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EUA: democratas clamam vitória no combate à posse de armas de fogo

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Murphy falou durante mais de 14 horas seguidas para forçar republicanos a aceitarem maior controlo sobre armas de fogo

Pete Marovich

Filibuster no Senado norte-americano, liderado pelo democrata Chris Murphy, terminou esta quinta-feira com um acordo entre os dois partidos para impedir que suspeitos de atividades terroristas obtenham licenças e para alargar os chamados 'background checks' às vendas online e às feiras de armas

Sob olhares atentos e curiosos de turistas, funcionários do Senado e, a dada altura, até dos seus dois filhos, o senador democrata Chris Murphy discursou durante 14 horas perante colegas dos partidos democrata e republicano sobre a necessidade de se aumentar o controlo sobre a venda e posse de armas de fogo, anunciando na madrugada desta quinta-feira uma enorme vitória nessa área.

“Sinto-me orgulhoso de poder anunciar que, depois de mais de 14 horas, vamos ter uma votação para encerrar a lacuna terrorista e tornar universais os background checks”, escreveu no Twitter pelas 2h da manhã em Washington DC (7h da manhã em Lisboa).

Numa ação conhecida por filibuster, que consiste em falar durante várias horas seguidas para forçar uma votação importante, o representante do estado do Connecticut terá conseguido que uma maioria qualificada dos senadores alinhassem na proposta de proibir que pessoas integradas na lista de suspeitos de terrorismo obtenham licenças de compra e porte de armas de fogo e numa outra que tem como objetivo alargar os chamados 'background checks' às feiras de armas e às vendas na internet.

Quando deu início ao filibuster ao final da manhã de quarta-feira, Murphy tinha prometido que iria ficar a discursar no Senado “até haver um sinal”. “Algum sinal de que podemos unir-nos” no que toca ao controlo de armas de fogo nos Estados Unidos, afirmou o senador, que começou por falar do tiroteio de 2012 na escola primária de Sandy Hook em Newtown, uma cidade do seu estado, que provocou 27 mortos, passando pelas centenas de outros massacres com armas de fogo que tiveram lugar no país desde então, incluindo o ataque do último sábado à discoteca gay Pulse, em Orlando, na Florida, no qual 49 pessoas morreram e 53 ficaram feridas.

“Para nós, que representamos o Connecticut, o falhanço deste organismo em fazer qualquer coisa, o que quer que seja, perante as contínuas chacinas não só é doloroso como pouco escrupuloso. Não houve um único debate agendado para o Senado” sobre a questão da posse de armas de fogo, referiu já perto do fim do filibuster. “Não houve um único debate agendado para os comités. Há 30 mil pessoas a morrer” diariamente no país, sublinhou.

A questão da compra, venda e posse de armas de fogo é um dos tópicos mais aguerridos da história recente dos Estados Unidos. De um lado está a maioria dos democratas e uma fatia do eleitorado que culpam a facilidade de aquisição de armamento pelas centenas de tiroteios e massacres que acontecem todos os anos no país — só este ano, em 163 dias houve 173. Do outro estão muitos republicanos, como este, e tantos outros eleitores que se apoiam na 2ª emenda da Constituição para defenderem o seu direito à posse de armas.

Passou quase uma década desde que o Congresso alcançou mudanças significativas a nível federal na legislação sobre armas de fogo. Em abril de 2007, as duas câmaras legislativas aprovaram um projeto-lei que reforçou o sistema de 'background checks' — após ter sido revelado que o atirador que matou 32 pessoas na Universidade Virginia Tech nesse ano conseguiu comprar as suas armas apesar do seu historial de problemas psiquiátricos porque não existia uma base de dados que pudesse ser consultada de imediato pelos vendedores.

Omar Mateen, o norte-americano de 29 anos suspeito do ataque homofóbico de sábado passado, que foi abatido pela polícia após horas barricado dentro da discoteca, conseguiu comprar carabinas semi-automáticas AR-15 e munições apesar de ter sido investigado pelo FBI por suspeita de atividades terroristas.

Depois do filibuster desta madrugada, os membros do Senado vão votar legislação que permitirá ao governo federal proibir a venda de armas e explosivos a qualquer suspeito de atividades terroristas — uma proposta semelhante à que a senadora democrata Dianne Feinstein apresentou em dezembro, um dia depois de um casal ter matado a tiro 14 pessoas em San Bernardino, na Califórnia. Essa proposta foi rejeitada pela maioria republicana do Senado. Surge agora no centro de uma nova votação, juntamente com a proposta de Murphy de alargar o sistema de 'background checks'.