ideia reforçada em 2010 pelo livro lançado por Giuseppe di Bello, antigo membro da máfia e informador da polícia italiana, que contava que o estilista teria sido morto por “dívidas” ao padrinho e que o seu negócio estaria a ser usado pela máfia para lavar dinheiro sujo.

MORTE PRECOCE. O estilista Gianni Versace morre assassinado à porta de casa aos 50 anos. Na fotografia, acompanhado por uma das suas musas, a top model Naomi Campbell

MORTE PRECOCE. O estilista Gianni Versace morre assassinado à porta de casa aos 50 anos. Na fotografia, acompanhado por uma das suas musas, a top model Naomi Campbell

THOMAS COEX/AFP/GETTY IMAGES

Os pormenores sobre o caso de Versace roçam o inacreditável - segundo um informador citado pelo “Telegraph”, a máfia estaria mesmo a planear roubar as cinzas do estilista do cemitério perto do Lago di Cuomo, ideia que não chegou a executar. Na altura, fonte do departamento antimáfia de Roma confirmou que as informações fornecidas por di Bello eram “sempre corretas”, mas a família de Gianni Versace negou as “declarações falsas e vergonhosas” e encarregou a irmã Donatella de se ocupar do negócio da família.

O ícone da paz que morreu em nome de nada

Talvez ainda mais difícil de entender seja a história de Mark David Chapman, o homem que um dia, depois de ler o clássico “Catcher in the Rye”, de R. D. Salinger, decidiu matar um dos maiores ícones de sempre, deixando o mundo inconsolável. A cronologia dota a situação de contornos mais mórbidos: a 6 de dezembro de 1980, Chapman dirigiu-se a uma loja de discos nova-iorquina para comprar o mais recente álbum de John Lennon a solo, “Double Fantasy”. Dois dias depois, pelas 17h, o fã de Lennon dirigiu-se à porta do seu apartamento do Central Park, o famoso edifício Dakota, para pedir ao ex-Beatle que assinasse o exemplar. Lennon deu o autógrafo, bem-disposto.

22h50 do mesmo dia. John Lennon e a companheira, Yoko Ono, voltavam de uma sessão de gravações em estúdio - nesse mesmo dia tinham fotografado com Annie Leibovitz a famosa imagem em que ele está nu e ela vestida da cabeça aos pés, e que sairia apenas na “Rolling Stone” de 22 de janeiro de 1981. Ao saírem do carro e dirigirem-se a pé para a entrada do prédio, Chapman disparou quatro balas, atingindo o músico nas costas e no ombro. John Lennon morreu dali a menos de uma hora; quando chegou ao hospital mais próximo, o Roosevelt Hospital de Nova Iorque, já não respirava.

ARREPENDIMENTO O assassino de Lennon, agora com 61 anos, continua preso em Nova Iorque e diz-se arrependido

ARREPENDIMENTO O assassino de Lennon, agora com 61 anos, continua preso em Nova Iorque e diz-se arrependido

FOTO NYC PD/AFP/GETTY IMAGES

O que é que leva um homem a privar o mundo de um dos seus ícones mais marcantes?, perguntava-se toda a gente no dia seguinte. A explicação de Chapman era simples: queria chamar a atenção e Lennon era “muito famoso”. Imediatamente preso, nos anos seguintes o assassino explicou em audiências no tribunal que a sorte de Lennon poderia ter calhado a figuras como Marlon Brando ou Johnny Carson - “se ele não fosse o mais famoso da lista, não teria morrido”.

Chapman foi colocado atrás das grades quando era um jovem de 27 anos e hoje continua no Wendy Correctional Center de Nova Iorque, aos 61 anos. A sua saída em liberdade condicional já foi negada por oito vezes, apesar de o assassino se mostrar arrependido: “Lamento ter sido um idiota e escolhido o caminho errado para a glória”, dizia na audiência mais recente, em 2014. Talvez não fosse seguro para si estar em liberdade: as ameaças são muitas e o mundo teve tal dificuldade em lidar com o desgosto que a “Time” conta que depois da morte de Lennon, uma adolescente da Flórida e um homem de 30 anos do Utah cometeram suicídio por não conseguirem ultrapassar a depressão da morte do seu ídolo.

MEMORIAL O famoso memorial Imagine, situado no Central Park de Nova Iorque, perto do lugar onde o artista foi assassinado, continua a ser enfeitado com flores que os fãs levam

MEMORIAL O famoso memorial Imagine, situado no Central Park de Nova Iorque, perto do lugar onde o artista foi assassinado, continua a ser enfeitado com flores que os fãs levam

ANDREW BURTON/GETTY IMAGES

John Lennon era mais do que um ídolo, do que um músico ou um Beatle - o single de maior sucesso do seu último álbum “Double Fantasy”, “(Just Like) Starting Over”, marcava um regresso à música adiado por cinco anos, desde o nascimento do filho Sean em 1975, e toda a gente esperava mais dele. O crítico da “Time” Jay Cook escrevia em 1980, enquanto os fãs se despediam e se lançavam as bases para o memorial “Imagine”, que continua no Central Park de Nova Iorque, rodeado de flores: “Para toda a gente que acarinhava o mito dos Beatles, esta morte foi algo diferente. Foi o homicídio de algo que não pode ser explicado. Da esperança, talvez, ou do idealismo. O tempo. Não apenas perdido, mas deslocado, fraturado”.