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Médicos Sem Fronteiras deixam de aceitar fundos da União Europeia

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Getty

A decisão surge em protesto pelo acordo feito pela UE com a Turquia, que a ONG diz perverter o conceito de refugiado, abrindo um precedente que poderá vir a bloquear as pessoas nas zonas de guerra

Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciaram esta sexta-feira que vão deixar de aceitar qualquer financiamento da União Europeia (UE), em protesto contra o acordo estabelecido com a Turquia destinado a travar a entrada de migrantes e refugiados no seu território.

“Nós não podemos aceitar fundos da UE ou dos Estados-membros ao mesmo tempo que estes ameaçam as vítimas com as suas políticas! É tão simples quanto isso!”, refere uma mensagem divulgada pela organização humanitária no Tweeter.

O secretário-geral Jerome Oberreit considera que o acordo vai contra os princípios fundamentais do fornecimento de auxílio às pessoas que dele precisam. “Isto compromete o próprio conceito de refugiado”, declarou à agência Reuters.

Através da oferta de auxílio financeiro e outras benesses políticas, nomeadamente a facilitação do processo de entrada dos seus cidadãos na UE, a Turquia acedeu a barrar o fluxo de migrantes e refugiados que atravessavam o seu território para chegarem à Europa.

“O que o acordo UE-Turquia representa hoje é o último desenvolvimento de uma longa linha de políticas que, na verdade, vão contra princípios fundamentais que permitem fornecer assistência às pessoas extremamente necessitadas”, disse Oberreit. “É mesmo importante que se vejam as pessoas reais em lugar do futebol político em que elas foram transformadas”, acrescentou.

O dirigente da MSF considera que o acordo com a Turquia em nada adiantou para resolver as deficiências da política de Bruxelas nesta matéria, simplesmente relegando as obrigações europeias para terceiros. Algo que diz abrir um perigoso precedente que poderá dar lugar a um efeito dominó, com outros países a poderem também virar as costas às suas obrigações: “Claramente, isto envia a mensagem de que fornecer assistência às pessoas obrigadas a abandonarem as suas casas é opcional, que se pode comprar a saída do problema”.

A UE encetou também negociações para acordos semelhantes com outros 16 países, entre os quais a Eritreia, Somália e Afeganistão, quatro das maiores fontes de refugiados. “Potencialmente, significará bloquear as pessoas em zonas de guerra ou em locais onde são alvo de perseguição”, frisou Oberreit.

O Quénia também invocou o acordo UE-Turquia para justificar os seus planos de fechar o maior campo de refugiados do mundo. “Isto envolveria... enviar 330 mil pessoas de volta para a Somália, um país em guerra”, explicou Oberreit.

Os Médicos Sem Fronteiras referem que os seus pacientes não serão afetados pela rejeição do financiamento da UE, pois irão usar os seus fundos de emergência para manter os projetos em curso. Os donatyivos de privados representam 92% do financiamento da organização, que no ano passado recebeu 56 milhões de euros da UE e dos seus Estados-membros.