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Internacional

Antigo guarda de Auschwitz conhece hoje a sentença

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BERND THISSEN / EPA

É possível que seja o último julgamento de um nazi a chegar à sua conclusão

Luís M. Faria

Jornalista

Um antigo guarda do campo de extermínio de Auschwitz vai esta sexta-feira conhecer a sua sentença no tribunal de Detmold (Alemanha). Reinhold Hanning é acusado, em especial, pela sua participação na Operação Hungria, que levou à morte de centenas de milhares de pessoas. Entre maio e julho de 1944, 425 mil judeus húngaros foram enviados para Auschwitz. Uns 300 mil terão sido gaseados imediatamente, e muitos dos outros perderam a vida nos meses seguintes. Hanning não participou na matança, nem sequer estava colocado em Birkenau, a parte do campo onde ela acontecia. Apesar disso, os procuradores consideram-no criminoso.

Como geralmente acontece, este tipo de processo não é pacífico. A questão central tem a ver com a medida de culpa que se pode atribuir num caso desses a alguém que se limitou às funções secundárias de guarda do campo. Além disso, também pode ser relevante a idade do acusado na altura dos factos – 21 anos; quando entrou nas SS, em plena guerra, tinha 18 – bem como a sua atual idade e o estado de saúde, que em princípio o protegerão de chegar a passar tempo na cadeia.

Todos tinham responsabilidade

Quanto à primeira questão, os tribunais alemães já definiram a sua posição. Tendo em conta que o extermínio acontecia não apenas nas câmaras de gás e nos pelotões de fuzilamento mas também através de fome e dos trabalhos forçados, qualquer pessoa que fosse parte ativa do sistema tinha uma medida de responsabilidade.

Assim foi decidido em 2015 no julgamento de Oskar Groning, outro nazi idoso a quem chamaram 'o contabilista de Auschwitz', cuja função no campo era separar os pertences dos presos que chegavam ao campo. Groning, que reconheceu culpa (embora, esclareceu, em termos morais, não legais) foi condenado a quatro anos de cadeia. Recorreu e a decisão final ainda não foi emitida.

"E então se for uma sentença de morte?"

Há ainda os casos de uma operadora de rádio e de um médico das SS, este último várias vezes adiado por razões médicas. Em todos se tem questionado que sentido faz realizar-se um julgamento mais de sete décadas após os alegados crimes, e que resultados é legítimo esperar. Testemunhas que foram a tribunal –incluindo uma mulher que nasceu em Auschwitz – apelaram a Hanning para que admita a sua reaponsabilidade ("E então, se for uma sentença de morte para ele? Com 94 anos, já não tem esperança de vida. O meu pai foi morto aos 32 anos").

Quando pouca gente o esperava, Hanning fez a seguinte declaração ao tribunal: "Estive em silêncio a vida toda. Quero dizer-vos que lamento profundamente ter pertencido a uma organização criminosa que foi responsável pela morte de vastos números de pessoas, pela destruição de inumeráveis famílias, pela miséria, tortura e sofrimento por parte das vítimas e seus parentes. Sinto vergonha de ter estado presente e ter visto essas injustiças acontecer e não ter feito nada para as evitar".

O tribunal decidirá.