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Clement Freud terá abusado sexualmente de dezenas de crianças

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Nascido alemão e naturalizado britânico, o neto de Sigmund Freud morreu em 2009 pouco antes de completar 85 anos

Getty Images

Neto de Sigmund Freud, que morreu em 2009, tinha uma casa de férias na Praia da Luz e aproximou-se de Kate e Gerry McCann poucas semanas depois do desaparecimento de Maddie. Após duas mulheres o acusarem esta semana de abusos e violação entre as décadas de 1940 e 1970, o ex-embaixador Craig Murray diz estar a ser contactado por “várias pessoas” que conhecem outras vítimas do ex-deputado liberal

Um antigo embaixador britânico disse esta quinta-feira ao "The Independent" que "várias pessoas" o contactaram para lhe revelarem que conhecem outras vítimas de Clement Freud, neto do psicanalista Sigmund Freud, que duas mulheres acusaram esta semana, publicamente, de abusos e violação num novo documentário televisivo.

O caso estalou na terça-feira, quando o canal ITV divulgou os primeiros trechos do documentário "Exposure", que foi transmitido esta quarta-feira à noite, onde Sylvia Woosley e uma outra mulher que não quis dar a cara acusam Freud de ter abusado sexualmente delas quando eram crianças, entre as décadas de 1940 e 1970. A segunda vítima acusa ainda o ex-deputado liberal de a violar quando tinha 18 anos.

Os media britânicos deram atenção redobrada às acusações perante suspeitas de que Freud possa ter estado envolvido no desaparecimento de Madeleine McCann de um complexo turístico na Praia da Luz, no Algarve, em 2007. Freud, que morreu em 2009 poucos dias antes de completar 85 anos, tinha uma casa de férias naquela localidade e aproximou-se dos pais de Maddie semanas depois do desaparecimento da criança, mantendo contactos recorrentes com Kate e Gerry durante esses dois anos.

A polícia britânica está a analisar as acusações de pedofilia contra Freud para apurar se as informações avançadas pelas duas mulheres são relevantes para a investigação ao desaparecimento de Maddie. E segundo Craig Murray, ex-embaixador do Reino Unido no Uzebequistão, não foram apenas elas que foram vítimas de Freud.

Em declarações ao "The Independent", Murray diz que tem estado a ser "contactado por várias pessoas" que dizem conhecer outras vítimas do deputado e escritor. "Dizem-me que sabiam do seu comportamento – não são vítimas, são pessoas a quem foram contados episódios, pessoas que conheciam vítimas", refere o diplomata. "Só esta manhã [hoje] fui contactado por sete pessoas. Não tenho informações concretas, mas parece haver várias acusações de que há mais [vítimas]."

Segundo Murray, os primeiros contactos aconteceram logo depois de ter publicado um obituário de Freud no seu blogue. Num comentário a essa publicação, uma mulher criticou o tom elogioso do texto: "Escrevendo como uma das mais de mil 'vítimas' sexuais, ainda a sobreviver, aterrorizada enquanto escrevo com medo de que ele não esteja realmente morto – esse homem era mau e implacável e utilizava todos os que entravam em contacto com ele para proveito do seu ego sem fundo. As nossas crianças, rapazes e raparigas, estão mais seguras após a sua partida. E esta é apenas a ponta de um icebergue de negócios sujos na política e nos media que atinge o coração da Grã-Bretanha desfeita que ele deixa para trás."

Após ter sido contactado pela ITV em 2015, Murray entrou em contacto com essa comentadora e fez a ponte entre ela e os produtores do "Exposure", o documentário onde, mantendo o anonimato, a vítima diz que conheceu Sigmund Freud em 1971, quando tinha 11 anos, e que foi abusada por ele aos 14 anos e violada aos 18. O seu testemunho junta-se ao de Woosley, que acusa Freud de ter começado a tocar-lhe de forma sexual em 1952, quando ela tinha 14 anos.

Na terça-feira à noite, o diplomata britânico publicou um novo post no seu blogue, intitulado "Clement Freud, my part in his downfall", que levou várias outras pessoas a contactá-lo para lhe revelarem mais abusos cometidos por Freud.

Murray, que foi demitido do cargo de embaixador no Uzebequistão em 2004 após denunciar abusos de direitos humanos no país, diz que alguns políticos e amigos do ex-deputado sabiam que ele era pedófilo. "Parece incrível agora que a pedofilia tenha sido tão galopante entre altos cargos; claramente algumas pessoas sabiam [dos crimes cometidos por Freud contra menores], como Cyril Smith [com quem Freud partilhava um escritório na Câmara dos Comuns] e Greville Janner."

Na quarta-feira, horas antes de a ITV transmitir o documentário sobre pedofilia onde Freud é acusado por Woosley e a outra mulher, uma terceira vítima denunciou que também foi violada pelo deputado. Vicky Hayes, de 64 anos, disse ao canal que o político era amigo dos seus pais e que ia frequentemente à marisqueira da família em meados da década de 1960. Os dois conheceram-se quando Hayes tinha 14 anos; três anos depois, Freud violou-a durante um passeio noturno.

"Deixei-me ficar quieta, assustada, enquanto ele se forçou sobre mim e me tirou a virgindade", relatou à ITV, dizendo que não contou aos pais porque o seu pai teria "matado" o deputado. "Não se espera que um amigo dos teus pais te viole", disse a vítima, exigindo que Freud seja destituído do seu título de cavaleiro do reino.