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Internacional

Ex-guarda nazi condenado a 5 anos de prisão

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Bernd Thissen / Reuters

Um antigo guarda da SS que prestou serviço em Auschwitz foi esta tarde considerado cúmplice pela morte de mais de 170.000 judeus

Luís M. Faria

Jornalista

Um tribunal em Detmold, na Alemanha, condenou esta sexta-feira Reinhold Hanning, um antigo guarda no campo de extermínio de Auschwitz, a cinco anos de prisão efetiva. Admite-se que os seus advogados recorram, e ele deverá permanecer em liberdade pelo menos até à decisão final – e mesmo depois, dado o facto de ter atualmente 94 anos. Em teoria, a pena máxima podia ir até 15 anos, mas os procuradores haviam pedido seis. Hanning não mostrou reação alguma quando a juíza Anke Grudda justificou o veredicto e a sentença. "Você esteve dois anos e meio em Auschwitz”, disse-lhe ela. “Participou em funções importantes e foi parte de uma organização criminal que desempenhou atividade criminal em Auschwitz".

Hanning foi acusado, em particular, pela sua participação na Operação Hungria, que levou à morte de centenas de milhares de pessoas. Entre maio e julho de 1944, 425 mil judeus húngaros foram enviados para Auschwitz. Uns 300 mil terão sido gaseados imediatamente, e muitos dos outros perderam a vida nos meses seguintes. Hanning não participou na matança, nem sequer estava colocado em Birkenau, a parte do campo onde ela acontecia. Apesar disso, os procuradores consideram-no criminoso.

Como geralmente acontece, este tipo de processo não é pacífico. A questão central é saber que culpa se pode atribuir num caso desses a alguém que se limitou às funções secundárias de guarda do campo. Além disso, também tem relevância a idade do acusado na altura dos factos – 21 anos; quando entrou nas SS, em plena guerra, tinha 18. Não menos importante é a sua atual idade, bem como o estado de saúde, que em princípio o protegerão de chegar cumprir pena na cela de uma cadeia.

Todos tinham responsabilidade

Quanto à primeira questão, os tribunais alemães já definiram a sua posição. Tendo em conta que o extermínio acontecia não apenas nas câmaras de gás e nos pelotões de fuzilamento mas também através de fome e dos trabalhos forçados, qualquer pessoa que fosse parte ativa do sistema tinha uma medida de responsabilidade.

Assim foi decidido em 2015 no julgamento de Oskar Gröning, outro nazi idoso a quem chamaram 'o contabilista de Auschwitz', cuja função no campo era separar os pertences dos presos que chegavam ao campo. Gröning, que reconheceu culpa (embora, esclareceu, em termos morais, não legais) foi condenado a 4 anos de cadeia. Recorreu, e a decisão final ainda não foi emitida.

Para várias das testemunhas que foram a tribunal, a questão não se põe. Apelaram a Hanning para que admita a sua responsabilidade, em nome da verdade. Uma mulher que nasceu em Auschwitz foi ao ponto de dizer: "E então, se for uma sentença de morte para ele? Com 94 anos, já não tem esperança de vida. O meu pai foi morto aos 32 anos".

“Sinto vergonha por ter estado presente”

Quando pouca gente o esperava, Hanning fez a seguinte declaração ao tribunal: "Estive em silêncio a vida toda. Quero dizer-vos que lamento profundamente ter pertencido a uma organização criminosa que foi responsável pela morte de vastos números de pessoas, pela destruição de inumeráveis famílias, pela miséria, tortura e sofrimento por parte das vítimas e seus parentes. Sinto vergonha de ter estado presente e ter visto essas injustiças acontecer e não ter feito nada para as evitar".

É possível que o julgamento de Hanning seja o último de um antigo nazi a chegar à sua conclusão. Ainda correm os casos de uma operadora de rádio e de um médico das SS – este último sucessivamente adiado por razões medicas. Em todos eles se tem questionado que sentido faz realizar os julgamentos mais de sete décadas após os alegados crimes, e que resultados é legítimo esperar.