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Michel Temer “sabia” do esquema de corrupção na Petrobras e lucrou com ele

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EVARISTO SA/ Getty Images

Ex-presidente da Transpetro deu aos investigadores da operação Lava Jato uma nova lista com 20 nomes de políticos que terão recebido subornos da subsidiária da estatal petrolífera brasileira. Presidente interino desmente acusações e garante que sempre respeitou as regras de financiamento de campanhas políticas

O Presidente interino do Brasil foi pela primeira vez diretamente implicado no esquema de corrupção da Petrobras pelo ex-presidente da Transpetro, uma subsidiária da estatal petrolífera brasileira que pagou subornos a vários políticos como forma de garantir contratos com a estatal que era área de influência do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PDMB).

De acordo com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro tornado delator na operação Lava Jato, Michel Temer e outros 19 políticos do partido conservador pediram-lhe que a empresa financiasse ilegalmente as suas campanhas políticas. Todos “sabiam” do funcionamento do esquema de corrupção que Machado comandava na Petrobras e, “embora a palavra propina não fosse dita, esses políticos sabiam, ao procurarem o depoente, que não obteriam dele doação com recursos do próprio, enquanto pessoa física, nem da Transpetro, e sim de empresas que tinham relacionamento contratual com a Transpetro”. Ainda segundo o delator, nenhuma das doações solicitadas por ele às empresas era lícita.

Os subornos pedidos por Temer, o líder que substituiu Dilma Rousseff há um mês após esta ter sido afastada do cargo por 180 dias por suspeitas de manipulação das contas públicas antes das presidenciais de 2014, equivaleram a um total de 390 mil euros para a campanha de Gabriel Chalita, o candidato do PMDB à câmara de São Paulo nas eleições autárquicas de 2012.

“O contexto da conversa deixava claro que o que Michel Temer estava ajustando com o depoente era que este solicitasse recursos ilícitos das empresas que tinham contratos com a Transpetro na forma de doação oficial para a campanha de Chalita”, revelou Machado à Procuradoria-Geral da República. Michel Temer ter-lhe-á dito que estava com problemas no financiamento da candidatura de Chalita e perguntou a Machado se ele podia ajudar a colmatar isso. “O depoente disse que faria um repasse através de uma doação oficial no valor de 1,5 milhão de reais” — “ambos acertaram o valor” e “a empresa que fez a doação no valor ajustado foi a Queiroz Galvão”.

No seu último depoimento aos procuradores que investigam o esquema de subornos e lavagem de dinheiro, Machado acusa o atual Presidente do Brasil de ter mascarado estas contribuições ilegais oriundas do esquema de contratos da Petrobras como doações oficiais de campanha. O ex-presidente da Transpetro deu aos investigadores uma lista com 20 nomes de políticos do PMDB garantindo que, à data dos pagamentos, deixou claro aos envolvidos que os fundos que pediram vinham de “recursos ilícitos”.

À Reuters, o gabinete do Presidente interino garantiu que Temer sempre cumpriu as regras de financiamento de campanhas políticas. Já ao jornal “Folha de São Paulo”, Temer desmentiu ter pedido quaisquer contribuições ilegais para campanhas do seu partido, sublinhando que nunca esteve num “local inapropriado” com Sérgio Machado.

No início do mês, duas semanas depois de Temer ter tomado posse, Machado já tinha dito aos investigadores do Lava Jato que três altos dirigentes do PMDB muito próximos do atual Presidente interino tinham recebido um total de 70 milhões de reais (quase 18 milhões de euros) em subornos da Petrobras, mas até agora Temer tinha escapado a acusações diretas.

Desde que Michel Temer chegou à presidência, já houve duas baixas no seu governo interino. A primeira do agora ex-ministro do Planeamento, Romero Jucá, acusado de conspirar para obstruir a investigação ao esquema de corrupção na Petrobras. A segunda ocorreu uma semana depois do afastamento de Jucá, quando o ministro da Transparência, Fiscalização e Controlo, Fabiano Silveira, resignou ao cargo por suspeitas de ajudar políticos do PMDB a escaparem a acusações formais de corrupção no âmbito do Lava Jato.