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Morte de deputada foi um “ataque à democracia”

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OLI SCARFF/ Getty Images

A imprensa britânica classifica o crime como “uma afronta profunda” e apontam indiretamente a campanha pelo Brexit como responsável pela morte de Jo Cox

O diário britânico The Guardian considera esta sexta-feira em editorial que o homicídio violento da deputada trabalhista Jo Cox, na quinta-feira, constitui um "ataque à humanidade, idealismo e democracia".

"Qualquer crime mancha o ideal de uma sociedade ordeira, mas quando o crime é cometido contra as pessoas que são escolhidas pacificamente para escrever as regras, então a afronta ainda é mais profunda", sublinha.

O texto refere que a deputada, que defendia uma sociedade multicultural, morreu numa altura em que o discurso político faz referências à xenofobia, mencionando a campanha do referendo à saída britânica da União Europeia ('Brexit') e o cartaz do UKIP contra a imigração revelado na quinta-feira.

"O idealismo de Cox era a antítese desse cinismo brutal", vinca o jornal britânico, apelando à honra da memória de Jo Cox.

Também no 'site' da revista Spectator, Alex Massie alude ao mesmo poster, onde se lê "Breaking Point" (Ponto de Rutura) e uma fila enorme de refugiados.

"Quando se apresenta a política como uma questão de vida ou morte, como uma questão de sobrevivência nacional, não se surpreendam se alguém a leve à letra", avisa, lamentando a retórica das últimas semanas sobre a imigração.

Massie cita testemunhos de locais, que terão ouvido o autor do ataque gritar "Britain First" (Reino Unido primeiro), que é o nome de um movimento de extrema-direita britânico, mas que pode também estar relacionado com a campanha pela saída da UE, à qual a deputada trabalhista se opunha.

"Não, Nigel Farage não é responsável pelo homicídio de Jo Cox. Nem a campanha pela Saída. Mas eles são responsáveis pela forma como forçaram os seus argumentos", acusa.

Já o Daily Telegraph evita fazer a relação entre a atual campanha para o referendo, que entretanto foi suspensa, e o incidente, que qualifica em editorial de "ataque irresponsável à própria democracia".

A função de deputado, que é um representante da população, implica que sejam visíveis e acessíveis e isso "torna-os às vezes vulneráveis", refere, elogiando a coragem dos parlamentares e a dedicação ao serviço público.

Jo Cox foi a primeira deputada a ser morta em mais de 15 anos.

Entre 1979 e 1990, cinco deputados morreram na sequência de atentados bombistas do Exército Republicano Irlandês (IRA).

Mais recentemente, outros dois escaparam a ataques também violentos.

Em 2000, um ajudante do deputado liberal democrata Nigel Jones foi morto durante um ataque com uma espada de samurai por um homem com problemas mentais que foi condenado a prisão por tempo determinado devido ao seu comportamento instável.

Em 2010, o trabalhista Stephen Timms foi apunhalado por uma jovem extremista islâmica durante uma sessão aberta a habitantes do circulo eleitoral. Timms recuperou e continua a ser deputado, enquanto a a atacante, que teria uma lista de deputados que votaram a favor da guerra no Iraque, foi condenada a pelo menos 15 anos de prisão.

Todos os jornais fazem esta sexta-feira primeira página da morte da deputada assassinada na quinta-feira por um homem com uma arma de fogo e uma arma branca.

Vários dos periódicos escolheram para manchete uma frase do depoimento que o marido, Brendan Cox, fez poucas horas após a notícia: "A Jo acreditava num mundo melhor e lutava por isso todos os dias".

Apenas o diário The Times escolheu dar destaque às ameaças de que a deputada estaria a ser vítima há vários meses e aos planos da polícia de reforçar a sua segurança pessoal.