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Jornalistas foram os grandes responsáveis pela vitória de Trump na corrida republicana

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Tomohiro Ohsumi

Estudo da Universidade de Harvard aponta que os media foram "negligentes" ao não perceberem que "eram eles e não o eleitorado" os alvos da campanha do candidato populista nas chamadas "primárias invisíveis", que precederam a série de votações estatais que, entre fevereiro e junho, cimentaram a liderança do magnata na corrida presidencial

Se Donald Trump usasse a sua página de Facebook para definir a relação que mantém com os media, o status seria certamente o famoso "é complicado". Em novembro de 2015, acabado de se apresentar como candidato à presidência dos EUA pelo Partido Republicano, o magnata do imobiliário gerou controvérsia ao gozar com um repórter do "New York Times" que é portador de deficiência. Meses antes, em agosto, já tinha expulsado um jornalista latino-americano de uma conferência de imprensa.

Ao longo das votações estatais em primárias e caucus, que começaram a 1 de fevereiro e que terminaram na semana passada, e à medida que foi cimentando a liderança da corrida à nomeação republicana, essa relação só piorou. A agressão de um fotojornalista da revista "Time" num evento de campanha do candidato populista foi a primeira de uma série de notícias sobre os maus tratos a jornalistas. Pelo caminho o seu diretor de campanha, Corey Lewandowski, foi detido e eventualmente afastado por ter agredido uma jornalista do conservador "Breitbart News", enquanto Trump foi usando o palanque e a atenção para ataques ferozes a jornalistas específicos ou à classe dos media.

Esta semana, a relação complicou-se ainda mais: depois de o site "BuzzFeed" ter anunciado que vai pôr um fim precoce ao contrato de publicidade com o Comité Nacional Republicano porque não quer dar espaço a um candidato "tão prejudicial como o tabaco", Trump anunciou que não vai dar credenciais de imprensa aos jornalistas do "Washington Post" para a cobertura do ciclo de outono das presidenciais, que precede a ida às urnas a 8 de novembro. Mas de acordo com um novo estudo da Universidade de Harvard, em vez de atacar os media e de os acusar de serem "desonestos", como fez com o WaPo, o populista devia agradecer-lhes a preciosa ajuda que lhe deram.

Durante as chamadas "primárias invisíveis", o período que antecede as votações estatais que conduzem à nomeação de um candidato de cada partido, os jornalistas foram "negligentes" ao "não perceberem que eram eles e não os eleitores" os alvos de Donald Trump.

Assim aponta um estudo revelado na segunda-feira pelo Centro Shorenstein de Media, Política e Políticas Públicas da Escola Kennedy de Harvard. De acordo com os investigadores, a publicidade gratuita garantida ao candidato republicano pelos media, através da cobertura de todo e qualquer evento ou declaração controversos, foi a grande alavanca de Trump que, em última instância, ditou a sua vitória na corrida republicana.

Durante o ano que precedeu as primeiras votações no Iowa e New Hampshire a 1 de fevereiro, a cobertura mediática da candidatura de Trump "não teve precedentes" em relação aos dois "indicadores-base de cobertura de notícias [que] poderiam ajudar a prever o alto nível dessa cobertura".

Trump não tinha, à partida, uma boa posição nas sondagens nem a capacidade de angariar dinheiro para a campanha, um ponto que costuma ser visto pelos jornalistas e pelo sistema como uma métrica da potencial força e sucesso de cada candidato. Nenhum destes dois indicadores fazia prever a cobertura que foi dada à estrela de reality shows que espantou quase todos ao derrotar os rivais na corrida republicana.

"Quando a cobertura noticiosa [da campanha] começou, ele não estava num dos lugares cimeiros das sondagens e ainda não tinha angariado qualquer dinheiro", referem os investigadores de Harvard. Mas "ao entrar na corrida, teve muito mais atenção dos media do que nas sondagens e no final das primárias invisíveis, já ocupava um lugar nas sondagens suficientemente alto para obter cobertura como líder da corrida. Ele foi elevado até esse lugar por uma quantidade sem precedentes de notícias gratuitas."

No mesmo estudo, a equipa de investigação coloca uma pergunta quase retórica sobre o fascínio dos media com Trump. A resposta surge assim: "Os jornalistas são atraídos pelo que é novo, fora do comum, pelo sensacional — pelo tipo de material que vai atrair e manter as atenções da audiência. Trump enquadra-se nessa necessidade como nenhum outro candidato na memória recente. Trump é, sem dúvida, o primeiro candidato presidencial criado pelos media. Os jornalistas alimentaram o seu lançamento."

Numa conclusão que, segundo o "Poynter", poderá ser disputada por alguns membros da classe, os investigadores acusam os jornalistas de negligência. "Trump explorou o desejo luxurioso [dos media] por histórias fascinantes", referem, antes de sublinharem que, ao não ter "uma base eleitoral" nem "credenciais", o magnata "não tinha outra opção" que não a de aproveitar-se dos jornalistas. E eles deixaram.